13 de junho. Terra de Marlboro

Por Luis Fernando Verissimo

Viemos do Brasil a San José não pelo caminho mais lógico, que seria São Paulo-Los Angeles-San José, mas pelo caminho mais bonito. De Miami a Dallas voa-se sobre nada mas de Dallas a San José voa-se, entre outras coisas, sobre o Monument Valley, que todo mundo já conhecia de filmes do John Ford. Pelo menos todo mundo da minha idade. É aquele deserto com formações rochosas que parecem catedrais, e de trás das quais saíam os índios. Depois foi tudo arrendado pelo Marlboro.

Vendo a Califórnia do alto se compreende porque toda a história política do estado teve a ver, de um jeito ou de outro, com a luta pela água. A Califórnia é um produto do banditismo empreendedor americano, já que eles a tomaram dos mexicanos e a colonizaram com aventureiros, mas é acima de tudo um produto da irrigação.

A região onde estamos – San José, Santa Clara, Los Gatos, é tudo uma coisa só – fica na base de uma península cuja ponta é San Francisco. São cidades residenciais, muita gente vive por aqui e trabalha em San Francisco, mas a região se desenvolveu com as novas indústrias eletrônicas, principalmente de informática (eles fornecem “chips” de computador até para o Japão), e o contraste dos seus gramados bem cuidados e suas ruas arborizadas com as montanhas calcinadas em volta dá uma ideia do que significou a conquista desta terra pela distribuição racional da água.

À primeira vista San José parece ser tudo que o Henry Miller quis dizer quando chamou os Estados Unidos de “o pesadelo ar-condicionado”, antes de fugir para a Europa. Mas os encantos ensolarados do lugar se impõem sobre a aparente falta de alma e, afinal, o próprio Henry Miller acabou seus dias na costa do Pacífico, entregue às amenidades californianas. É onde nós todos devíamos vir para morrer.

Ironicamente, sobrevoamos a terra de Marlboro num avião em que era proibido fumar. Nos aeroportos era proibido fumar. Quase dez horas de proibição. O resultado é que cheguei a San José louco por um cigarrinho. O que não seria estranho se eu não tivesse fumado só uma vez na vida, aos doze anos, só para descobrir que engolir fumaça era horrível. Quem entende a mente humana? Certamente não a mente humana.

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