18 de junho. O despertar

Por Luis Fernando Verissimo

A distribuição dos ingressos para a imprensa começaria às sete, tínhamos que estar no Media Center do estádio de Palo Alto de manhã cedo. Armei o despertador do relógio eletrônico ao lado da minha cama para tocar às seis. Não foi uma tarefa fácil. Tenho, diante de qualquer mecanismo mais complicado que uma tesoura, o mesmo temor reverencial, nascido da ignorância, que os antigos tinham diante do trovão.

Na verdade, nunca entendi direito como funciona uma torneira. E armar o despertador do relógio requeria uma cultura eletrônica que ainda não chegou à minha tribo. Apertei os botões indicados, várias vezes por via das dúvidas, e fiz o melhor que podia. Só ficaria sabendo se tinha feito o certo às seis da manhã seguinte. Se o despertador não tocasse eu teria fracassado de novo, se tocasse na hora marcada eu seria um gênio.

E de repente, sentado na cama do hotel, sem saber se tinha acabado de engatilhar o despertador ou desativado todos os computadores da vizinhança, me dei conta que o Parreira devia estar sentindo exatamente a mesma coisa. Ele também passou todo este tempo ajustando um mecanismo que só saberá se funciona na hora. Não há como antecipar a hora, se não funcionar quando deve o despertador fracassou. Tocar antes ou depois da hora é o mesmo que não tocar, para todos os efeitos práticos.

Não adianta testar o despertador. Ele pode funcionar no teste e não funcionar na hora. Pode não funcionar na hora porque funcionou no teste. O sucesso de um despertador, como o de uma seleção, depende da perfeita conjunção de desempenho e ocasião: ele tem que funcionar quando deve, não basta abafar em treino.

Só espero que não esteja acontecendo com o Parreira o que aconteceu comigo. Dormi preocupado e acordei às cinco, para ficar de olho no despertador. Queria estar acordando para ver se o safado ia me acordar.

No treino da seleção que assisti na quinta não havia sinal de preocupação ou insônia na comissão técnica. Romário e Ricardo Rocha não treinaram com o resto mas isso também não parecia estar tirando o sono de ninguém. Parreira não parece duvidar do seu despertador.

O meu não funcionou. Mas ouvir dizer que o radar do aeroporto de San José saiu do ar. De qualquer jeito, os ingressos para o jogo de estreia do Brasil não foram distribuídos às sete. Só a partir de uma. Entre as reputações que certamente não sairão intactas desta Copa está a da eficiência americana.

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