11 de julho. Depuração

Por Luis Fernando Verissimo

Quanto Bebeto fez o segundo gol do Brasil, em Dallas, Parreira e Zagalo se entreolharam, preocupados. As coisas não estavam indo conforme o planejado. Dois a zero era demais. Se não se cuidassem os brasileiros fariam três, talvez até quatro. O Brasil estava seriamente ameaçado de ganhar da Holanda com facilidade. Era preciso fazer alguma coisa.

Parreira pensou no que podia fazer. Tirar Taffarel e botar Cafu no gol. Instruir Romário a beliscar a bunda do juiz, forçando uma expulsão. Qualquer coisa para evitar que a seleção ganhasse com folga e deixasse o Brasil despreocupado.

Porque é necessário que o Brasil fique preocupado até o fim. É preciso ganhar a semifinal com um gol no último minuto em posição duvidosa. A decisão final contra a Alemanha precisa ser nos pênaltis, e o pênalti que decidirá tudo precisa ser cobrado, deixa ver… Pelo Zinho! Isso.

Zero a zero no tempo regulamentar, zero a zero na prorrogação, quatro a quatro nos pênaltis, a Alemanha erra seu último pênalti e Zinho prepara-se para bater o pênalti que decidirá se o Brasil é campeão do mundo ou não.

O Brasil, segundo o planejado, precisa ganhar esta Copa com as calças numa mão e o coração na outra. Porque esta não será apenas uma Copa do Mundo. Será uma catarse nacional. Será um teste de nervos e caráter.

Qualquer jogo fácil é um furo no estratagema de nos fazer penar. Estou convencido de que Parreira se engajou numa cruzada moral para salvar a nossa alma e purga-la pela preocupação. Purgá-la da arrogância e da soberba, purga-la da pretensão de que toda a Copa do Mundo é nossa antes de começar, e se não for nossa no fim é porque algum técnico traiu nossa predestinação.

Existem derrotas humilhantes. O Brasil busca uma vitória humilhante. Temos que ganhar ali, ali, senão não será uma educação e um rito, será apenas futebol.

Este está sendo um ano de tragédia (Senna) e recomeço (o real) no Brasil e Parreira cumpre seu papel nesta orgia de reavaliação nacional.

No sábado ele chegou a pensar numa solução radical já prevista no esquema: ordens para Aldair e Márcio Santos chutarem no próprio gol e empatarem a partida.

Felizmente, isto não foi preciso, os holandeses conseguiram empatar sem ajuda, ou quase sem ajuda. Depois era só esperar que Branco desempatasse e tudo voltaria a ser como planejado.

Acredite, o sofrimento nos faz bem, os brasileiros serão pessoas mais maduras e conscientes depois desta Copa. Os que não morrerem do coração antes, é claro.

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