4 de julho. Legendas

Por Luis Fernando Verissimo

No verão as televisões americanas mostram programas antigos enquanto suas estrelas tiram férias. Na outra noite vi a repetição do programa do Arsenio Hall – um dos tantos Jô Soares Onze e Meia que tem por aqui – em que um dos entrevistados era o Miles Davis, que morreu no ano passado. Uma raridade. O misterioso Miles não dava entrevistas, entre outras coisas porque quase não tinha voz. Só deve ter topado esta porque o Arsenio Hall é preto e apresenta muito jazz no seu programa.

Miles tocou com seu grupo, depois sentou num sofá entre a Sigourney Weaver e o apresentador para responder as perguntas deste. Miles falando era como Miles tocando com surdina. Hall o chamara de “uma legenda” mas dissera que ele não gostava de se chamado assim. Por quê?

– Porque eu ainda não terminei – disse Miles de trás dos seus grandes óculos escuros.

Maradona podia dizer a mesma coisa quando chegou aqui com o time argentino. No primeiro jogo da Argentina, os 4 x 0 sobre a Grécia com um golaço seu, provou que ainda tinha muita coisa para fazer até que sua legenda ficasse pronta. Decididamente, ainda não tinha terminado. Mas um homem não controla seu próprio fim, a não ser que se autodestrua por escolha.

Não se sabe se Maradona escolheu este fim, se o vício já tinha feito a escolha por ele, se foi um acidente ou se foi uma injustiça. A tese da injustiça correu por aqui, e quem quisesse poderia comparar o escrúpulo jurídico com que são tratadas todas as evidências do que o O.J. Simpson matou mesmo a mulher (ainda não está certo nem que ele vai a julgamento) e a maneira sumária com que Maradona foi condenado, mesmo que a natureza de um caso e de outro torne a comparação grotesca. O fato é que Maradona terminou.

Quando o goleiro Michel Preudhomme, da Bélgica, saiu correndo da sua área para tentar cabecear aquele escanteio na área da Alemanha e fazer o gol que empataria o jogo no último minuto e se transformaria na cena mais insólita e espetacular da Copa, saiu por impulso, por desespero, até por loucura passageira.

Mas no fundo saiu porque queria ser o gestor da sua própria legenda, saiu pela biografia. Não alcançou a bola, e o gol que não fez se juntou aos gols que o Pelé não fez em 70 na galeria das melhores coisas que quase aconteceram em todos os tempos.

Preudhomme precisou se contentar em ser apenas o melhor goleiro do mundo, por enquanto. Mas certamente ainda não terminou.

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