6 lições da ficção científica para tempos de pandemia

Por Luiz Emanuelli

Se os gêneros cinematográficos fossem uma família, a ficção científica seria aquele tio maluco que causa constrangimento geral nos almoços de domingo por falar verdades inconvenientes.

Todo mundo sabe que ele usava drogas quando jovem e que sempre foi perturbado por questões sobre vida extraterrestre, viagens no tempo, distopias e realidades paralelas. Mas veja bem: embora bem louco, o tio sci-fi tem grandes qualidades.

Por exemplo, o cara é versado em genética, física e ciências espaciais, coisas que o tio do pavê nem passa perto, quiçá o tio burro das fake news do zapzap.

E sabe qual o problema? Não prestamos atenção em quem devia, e talvez estivéssemos passando melhor (ou menos pior?) por esse momento de desgraça pandemônica de covidizenove.

O tio sci-fi avisou e deu as lições, a gente que não quis ouvi-las.

Lição 1: não coma animais silvestres e exóticos (filme: O Enigma de Outro Mundo)

Pense num lugar desolado, remoto e perdido do mundo. Não, não vale pensar no Brasil de 2020. Imagine um lugar menos insólito e melhor habitado: a Antártica, por exemplo. Isso mesmo, lá no cu gelado do mundo, há centenas de milhares de anos, caiu uma nave espacial com uma Coisa (Thing, no original) dentro.

Se ninguém tivesse ido lá fuçar, o troço ia continuar na dele. Mas né? Tem sempre alguém querendo enfiar a maria-mole onde não se deve, e uns noruegueses foram lá cutucar a Coisa e a Coisa acordou. “E daí?”, pergunta a nossa jumentíssima sapiência presidencial.

Daí que a tal coisa não é um novo amiguinho superevoluído que caiu na Terra para ajudar os seres humanos a serem mais tranquilos e bondosos. O nome disso é Rivotril.

O troço da nave é um pesadelo que invade organismos e replica célula por célula do corpo infectado. Isto é, a Coisa “mata” o hospedeiro, se transforma nele e, quando ameaçada, se deforma numa monstruosidade bizarra de dar inveja ao Cronenberg.

É o que ela faz com todo o grupo de noruegueses e também com um cachorro, que foge e é adotado como pet por uma outra turba de americanos instalados numa comunidade científica cheia de homem barbado e alcoólatra. “E daí?”, pergunta de novo o senhor excrementíssimo.

Daí que o bichinho contamina geral, menos o nosso herói protagonista: o cowboy interpretado por um Kurt Russel com cara de Jim Morrison bêbado e piolhento. O badass salva a pátria, toca fogo em tudo e se resigna a morrer como mártir, evitando transmitir a Coisa para o resto do mundo.

Qual é a lição desse filme? Se a chinesada tivesse assistido a ele, teria aprendido que não se mexe com bichos e coisas de origem duvidosa. Pangolins, morcegos e flangos podem até fazer parte do exotismo culinário chinês (vamos ser politicamente corretos). Mas catástrofes globais poderiam ser evitadas se esses animais continuassem em seu habitat natural, ou se pelo menos fossem cozidos antes de consumidos.

Lição 2: Respeite a quarenta (filme: Alien, o Oitavo Passageiro)

Todo mundo conhece a cena: o humano estrebucha e, da barriga dele, nasce um bebezinho alien no formato de consolo, silvando como se tivesse acabado de levar um tapinha no exoesqueleto. Daí o consolinho vira um monstrão e mata todo mundo da espaçonave, menos a macho alfa da Sigourney Weaver. E tudo isso poderia ter sido evitado se a quarentena tivesse sido respeitada.

Explico: no filme, a humanidade atingiu a tecnologia de exploração mineral espacial e grandes banheiras são usadas para transportar matérias-primas dos planetas-colônias para a Terra. Isso quer dizer que estamos num futuro avançado, embora os personagens ostentem cabeleiras bregas à la anos 80. Uma dessas espaçonaves é a Nostromo, que carrega milhões de toneladas de minério e um grupo de sete passageiros humanos.

No meio do trajeto da volta para cá, a embarcação capta sinais supostamente emitidos por vida inteligente. O protocolo exige a investigação da mensagem, e descobre-se que ela teve origem em um pequeno planeta cavernoso repleto de ovas alienígenas. Três da tripulação baixam lá e um deles acaba se infectando por um parasita medonho.

A regra é clara: o infectado não pode entrar na nave sem antes passar pela quarentena. Mas o médico do grupo desobedece o procedimento e abre a escotilha para o contaminado e, consequentemente, para o oitavo passageiro (ele mesmo, o Alien parasita).

Daí, o que era só um crustáceo que curte chupão na boca acaba se transformando num bichão lovecraftiano, letal e homicida – pois é, nem todo ET é bonzinho, cabeçudo e enrugado como os que levantam voos de bicicleta.

E o que o monstro faz? Toca o terror, explode e esquarteja um por um da tripulação, até chegar na única com cérebro e bolas para sobreviver: a Sigourney, que aliás tinha defendido copiosamente o isolamento do infectado.

Portanto, a lição aqui é clara: quem fura quarentena acaba sendo comido pelo bicho.

Lição 3 Ouça a ciência (filme: Os 12 macacos)

Digamos que um vírus causador de doenças respiratórias se espalhe rapidamente pelo mundo e nenhum governo tome precauções para debelar a pandemia. Daí que morrem muitos milhões de velhos pobres e sobrevivem os ricos fortes com histórico de atleta.

Não, não é um plano nazista, isso é quase o que acontece nesse filme. A diferença é que, nele, um vírus super-letal se espalhou profusamente e dizimou 99% da população mundial. Sobrou, no entanto, um pequeno refugo da humanidade que vive encalacrada em instalações subterrâneas.

Entre os sobreviventes está o careca do Bruce Willis, que em 2035 é convocado a viajar ao passado para colher informações sobre a origem do vírus e ajudar os cientistas a desenvolver uma cura.

O certo era ele ter voltado para 1996, quando a epidemia foi supostamente deflagrada pelo Exército dos 12 Macacos, mas dá merda e ele vai parar em 1990, completamente fora de si, berrando coisas sobre micróbios assassinos e viagens no tempo. Resultado: ele é internado num manicômio onde conhece o Tyler Durden do Brad Pitt.

E acontece o que não deveria: o Bruce, alucinado de drogas ansiolíticas, semeia a ideia do vírus apocalíptico na cabeça fraca do Tyler, um ambientalista doido que vai usar os recursos da família ricaça para criar o grupo dos 12 Macacos.

Nesse ponto do filme, estamos em 1990, mas daí o Bruce some e volta para 2035. Depois, aparece pelado numa trincheira da 2ª Guerra. Depois, surge de novo em 1996. Depois, volta para 2035. E finalmente, cai de novo em 1996.

Se você se perder, tudo bem. É um filme do Terry Gilliam, você queria o quê? Esgotado de tanto teletransporte, o viajante do futuro (ou passado?) faz o que um certo miliciano nunca vai fazer: reconhecer que é dominado por vozes da própria cabeça insana.

A história podia parar aí, mas nesse meio tempo, uma cientista (que havia conhecido o careca no hospício em 1990) começa a investigar as tais profecias do maluco e acaba encontrando indícios de que alguém realmente possui um vírus capaz de matar todo mundo, mesmo os atletas com histórico. E não é o Brad Pitt, como o enredo indicava…

Enfim, a lição desse filme é que um dia, um cara (esquisito, é verdade) avisou que um vírus (já existente) contaminaria e dissiparia a humanidade. Acharam que era loucura. Não era. Foi o mesmo com o coronavírus. Fomos avisados por médicos e cientistas. O mundo achou que era exagero e demência. Não era…

Lição 4: Use o cérebro (filme: 2001 – Uma Odisseia no Espaço)

Esse clássico é dividido em duas partes. Na primeira, A Aurora da Humanidade, dois bandos de caras fantasiados de macaco estão em conflito territorial. Na treta, um dos lados está visivelmente em vantagem porque domina a arte de urros, safanões e puxadas de cabelo, tipo briga de mulher.

Mas aí rola um twist: o grupo de primatas mais fracos depara com um monólito preto vindo sabe-se lá de onde. O contato com essa caixa de som deixa a macacada em êxtase como se estivesse em festa eletrônica de playboy marombado.

No dia seguinte, o mais descolado da turma começa a fazer uns batuques com uma ossada de capivara e descobre que osso (mais especificamente, fêmur) pode ser usado para rachar a cabeça dos macacos rivais. Dito e feito, na próxima treta entre os grupos, os caras armados de fêmur debelam facilmente os oponentes.

O que tudo isso quer dizer? Que o macaco vencedor usou o cérebro (ativado pelo troço preto) e descobriu uma tecnologia que mudou radicalmente o equilíbrio entre os bandos primatas, o que, em resumo, deflagrou um novo ciclo na evolução humana.

Corta, e entra a segunda parte do filme: estamos em 2001 e espaçonaves singram pelo vácuo do sistema solar. A Lua virou estação de férias e, sabe-se lá como, aparece um monólito preto por lá. Isso significa que vem pela frente mais um salto na evolução humana.

É o que sugere as cenas finais do filme, quando, depois de fazer uma viagem psicodélica hippie anos 60, o astronauta protagonista se transforma num enorme feto boiando no espaço sideral.

É tudo metáfora. Mas, enfim, se você não entendeu a lição desse filme, deve ser porque você é parente daqueles macacos derrotados lá do começo da história.

Lição 5: Não seja mobral de fake news (filme: Laranja mecânica)

Adolescência: aquela fase da vida (eterna para algumas pessoas) em que você é um pentelho com o cérebro transbordado de hormônios. Sim, adolescente é um pé no saco, mas fica ainda pior quando se entope de droga.

É o caso do protagonista, Alex, desse filme. E não é com qualquer bauret ou corote. É com Moloko, um catalisador de ultraviolência que desembesta o id e estimula o nóia a cometer crimes de espancamento, estupro e homicídio. Pois o nosso meninão vai fazendo as suas noitadas de ultraviolência, até que a casa cai e ele é preso e cooptado pelo Estado (o nosso grande superego).

Encarcerado e inútil, Alex acaba sendo convencido a virar cobaia de um “programa de recuperação” que envolve lavagem cerebral química (injeção de drogas) e mental (projeções intermináveis de filmes).

A programação dá certo e Alex, quando submetido a qualquer nesga de violência, sofre síncopes horríveis de ojeriza. O processo, enfim, transforma o facínora num laranja mecânica, inibido de suas pulsões violentas.

Qual é a lição? Assim como Alex, somos submetidos aos muitos programas de condicionamentos do Estado, não tão aparentes e sórdidos como os do filme, mas mais sutis e homeopáticos. Bem, nem tanto. Hoje, por exemplo, as publicações de fake news em doses industriais, e de origens duvidosas (milicianas?), têm produzido laranjas (robôs, gados, macacos) mecânicas em massa. Não seja mais uma.

Lição 6: prepare-se, ainda vem coisa pior (filme: Wall-e)

Nesse, que é de longe o filme mais cool dessa lista, estamos num futuro em que todas as pessoas são ultra-adiposas e passam o dia todo sentadas e alienadas, em frente a uma tela, comendo junk food sem parar. Nenhuma novidade, né? Você já vive assim.

A única diferença, no filme, é que nós, homo consumistas, destruímos a Terra e moramos numa imensa espaçonave controlada por um sistema de inteligência artificial tipo Matrix.

Os únicos que dão as caras por aqui, no planeta do coronavírus, são as baratas (claro), os chineses (óbvio) e os robôs, alguns deles com a única função de limpar a sujeira deixada pelos imensos sacos de banha que nos tornamos.

É o caso do nosso herói Wall-e. Desolado, vivendo em meio às montanhas de lixo, ele se depara e se apaixona por uma robozinha programada exclusivamente para encontrar algum resquício de vida orgânica na Terra. O achado seria o estopim para deflagrar o retorno dos humanos para o nosso planeta de origem.

A gatinha encontra uma amostra de planta e cumpre a missão, mas antes rolam umas sabotagens que dariam orgulho a qualquer presidente miliciano de país de 3º mundo.

E qual é a lição aqui? Várias, uma delas é que, talvez, a gente atinja a tecnologia de migração espacial, mas só porque inviabilizamos nossa vida na Terra.

O coronavírus passará e vai deixar um colapso econômico global, que vai ser seguido por um colapso ainda pior, o climático. Então, fuja para as montanhas enquanto é tempo.

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