“A patrulha ideológica sempre acaba punindo os talentos”, diz Hélio de La Peña

Por Edson Aran

Hélio de La Peña é um cara multimídia. Ele já fez de tudo: jornal, revista, livro, roteiro, programa de humor, novela, filme, Internet e stand-up. Faz tempo que eu queria conversar com ele para a série de entrevistas “O HUMOR NOS TEMPOS DA CÓLERA”, que tem o objetivo de mapear a arte do riso nesses tempos tão rabugentos. Mas queria que o papo fosse ao vivo e, como o site é pobre e mora longe, fiquei esperando que o Hélio viesse a São Paulo para que pudéssemos conversar.

Ele esteve aqui mês passado para fazer dois stand-ups, o “Coisa de Preto” e o “Crise no Show Bizzi”. A gente se encontrou um dia antes do primeiro turno das eleições, almoçamos juntos e tivemos uma conversa ótima sobre humor, patrulha, negritude, criatividade e politicamente correto. E eu perdi a entrevista inteira. Ou quase inteira.

Acontece, jovem Padwan. Mesmo velhos homens de imprensa, como eu, pisam na bola.
A porcaria do iPhone parou de gravar em algum momento e só o final da conversa foi preservado. No entanto, como o Hélio é muito gente boa, a gente repetiu a entrevista via Skype, antes do segundo turno da eleição, resgatando de memória as mesmas observações e piadas que haviam rolado antes. Depois, ainda teve uma troca de mensagens via whatsapp para esclarecer alguns pontos.

O resultado é a melhor e mais divertida entrevista do La Peña. Uma coisa, aliás, que já virou padrão aqui no nosso REPÚBLICA DOS BANANAS. As mais instigantes conversas sobre arte do humor só rolam aqui mesmo. Sorry, periferia.

Essa entrevista, assim como as anteriores, fazem parte da série “O HUMOR NOS TEMPOS DA CÓLERA”, que depois serão reunidas num livraço bem lindão que vai registrar o que aconteceu no humor brasileiro nesses anos de agressividade política e desaforos ideológicos.

Senhoras e senhores, uma salva de palmas para o botafoguense e humorista de águas abertas, o incrível… HÉLIO! DE! LA PEÑA!

Você é um dos humoristas mais multimídia que eu conheço. Já fez revista, fez TV e agora está fazendo internet e stand-up. Existe alguma diferença no tipo de humor que se faz em cada um desses suportes?

Eu até me surpreendi com você falando isso. Eu realmente atuei em várias mídias, mas isso denota mais a idade do que qualquer outra coisa (risos). A “Casseta Popular” surgiu em 1978 como um jornalzinho de faculdade, cujo objetivo era sacanear o pessoal do movimento estudantil – do qual a gente também fazia parte. O Centro Acadêmico da faculdade já tinha um jornal, mas era muito sisudo, muito sério. E a gente – eu, Beto Silva e Marcelo Madureira – queria fazer uma zoação daquilo. Então o jornal começou com uma reivindicação que era a mais legítima dos estudantes de Engenharia da UFRJ naquela época: que era a ausência de mulheres no curso. (Risos). Recentemente, eu fui lá fazer uma palestra e vi que a nossa campanha deu certo porque hoje tem mais mulher lá. Depois a gente levou o jornal para além dos muros da universidade e pra isso, a gente chamou o Bussunda e o Cláudio Manoel.

Vocês já falaram que fizeram o jornal só para comer mulher. Deu certo? Porque seria a primeira vez…

Pode ter sido a primeira, mas certamente não será a última, né? (Gargalhadas). Mas apesar de a gente ter passado para a história com o bordão “e não comemos ninguém”, o jornalzinho tinha mesmo esse objetivo. Uma vez eu fui com o Beto Silva para o Festival de Inverno de Ouro Preto e a gente tinha a seguinte estratégia: levava um calhamaço de jornal na mala do carro, chegava num barzinho e distribuía. Quando a gente via alguma menina rindo, a gente se aproximava: “e aí, beleza?”. O jornal era usado para esse fim mesmo, até porque grana não dava… Mas na maioria das vezes o objetivo não era alcançado…

Você me falou que todos vocês eram do Partidão, o velho PCB. Mas o Partidão ainda influía no movimento estudantil? Porque quando eu fiz jornalismo, um pouco mais pra frente, em 80 e alguma coisa, o que tinha era MR8, PCdoB, a Libelu, que eu fazia parte… mas Partidão, não tinha.

Na UFRJ tinha e era bem forte. Na Engenharia, a hegemonia era do Partidão e do MR 8, que dominavam a política na faculdade. Fora da Engenharia tinha Libelu, Convergência Socialista, a Ação Popular, AP, essa galera toda… Inclusive, era uma galera muito mais fornida em termos de mulheres bonitas. As do Partidão eram uns tribufus danados…

Os militantes de esquerda já eram chatos naquela época, como são hoje, ou eram mais maneiros?

O Partidão nem era considerado muito de esquerda, era o pessoal da “reforma”, meio um PSDB, mas era sisudo, tanto quanto o MR 8. O MEP, Movimento de Emancipação do Proletariado, tinha umas gatinhas. A Libelu tinha e a Convergência também, mas o Partidão não. E os caras eram bem chatos. Olha, de uma maneira geral, o militante é um mala, porquê ele é o samba de uma nota só, né? Está sempre falando do mesmo assunto. Mas peraí porque eu não terminei de contar a história da “Casseta”. A gente fez um jornal um pouco maior e aí o “Planeta Diário” foi lançado, já em bancas e tal. Aí a gente procurou o pessoal do “Planeta” e fez a revista “Casseta Popular”. E isso tudo eu ainda estava na Engenharia, me formando engenheiro. Então em dezembro de 1987, a gente foi convidado pelo Cláudio Paiva para sermos redatores do “TV Pirata”, que estava para surgir.

O Cláudio Paiva já estava na Globo? Não estava mais no “Planeta Diário”?

Não, ele já tinha saído. E na Globo ele encontrou o Guel Arraes e eles tiveram a ideia de apresentar o projeto do programa, que juntava uma trupe de autores – “Casseta”, “Planeta”, o pessoal do Besteirol… o Miguel Falabella, Pedro Cardoso, Mauro Rasi, Vicente Pereira, Veríssimo… o pessoal de São Paulo, Glauco e Laerte, o Angeli não quis. Era gente que não tinha escrito pra TV, mas que fazia humor no Brasil naquele momento. E juntou também uma trupe de atores, o pessoal do “Astrúbal”, Regina Casé e Luís Fernando Guimarães… a Débora Bloch do “Manhas e Manias”, o Guilherme Karan, que era do Besteirol… o Diogo Vilela, que tinha feito novela, mas era do humor. E também gente que já tinha feito sucesso em novela, como a Cláudia Raia que tinha feito a “Tancinha”. Os galãs eram o Ney Latorraca e o Marco Nanini…

Mas, peraí, antes disso teve o “Wandergleyson Show”, que foi uma espécie de piloto do “TV Pirata” produzido pela Band em São Paulo. Como é que foi isso?

No Wandergleyson, eu não estava. Era Reinaldo, Hubert e Marcelo Madureira. Agora, a coisa curiosa é que eu ouvi dizer que o “Wandergleyson” foi mostrado antes pro Boni na Globo, do que na Band.

Quer dizer, a Band financiou o piloto…

É, nem sei como isso foi feito. Mas o Boni se amarrou.

Falar nisso, eu revi o “Wandergleyson Show”, que está no YouTube, e o programa podia ir ao ar hoje, pois continua muito bom e atual. Foi o humor brasileiro que não conseguiu avançar ou o programa é que era bom pra cacete mesmo?

Cara… eu acho que a gente está vivendo uma fase cíclica. A força que o Bolsonaro tem, essas forças conservadoras sendo bem recebidas… No Rio, foi pro segundo turno um candidato que eu nunca tinha ouvido falar, um tal de Witsel. E o cara foi porque declarou apoio ao Bolsonaro. É um movimento reacionário e o humor também responde a isso de forma cíclica. Tanto que você que as piadas que estavam no “Wandergleyson” continuam atuais. Em 1988, a gente fazia um show que era “invadido” por um negro, um gay e um índio para reclamar que o o espetáculo não era representativo e não dava voz às minorias. Eu fazia o negro, claro. O Bussunda era o índio e o Madureira era o gay. E, no final, a gente fazia releitura de marchinhas de carnaval para cada um deles. O negro cantava “afro-brasileira do cabelo duro, qual é o pente que te penteia, qual é o pente que te penteia…”. O gay cantava “olha a cabeleira do Zezé, se for uma opção dele ninguém tem nada a ver com isso”. (risos). E o índio cantava “êêêêê, índio quer demarcação de terras, se não der, ele vai se organizar e lutar pelos seus direitos”.

Falando nisso, o que você acha desse movimento de reescrever marchinhas de carnaval? Aqui em São Paulo existem blocos de carnaval que são partidos políticos que desfilam. E eles proibiram várias marchinhas…

Fizeram versões politicamente corretas?

Não, proibiram mesmo. Não cantam mais “índio quer apito” ou “Maria Sapatão”. Fizeram um Index de Marchinhas.

Isso é engraçado, mas aconteceu nas cantigas infantis também. Não tem mais “atirei o pau no gato”, agora é “não atire o pau no gato-to-to”. Bicho… e o engraçado é que a gente sempre cantou essas marchinhas sem prestar atenção na letra, porque normalmente o cara está bêbado atrás de um bloco. Mas as pessoas começaram a se sentir ofendidas com isso…

Quando se canta “o seu cabelo não nega, mulata”, a gente está sendo racista?

Pois é… quando você presta atenção, a letra diz “o seu cabelo não nega, mulata/ porque és mulata na cor/ mas como a cor não PEGA…”. Quer dizer, já que eu não vou ficar preto me esfregando em você, vamos embora.

Mas esse “pega” aí não é no sentido de “não importa”? Não que uma coisa seja melhor que a outra, veja bem…

Acho que não. Acho que a cor não “pega” aí está no sentido de “contagiar” mesmo. Não sei se na época da música, o “pega” tinha esse sentido de “colar”. O negócio é que é um julgamento pelo retrovisor. Você olha para trás e quer mudar o passado. É como essa série de processos que rolam por causa de coisas que aconteceram há 30 anos, quando o sentimento era outro. Estou achando isso muito complicado. Acho que a partir do momento em que as pessoas tomam consciência de que determinado comportamento é escroto, beleza. Não vamos nos comportar mais assim. Mas julgar o comportamento do cara no passado, quando o código da sociedade era outro, é estranho. Como acho estranho julgar com os olhos de hoje algo que se passou em outro momento. Por exemplo, a proibição dos livros do Monteiro Lobato. Não deveria proibir, é um clássico. Mas deveria interpretar, discutir, situar o aluno… olha, isso era assim porque estávamos em 1930, 1940, sei lá… numa sociedade mais conservadora, mais retrógrada, mais machista, mais racista… e onde o negro não tinha o menor espaço, ao contrário do que tem hoje.

Quando entrevistei o Adão Iturrusgarai, comentei com ele que a gente não pode nem usar a expressão “samba do crioulo doido”, inventada pelo Stanislaw Ponte Preta, para descrever uma situação surrealista. E o Adão falou “você tem que perguntar isso para um negro”. Então, Hélio, você que é um negão cheio de paixão, o que acha disso? Pode-se usar a expressão “samba do crioulo doido”?

Por mim, pode usar, não tem problema. Mas eu não sou um militante. Você tem que perguntar isso pra um cara que seja mais preto do que eu… (risos)

Aliás, você uma vez me falou que descobriu que era preto muito tarde. Como é que foi isso?

Porra, eu estudei no Colégio São Bento, que é um colégio de elite no Rio… estudei numa universidade pública, mas o curso de Engenharia tinha muito mais gente com grana do que gente dura, porque o vestibular era difícil de passar e só entrava gente de escolas particulares. E ali eu conheci vários judeus e me senti acolhido por eles… a família do Beto, a família do Bussunda… eu me sentia uma espécie de Mowgli, o Menino Preto… (gargalhadas). Claro que senti preconceito, houve vários situações de discriminação, de racismo, mas minha situação era diferente. Tem gente que vive muito mais esse drama, essa dificuldade e que sofre bem mais do que eu. Eu passei por poucas situações, na verdade. E as situações que eu vivi de questões raciais foram anteriores ao sucesso do “Casseta”. Quando você faz sucesso, você se torna uma outra raça: a raça das celebridades…

A turma do “Casseta e Planeta”: Beto Silva, Reinaldo, Hélio, Bussunda, Cláudio Manoel, Marcelo Madureira e Hubert

E, no caso, uma celebridade global, né? Porque existem diferentes classes sociais no mundo da celebridades. Tem os globais e tem os outros…

É, você entra num certo Olimpo. Mas eu moro num condomínio no Rio que é bem elitizado. Eu até brinco com isso no stand-up que eu faço, o “Coisa de Preto”. Digo que estou no condomínio pelo sistema de quotas e tal. Mas já chegaram aos meus ouvidos comentários bem racistas. Quando eu estava me mudando, fiquei sabendo que teve inclusive um banqueiro, que é meu vizinho, que comentou com um outro: você podia ter comprado essa casa aí, derrubado, feito uma quadra de tênis… mas aí não comprou e olha o resultado… veio um “casseta” pra cá. Agora vai dormir toda noite, ouvindo pagode… (risos).

Mas aí a discriminação não é contra “cassetas” no geral? Quem que vai querer morar perto de “casseta”? Fala sério.

(Risos) Ah, tá bom. Eu acho que fosse o Beto Silva não ia ter esse problema… Então, quer dizer, a história mais comum é a do racismo velado. Porque a figura que fez esse comentário é super-simpática e jamais falaria isso na minha cara, entendeu? “Pô, bicho, isso aqui já foi bem melhor antes de começar a entrar pessoas como você…”. A gente vive muito essa hipocrisia no Brasil.

Voltando um pouco pro lance de ser global, eu me lembro de um comentário do Daniel Filho que, depois de sair da emissora, disse: “a coisa que eu mais sinto falta agora é que chego no restaurante e tenho que pegar fila… ” Como está sua vida depois da Globo? Tá pegando muita fila em restaurante?

O que acontece é que isso tem uma sobrevida. Muita gente ainda acha que eu estou na Globo – para o bem e para o mal. Porque eu boto algum comentário político no Twitter, e o cara já vem me chamar de “mais um global de esquerda”. E eu não sou global e nem sou de esquerda! Mas claro que dá uma caída no status. Pra mim o que mais acontece é que a imagem das pessoas vai ficando meio esfumaçada. O cara chega e fala: “Você é aquele ator que era do ‘Zorra’, né?” Volta e meia, as pessoas me confundem com o Luís Miranda…

Luís Miranda, o Hélio de La Peña de uma dimensão paralela

Pois é, vocês até já fizeram piada com isso. Mas confundem de verdade?

Confundem, cara, confundem direto. E às vezes a pessoa insiste. Você diz “eu fazia o ‘Casseta e Planeta”. E a pessoa: “Não, mas você saiu do ‘Casseta’ e depois foi pro ‘Zorra’…” Uma vez veio uma menina e disse: “Cara, sou muito sua fã e a gente assistiu juntos o show da Ivete Sangalo”. Eu fiquei assim: “Pô, que show da Ivete Sangalo foi esse que eu encontrei essa menina?”. Aí ela pegou o celular e disse que ia me mostrar a foto. Quando ela abriu, era uma foto dela com o Luís Miranda! Mas ela continuou insistindo comigo que era eu! (gargalhadas) Aí eu desisti, falei: “Realmente, é verdade, que showzão foi esse…”

E imagino que isso aconteça toda hora com o Miranda também…

Acontece direto! Mas são dois caras do humor, pretos, magros, mais ou menos da mesma altura e mais ou menos da mesma faixa etária. O Luís Miranda é mais novo que eu, mas eu não tô com uma cara envelhecida. O que eu acho engraçado é que quando ele se veste de mulher, ele fica mesmo muito parecido comigo. Eu mesmo já me confundi. (risos)

Eu tô acompanhando o “Casseta e Planeta” no YouTube e tenho gostado muito da “Resenha Tabajara”, que é um bate-papo misturado a comentários. Fico até me perguntando se ainda vale a pena fazer esquetes se vocês fazem aquilo tão bem. O que você acha?

Olha, o “Porta dos Fundos” faz esquetes muito bem, brilhantemente. Eu acho legal o esquete. A gente faz aquela resenha às quartas-feiras e na sexta-feira, a gente publica uns esquetes, uns comerciais… um outro formato, que é o “Plantão Casseta & Planeta”, com coisas mais variadas. Só que a gente trabalha com atualidades que é uma coisa complicada na Internet, que vive da repetição. Você vê uma coisa agora e volta lá dali a três anos pra ver de novo e aquilo continua com validade. Com atualidade, a coisa tem muita força naquele momento, mas depois vai perdendo… Agora, você pega um esquete que o “Porta dos Fundos” fez no começo e ele ainda está lá, está engraçado e está valendo. Já um “Plantão” que a gente tinha feito sobre a greve dos caminhoneiros, hoje já é velho. Você tem que se lembrar que havia uma greve para entender o que levou a gente a fazer aquilo. Então é mais complicado, mas a gente está insistindo porque acredita muito na piada feita em cima da hora. E hoje em dia, a piada feita em cima da hora é o meme, né? Isso não está mais presente na televisão, que agora trabalha com temporada. O “Tá no Ar”, que mexe um pouco com atualidade, também trabalha com temporada.

Vocês pensam em fazer uma esquete que dure mais ou não?

A gente tem essa intenção também, trabalhar com personagem… o canal tá muito no começo, estamos ainda engatinhando nessa. Mas a gente tá gostando dessa coisa de sentar ali e comentar as notícias e tal.

La Peña com a trupe do “Coisa de Preto” no show em São Paulo

E você também está fazendo o stand-up “Coisa de Preto”, né? Por que você resolveu virar preto de repente? Tá dando grana?

Ser preto tá na moda, né? (risos). Eu sempre fui preto, só que ninguém me perguntava: “você, enquanto negro, o que acha disso?”. Agora querem saber da minha opinião “enquanto negro”. Como você teve muito tempo sem dar voz a grupos como negros, gays, mulheres e tal, hoje existe uma curiosidade em ouvir esses grupos. E isso acabou me dando espaço para fazer um grupo de humor de preto. Agora, eu acho engraçado que as pessoas ficam assim: por quê fazer esse grupo só de negros? É curioso porque quando tem um grupo só de brancos – e são vários – ninguém pergunta: “Ei, vocês estão fazendo esse grupo aí só com brancos? Que história é essa?”. (Risos). Agora, eu não posso falar “porque eu, que vim do morro…”. Não, eu não vim do morro, entendeu? Eu sou um preto do asfalto. São dois estereótipos: o branco do asfalto e o preto do morro. Se você for um preto do asfalto, fodeu, dá uma embaralhada. Eu vivo muito deslocado. Na maioria das vezes que eu vou a um bom restaurante, eu sou o único negro ali, entendeu? Nem garçom eu costumo ver. Os clientes são todos brancos e os garçons também. E quando eu vou num ambiente mais popular, predominam os negros. Enfim, essa é a situação que vive a sociedade, e eu circulo de um lado e circulo do outro, foda-se. Tanto vou num show de samba quanto num show de jazz ou de rock progressivo. Essa coisa da apropriação cultural é completamente… sou mais favorável à globalização do que à apropriação cultural. Quer dizer, o branco não pode usar turbante, o preto não pode comer sushi… não dá, cara. Isso é muito ruim. Você tem que tirar proveito das culturas que se misturam e a resultante vai ficar no meio de tudo. A gente tem que caminhar pra aí, que é mais interessante…

Por falar em grupos só de brancos, você viu a história sobre o Monty Python, né? O head de comédia da BBC tirou as reprises do Python do ar argumentando que o grupo não tem diversidade. Os caras ficaram putos. O Terry Gillian, inclusive, disse que agora ele é uma mulher negra e lésbica chamada Loretta… O que você acha disso?

Então tem que banir também os Beatles, o Nirvana… se você for procurar grupos com diversidade só vai ter o Village People, que tinha índio, operário, gay… (gargalhadas). É um absurdo. Tem uma série chamada “Atlanta”, na Netflix, que num dos episódios tem um negro gordinho de vinte e poucos anos que quer ser um macho, branco de 35 anos. Ele é um trans-racial. Uma coisa é você tentar equilibrar as coisas. Outra coisa é o exagero da situação. Não dá pra olhar no retrovisor e dizer que o Monty Python não era representativo. Não é isso que está em questão. Os caras criaram uma obra incrível que é referência pra todo mundo que faz humor… Se hoje existe espaço para ocupar, vamos ocupar esse espaço. Agora, você querer voltar no tempo e querer mudar as coisas não tem o menor sentido.

Eu aprendi minha vida inteira que o certo era falar “negro” e não “preto” e de repente, “preto” virou a palavra certa. Que cazzo aconteceu?

Sinceramente, não sei. Eu sou um péssimo afro-conselheiro pra você. (risos). Como eu sou preto, eu posso falar negro, preto, crioulo… Você é quem tem que se preocupar (risos). Mas tem muita gente que tem problemas sérios com essas palavras. Eu soube até que teve uma peça do Shakespeare que os atores não podiam dizer a frase “Uma nuvem negra paira no ar”… Porra. Na verdade, a nuvem era preta porque ia chover! Não é porque a nuvem ia fazer um arrastão, como diria o Cocielo…. (risos)

Ah, foi bom você entrar nisso. O que você acha das piadas do Cocielo e do Jacaré Banguela? Foi vacilo ou foi racismo?

Em primeiro lugar, as piadas eram ruins. Quando a piada não é boa, as pessoas começam a levá-la a sério e nenhuma piada resiste a uma inquisição. Agora, pior que a piada, são as desculpas esfarrapadas que vieram depois. Vem cá, o cara não estava associando a questão da cor ao MBappé e só disse que ele podia fazer um arrastão porque ele corria muito?! Peraí, porquê o cara é PRETO e corre muito, então o cara lembra imediatamente dos pretos correndo na praia com as pessoas assustadas. No caso do Banguela, ele diz que estava ligado na coisa da roupa, que era muito escrota, não sei o quê… mas se dentro daquela roupa escrota estivesse um cara loiro de olhos azuis, provavelmente ele não faria a piada do flanelinha… então, porra, não tem como. Eu não costumo me meter nessas polêmicas publicamente porque o meu passado me condena… se alguém buscar na revista “Casseta Popular” vai achar altas atrocidades ali. Então, como eu tenho esse telhado que não é nem de vidro, é de cristal, eu prefiro não puxar essa brasa pra cima de mim.

Vocês tiveram problema parecido no “Casseta e Planeta” ou no “TV Pirata”?

No tempo da revista, no “TV Pirata” e na maior parte do “Casseta”, não existiam redes sociais. Se o cara se sentisse ofendido, tinha que escrever uma carta, mandar pra TV Globo, a TV tinha que separar aquilo, mandar pra gente e, quando a gente via, nem lembrava mais da piada. Hoje o cara vê e, se não gostar, ele vai pro Twitter, Facebook, sei lá o quê, coloca ali e já conversa com pessoas que também acham aquilo um absurdo. A coisa toma uma enorme dimensão. Eu me lembro que no “TV Pirata”, a gente fez um quadro que era “Elvis não morreu” e o Elvis andava pela cidade com aquele algodãozinho no nariz que é típico de cadáver, fazia show com aquilo. Foi uma avalanche de cartas de fãs do Elvis. A gente não tinha noção da quantidade de fãs que o cara tinha. Mas aquilo não afetou em nada. Se fosse hoje, a gente estava fodido. Porque aquilo chegaria até a emissora, que ficaria preocupada e já proibiria outras coisas só para não correr o risco. O que acontece hoje é isso. Agora, pra mim, cada um que faça a piada que quiser, mas ciente de que você pode sofrer uma reação negativa. Tem gente que surfa bem nisso, como o Rafinha Bastos, o Gentili, o Leo Lins… são pessoas que metem o dedo na ferida e não querem saber se nego vai espernear ou não. E as vezes até o esperneio, até a grita geral, é contabilizado como uma coisa positiva, porque a piada repercutiu e neguinho ficou puto para caralho. O stand-up é feito num lugar fechado, um bar… um lugar onde você vai ouvir um cara falar altas escrotidões, mas você está afinzão de ouvir aquilo. Então, beleza, funciona muito bem.O problema acontece quando a piada encontra uma parcela da população que não é o seu público, quando ela extrapola aquele nichozinho e fica pra geral, alcança gente que não optaria por acompanhar o trabalho do cara. E geralmente são essas pessoas que reagem mal: as que não consomem aquilo.Você vê o caso dos museus. Quem mais reclama de nudez em museu é quem não frequenta museus. Gente que assiste peça do Zé Celso Martinez não vai se incomodar com um cara botando o dedo no cu do outro. Agora quando você pega um cara que não tem a ver com aquela história, aí dá merda, né?

É a mesma coisa o cara tentar impedir uma exposição como o “Queermuseu” e uma série como “Sexo e as Negas”, do Miguel Falabella, antes mesmo dela estrear? As duas coisas são diferentes ou é tudo igual?

É sempre um exagero tremendo. No caso do Falabella, eu achei a série legal, gostava da série, não via nada de depreciativo ali, não vi as mulheres sendo usadas como objeto sexual. Eram mulheres negras discutindo sexo, porra. Mulheres negras também fazem sexo e também podem falar sobre sexo. O problema ali foi que o autor era branco, não a obra em si. Essa é a pura verdade. Se o Falabella fosse negro não haveria problema algum e talvez até a série estivesse sendo elogiada. Mas sendo ele loiro, global e rico… tem um monte de coisas que levaram a esse julgamento antecipado.

Você acabou de fazer um filme, o “Correndo atrás”, que tem o elenco todo negro …

O filme “Correndo atrás” tem origem no meu livro “Vai na bola, Glanderson” e partiu da minha motivação de escrever uma história no subúrbio cujo protagonista não era um traficante, um miliciano ou um policial. É a história de um brasileiro qualquer, um brasileiro fodido que quer resolver a vida dele. E aí pensa: o que que dá grana? Futebol dá grana. Então ele vira empresário de jogador de futebol e sai pelo subúrbio em busca de um craque. Ele encontra um craque improvável, porque o menino não tem dois dedos no pé. Mas o fato de ele não ter os dois dedos faz com que ele dê um chute de trivela incrível. É uma história divertida, uma história brasileira. Convidei o Jeferson De para dirigir. E ele fez uma coisa legal, montou um elenco todo de negros. A história não precisava, mas funcionou. Não só isso, ele também trouxe uma equipe de profissionais negros. O diretor de fotografia é o Cris Conceição, que foi assistente no “Cidade de Deus” e “Central do Brasil”, mas nesse ele assina a fotografia e fez um trabalho ótimo. O protagonista é o Aílton Graça, a mocinha é a Juliana Alves, o casal mais jovem é a Juan Paiva e a Lellezinha, e o roteirista é negro, que sou eu; a direção musical é o BNegão. O “Cidade de Deus” também tem um elenco negro, mas o comando é branco. Nesse, o comando é negro. E isso é uma diferença que só foi possível nesse momento que estamos vivendo hoje. Há 15 anos, ninguém ia patrocinar, não ia entrar. O fato de o negro estar na moda permitiu esse tipo de iniciativa. Então vamos surfar nisso.

“Vai na bola, Glanderson!”, livro do Hélio que inspirou o filme “Correndo atrás”

Cara, e esse lance da Fabiana Cozza ser impedida de fazer o papel da Dona Ivone Lara num musical porque não é negra o suficiente? O que você pensa disso?

Eu achei a situação muito absurda. Porque a Fabiana Cozza é uma artista que trabalha com a obra da Dona Ivone Lara durante muito tempo, que é muito amiga da família… a Dona Ivone Lara tinha o maior apreço por ela, se amarrava na Fabiana Cozza. E inclusive ela mesma e a própria família gostariam que a Fabiana fizesse o papel. E aí, de repente, ela foi descartada por não ser preta o suficiente. Isso é um absurdo. Primeiro porque ela é preta. E segundo porque ela é uma pessoa que ajudava o movimento, dava força, fez shows de graça e tudo o mais… e quando teve a oportunidade de ter uma visibilidade bacana, como teve o Tiago Abravanel quando fez o Tim Maia, aí ela foi descartada. Eu, sinceramente, acho que foi uma preta que perdeu uma boa oportunidade de fazer um trabalho bacana. Eu não concordo. Essa questão do colorismo… é mais jogo você se unir em vez de ficar se dividindo nessa briga do negro mais claro contra o negro mais escuro. Porra, sinceramente… foi gol contra.

Vem cá, a patrulha ideológica não é uma coisa nova, a gente sabe. No tempo do “Pasquim”, o Henfil já fazia o “cemitério dos mortos-vivos do Cabôco Mamadô” que era muito pesado. O filme da Elis Regina inclusive mostra como ela ficou mal depois de ter sido “enterrada” naquele cemitério. O que diferencia a patrulha daquela época da patrulha de hoje?

Tinha uma patrulha ideológica naquela época que media o quanto você estava combatendo a ditadura . Mas, no fim das contas, é tudo patrulha ideológica. O Henfil era um cara genial, mas perseguiu a Elis Regina pra caramba. Uma puta de uma artista boa demais. Enfim… é igual futebol. O cara mais vaiado normalmente é o craque que, por acaso, naquele dia não foi bem. O cara que é ruim o tempo todo, ninguém fala dele. Então a patrulha ideológica acaba punindo talentos. Até porque, se é uma unanimidade que o cara não vale a pena, nem patrulhado ele é. Normalmente, o cara mais patrulhado é o cara que tem mais talento e que tem problema com parte dessa “vanguarda” que se auto-intitula representante de alguma coisa. E que não foi nem votada para fazer isso. Patrulha é patrulha, cara. Quando menos, melhor.

Nós estamos no meio de um segundo turno de uma eleição horrorosa e agora todo mundo está patrulhando o posicionamento do outro. O curioso é que as pessoas cobram uma posição de você que elas mesmas nunca tiveram.

É engraçado que as redes sociais surgiram como um alento de democracia… todo mundo vai ter voz e vai poder se manifestar e tudo o mais. E na verdade não é bem assim. De acordo com a opinião que você emite, você pode ser massacrado. Então você acaba se auto-censurando. No fim das contas, as redes sociais estão botando um monte de gente no armário. E aí acontece essa surpresa entre as pesquisas e o resultado da eleição. Porque nego tá no armário, tá escondido, tá com vergonha de colocar a opinião e tomar porrada. E, de fato, toma porrada. Teve aquele carinha que foi na porta do sindicato quando o Lula estava para ser preso e tomou porrada e quase foi atropelado, quase morreu ali. E agora a gente vê vários casos de simpatizantes do Bolsonaro dando porrada em gente porque está com o adesivo “Ele Não”. Teve até o capoeirista lá na Bahia que foi morto com 12 facadas. Pô, não é possível. É muito perigosa a autocensura, perder o direito de falar uma merda, de errar… por quê você não pode errar?

E agora a direita aprendeu como fazer patrulha também, né? A Daniela Mercury, por exemplo, puxou a campanha do “Ele Não” e logo em seguida fizeram um vídeo mostrando o que ela tinha patrocínio da Lei Rouanet pra fazer vários shows. Quer dizer, a tática de inibir opiniões contrárias foi instrumentalizada pela direita. Agora todo mundo patrulha todo mundo. É infernal.

Ali houve um duplo patrulhamento, né? No vídeo da Daniela Mercury, ela colocava publicamente “eu desafio fulana de tal a dar sua opinião… ” E, na boa, que opinião elas poderiam dar? Quer dizer, já era uma patrulha. A pessoa tem todo o direito de dar uma opinião, como também tem todo o direito de não dar uma opinião. E aí tem a resposta – que é uma outra patrulha. É você dizer “não, a Daniela Mercury não pensa aquilo não, ela fez isso por causa de dinheiro…”. Não é por aí. A Daniela Mercury tem grana suficiente para não depender de porra nenhuma. A Lei Rounet é legítima. Tem absurdos, que podem ser corrigidos, e tem projetos culturais que são inviáveis financeiramente sem ela e que precisam existir. Nesse caminho do mercado, só vai ter filme blockbuster. Agora, existem filmes de poucos espectadores, que têm um conteúdo maneiro, que eu quero ver, quero que ele exista e aconteça. E para isso vai ter que ter um suporte. Sem contar que, ao apoiar o filme de poucos espectadores, você está gerando uma porrada de empregos, desde à equipe ao pipoqueiro e ao bilheteiro do cinema.

Hélio trabalhando em seu estúdio

Nós temos 33 anos de democracia para 21 anos de ditadura e a gente não muda de assunto. Direita e esquerda têm fetiche com a ditadura militar. A esquerda porque gosta de apanhar e a direita porque gosta de bater. O que você acha? A gente não vai parar nunca de falar sobre isso?

Eu acho engraçado porque o brasileiro não tem muita convicção da coisa da democracia. No fim das contas, você batalha pela democracia quando você não tem um determinado direito, mas quando você chega no poder, você não quer que o outro tenha aquele mesmo direito. As pessoas querem que todos concordem com elas. Tem um viés muito autoritário nessa história. Tanto a esquerda quando a direita que se colocou aí são dois lados autoritários. Qualquer figura moderada foi varrida. A Marina, até por que tem aquela vozinha fraca, não teve a menor change. Começou bem porque tinha um posicionamento razoável, porque vinha da esquerda, mas tinha uma compreensão da necessidade de redução do estado, mas foi caindo, caindo. Ela se apresentou como uma figura sem pulso e as pessoas queriam um sujeito mandão. E aí ficamos entre o Partido dos Trabalhadores e o Bolsonaro, que é uma tremenda de uma interrogação. E o fato dele ter tomado aquela facada e ter ficado calado – e o Bolsonaro calado é um poeta – liberou as pessoas de votarem não nele, mas na projeção do que seria ele. Ele teve uma votação expressiva porque cada um votou num Bolsonaro que estava na cabeça dele. Só que ele mesmo não se apresentou.

O George Carlin tem uma frase que acho brilhante: “Nunca subestime o poder das pessoas estúpidas em grandes grupos”. Você tem medo de pessoas estúpidas em grandes grupos?

Olha, cara… vou te contar uma história. Teve uma vez, já faz algum tempo, que eu fui assistir Botafogo e Flamengo no Maracanã. Isso foi antes deles definirem que uma torcida entrava por um lado e outra torcida pelo outro. Entrávamos todos juntos pela rampa principal do Maracanã. Os botafoguenses entravam por ali porque no final da rampa tinha a estátua do Garrincha e a onda era passar mão e dar um beijo pra dar sorte. Mas era um jogo muito cheio e eu estava com minha mulher, na época minha namorada. E a gente começou a subir a rampa e a torcida do Flamengo começou: “Casseta! Viado!”. Eram dois, três, daqui a pouco eram 10, 20, 100. De repente, era gente pra caralho… Eu pensei: “basta a primeira bolinha de papel”, né? Se pintar a primeira, neguinho sai da sua covardia e vai me chulapar de porrada aqui. Nessa hora, apareceu um guardinha, um PM, que falou: “tá precisando de escolta, garotão?”. E eu: “acho que sim”. E o cara me levou. Era o tipo da multidão estúpida, entendeu? Qualquer um daqueles caras individualmente se comportaria de outra maneira. Mas aquela turma, aquele grupo, era um perigo danado. A gente viu agora nas eleições vários casos de estupidez coletiva. Uma votação tão expressiva não teve só estúpidos, mas os estúpidos estão ali dentro, igual à torcida organizada. A torcida organizada não é feita só de marginais, mas os marginais estão ali e, às vezes, estão no comando. O Carlin está coberto de razão. Eu morro de medo da estupidez coletiva. Estupidez coletiva que nos levou agora, os razoáveis, a escolher entre um ou outro estúpido.

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