27 de maio. O que fazer?

Por Luis Fernando Verissimo

Não dá para disfarçar. As maiores preocupações de quem se prepara para ir à Copa na Califórnia são, na ordem decrescente:

10 – A Coca-Cola. Lá eles sempre servem com mais gelo picado do que Coca-Cola.

9 – A comida. Como se sabe, a comida americana é estranhíssima e não combina com o paladar brasileiro. A sorte é que na Califórnia também tem McDonald’s. Vai ser a nossa salvação.

8 – Prisão por assédio sexual. “Good morning” para a camareira do hotel pode ou não pode ser considerado assédio sexual. Depende do modo de pronunciar o “gud”. De qualquer maneira, é bom levar o número do consulado.

7 – Atravessar a rua em San Francisco. Sabemos, pelo cinema, que há perseguições de carros pelas ruas de San Francisco a todas as horas do dia. Quando não é perseguição mesmo, estão filmando uma. Há pessoas que esperam semanas para atravessar uma rua em San Francisco.

6 – Loucos. Há menos risco de assalto a mão armada na Califórnia do que no Brasil, certo, mas aqui nos assaltam um de cada vez. Lá eles chegam com duas metralhadoras em cada mão, matam dezessete só para pedir silêncio, declaram que não querem nos roubar, só nos converter para a religião deles, mas engolem uma granada antes de dizer qual é. Você pode sobreviver, mas o seu dia está estragado.

5 – A língua. Recomenda-se um curso rápido para aprender o idioma local, pelo menos o suficiente para evitar os mal entendidos maiores. Também é recomendável aprender o inglês, já que nem todos falam espanhol.

4 – Custo. Não se deve esquecer que lá, como na Argentina, todos os preços acompanham o dólar.

3 – O centro da nossa defesa.

2 – A forma do Taffarel.

1 – Terremoto.

Há quem diga que a melhor maneira de se prevenir contra terremoto é pedir para a Varig deixar a porta do avião aberta e os motores ligados, para qualquer eventualidade, mas esta é uma posição irrealista. Devemos nos preparar lucidamente para o caso de um terremoto. Eu, por exemplo, pensei muito no assunto e já sei exatamente o que fazer. Vou correr para a rua gritando feito um louco.

 

NOTA DA REDAÇÃO

Entre maio e julho de 1994, o escritor Luis Fernando Veríssimo publicou uma série de textos divertidíssimos sobre a Copa do Mundo para os jornais “Zero Hora”, “Estadão” e “Jornal do Brasil”, que depois fizeram parte do livro “América”, publicado pela Artes e Ofícios Editora Ltda, de Porto Alegre, em 1994.

Para celebrar os 25 anos do tetracampeonato mundial conquistado pelo Brasil, vamos transcrever esses textos na íntegra, de preferência nos mesmos dias da semana em que foram publicados. Divirtam-se.

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