A cidade dos butiquins (the end)

Moacyr Luz com o trombonista Allan Abbadia, durante o “Samba do Trabalhador”, no Renascença Clube

Por Moacyr Luz

A cidade que fecha este livro é a cidade dos butiquins mais vagabundos, e esses butiquins têm nomes como se fossem em si um principado, uma entidade que faz a cabeça, que rege a alma.

Dobrar o sol que queima a esquina do Adônis, sentando no canto com seu Arnaldo, que prepara os bifes para o almoço. Ter próxima a saudade do Paulinho no seu bar de Higienópolis, guisando o galo capão e, depois, atravessar o viaduto até encontrar a sombra do Amendoeira, onde Lulu me levou num sábado de carne-seca.

É assim a cidade: um Iado subúrbio – a bermuda apertada na protuberante barriga, dobrada no cós; outro lado azul, a sunga apertando a protuberante barriga, dobrado o elástico, no Bracarense.

São os mesmos destinos: o sanduíche de pernil cortado em Diagonal, Cervantes, Paladino ou Roquinha, todos frutos no mesmo forno que fez nascer o coração da cidade.

No óleo, em que as sardinhas passam pela Miguel Couto, viram peixe-boi na Paulistinha, até as pescadinhas estarem abertas no Sobrenatural.

Depois, entardecer no Café Varnhagen ou no Costa de balcão maravilhoso e decidiu as calderetas do Bar Luiz, a almôndega de outro ex-alemão, o Brasil, onde Albino Pinheiro só entrava pela Lavradio.

Ou ainda, apertadinho, beber três garotos em pé, perto da São José. Voltando ao Brasil, também se alcançam os chopes na Mem de Sá, mas se você quer sossego, será notado facilmente.

Mais butiquins. Dona Maria de árvore, afago e Zona Norte. O infalível Jóia, na rua Conceição, servindo ironia e um feijão fervido no paio português. Término reconhecendo em cada anônimo um Ernesto brasileiro, que sempre separa o da cerveja no orçamento.

Homens antigos ou novos, como os Belmontes com seus pastéis, o Getúlio e a sua madrugada, os cantinhos clássicos do Arco dos Teles no passar imperial de engravatados.

Andam no tempo as recordações, garçons confidentes, cadernos de pendura, primeiros porres e falsas juras de lucidez. Andam para permanecerem parados na fantasia que a cidade sustenta como a sua presença-viga, sambando parado, miudinho, ou curvando reverência aos pés dela, nossa porta-bandeira, a cidade do butiquins mais vagabundos.

Papo reto com Ruy Castro

Eu tinha uma dívida íntima com o Ruy. O livro que ele escreveu sobre a cidade, “Carnaval no fogo”, havia me emocionado muito. Costumamos trocar e-mails, falando entre outras coisas das sofridas partidas do Flamengo e, sempre que posso, tento ouvir algo novo sobre Nelson Rodrigues, um ídolo nosso. Nelson e Flamengo. Ruy não bebe mais, mas a sua lucidez sobre o assunto me embriaga. Tenho muitas doses ainda para ouvir dele.

Os butiquins da Zona Sul têm o mesmo charme dos da Zona Norte?

Claro. Por que o preconceito? Alguns dos melhores vagabundos que conheci sempre viveram na Zona Sul.

E você acha que essa instituição nasceu mesmo por aqui?

Não tenho dúvida. Em são Paulo, por exemplo, onde não existe butiquim, as pessoas têm de beber na padaria. Acho uma falta de respeito o sujeito estar bebendo tranquilamente às oito da manhã e ter de conviver com gente que entra para comprar iogurte e margarina.

Você já foi um sujeito de antes de decidir morar na rua tal, dá uma conferida no comércio pra ver se tem um bom butiquim?

No Rio, isso não é preciso. Já morei na Glória, no Flamengo (vários lugares) e em Botafogo (no Solar da Fossa), e sempre havia um butiquim de responsa por perto. Agora, que não bebo há 17 anos, moro no Leblon, onde tem um botequim a cada 100 metros.

Você que já escreveu “Ela é carioca”, poderia escrever “Ela é paulista”, “Ela é mineira” ou “Ela é gaúcha”, por acaso?

No caso, o “ela” se refere a Ipanema, porque o livro se chama “Ela é carioca – Uma enciclopédia de Ipanema”. O Rio é a única cidade com vários bairros que justificariam uma enciclopédia para si. Exemplos: Copacabana, Tijuca, Vila Isabel, Lapa, Catete… Eu adoraria que alguém fizesse esses livros. As cidades que você falou certamente também renderiam uma enciclopédia cada uma, mas da cidade inteira nenhuma delas tem um ou mais bairros com a tradição, a história e a longevidade dos nossos.

E beber no centro da cidade. Qual o valor que tem?

No tempo em que eu trabalhava lá (no Correio da Manhã, na Rua Gomes Freire), tinha a grande vantagem de estar perto do trabalho. Era só atravessar a rua e ir beber no butiquim em frente com o Ismael Silva e o Nelson Cavaquinho.

Se em vez de ser no antigo Manolo, o Tom Jobim bebesse em Madureira, a bossa nova teria outra harmonia?

Talvez sim. Não necessariamente melhor ou pior. Só diferente. O samba levou mais de trinta anos para descobrir o mar.

Além do fato de você poder ir sem camisa beber perto de casa, tem outra vantagem?

Claro! Usar o telefone do butiquim (no tempo em que não existia nem orelhão), pedir dinheiro emprestado do português e poder observar melhor o movimento feminino da vizinhança.

E a ressaca? Alguma dica para se livrar desse peso?

Só uma, mas infalível: ser alcoólatra. O alcoólatra, organicamente, não tem ressaca. Sei disso, porque sou um deles. Não bebo há 17 anos, mas aposto que sou o único alcoólatra deste livro. Todos os outros são bebuns e só bebem porque gostam. No dia que quiserem parar, param.

Olhar para o mar ou ver o trem passar faz diferença para quem quer beber?

Quem está a fim de beber não perde muito tempo com a paisagem, perde?

Se acontecesse de o sujeito decidir: hoje vai ser meu último porre, que lugar você indicaria?

O mais perto possível de uma clínica para dependentes químicos, para ir tratar logo da síndrome de abstinência.

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