28 de junho. Segregados

Por Luis Fernando Verissimo

Adiantamos os relógios quando chegamos a Detroit vindos de San José, mas retrocedemos no tempo. Em San José estávamos na América pós-industrial, na terra do silício e da manufatura a frio. Aqui estamos num dos corações da velha indústria americana, na terra da fornalha e do aço, onde a linha de montagem foi inventada.

Aqui começou o fordismo, a variedade de capitalismo que transformou as equações de Marx e mudou a face do planeta. Se o capitalismo fosse uma religião era na direção de Detroit que todos os fiéis do mundo deveriam se curvar pelo menos uma vez por dia.

Esta região sofre mais do que qualquer outra os ciclos do capitalismo americano. Flint, que fica aqui perto, já teve um dos índices de renta mais alto dos Estados Unidos (proporcional ao que tem hoje Los Gatos, onde estava a seleção), depois virou quase uma cidade fantasma com a crise da indústria automobilística, agora parece que está se recuperando.

Detroit, literalmente, se reergue das suas próprias ruínas. Era uma cidade dilapidada pela decadência e soterrada em fuligem, hoje tem um centro moderno como poucos. Foi para cá – Flint, Detroit, Chicago, Garry, etc. – que vieram as grandes levas de migrantes do Sul agrícola no começo do século, atrás de emprego. A maioria era de pretos. Existe uma classe média preta considerável na região, e uma subclasse preta que aumenta e diminui de acordo com os ciclos.

Detroit já teve alguns dos piores conflitos raciais dos Estados Unidos e em criminalidade só perde para Washington, a capital do país. E é um dos centros da cultura negra, a Motown dos discos e dos artistas famosos que dominam a música americana desde a década de 60.

Mas para chegar a Detroit de onde estamos hospedados, juntos com a seleção e a maior parte da imprensa que a segue, é preciso pegar a “highway” número dez e viajar alguns quilômetros. Estamos aqui, segregados da história e do mundo, numa agradável promiscuidade ar-condicionada.

No outro dia, o Pedro Bial tentava explicar a uma garçonete do hotel por que o Romário saira sem pagar seu cafezinho. No elevador, o Branco nos explicava as suas dores nas costas. Das janelas do hotel só se vê estradas, campos e outros edifícios isolados como o nosso. O jogo vai ser num estádio coberto, também à prova de realidade.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here