A polêmica da marchinha da cachaça

Por Luciana Cabral-Doneda, de Curitiba

Na batalha de confetes da justiça paranaense, a cachaça tem dono. O Tribunal de Justiça do estado (TJ-PR) reconheceu que é Marinósio Trigueiros Filho o autor da famosa marchinha “Cachaça não é água” e deu à família indenização por violação de direitos autorais. No CD “Bonde das Marchinhas”, da Som Livre, da empresa Globo Comunicação e Participações, o nome do boêmio mais famoso da cidade de Londrina, no norte do Paraná, não apareceu e a empresa teve que pagar R$ 20 mil a cada um dos cinco herdeiros.

Em um dos estados menos carnavalescos do Brasil, cada confete a menos faz falta. “Além da indenização, a gente queria reconhecimento, mas a gravadora recolheu todos os CDs do mercado causando um prejuízo moral à família”, lamenta a funcionária pública Dulcínie Trigueiros, 52 anos, filha de Marinósio, que nasceu em 1914, em Salvador, onde começou suas andanças pelos bares batucando no seu chapéu de palha. Viajou por várias cidades do norte e nordeste levando uma vida de artista mambembe.

No início da década de 1940, se encantou pela cidade de Londrina, a qual dedicou os livros “História da imprensa de Londrina – do baú do jornalista” e “Crimes que Abalaram Londrina”. Dulcínie conta que o pai compôs a famosa marchinha, que ganhou um festival da prefeitura do Rio de Janeiro em 1953, em um botequim. “Ele começou a cantarolar e viu que dava samba. Então anotou a letra num guardanapo”, lembra.

O “Professor Marinósio”, como ficou conhecido na terra das araucárias, gravou a música em 1946 quando viajava com a sua banda, a Afoxé, pelo Uruguai. O LP está lá nas mãos da sua família, como prova da autoria da marchinha. Naquela época, ele se definia como pesquisador do folclore nacional e um dos inventores de um novo estilo musical, uma mistura da viola nordestina com o samba, e gostava de recordar a riqueza do folclore musical brasileiro, como o agogô, o berimbau, o ganzá, o agué, também conhecido como “piano de cuia”.

Em 1953, seis anos após ter gravado “Cachaça não é água” no exterior, Marinósio estava no silencioso carnaval de Londrina assistindo televisão. “Ele viu o público pelas ruas do Rio de Janeiro cantando a sua música. Na quarta-feira de cinzas, pegou um avião e foi para o Rio lutar pelos seus direitos”, lembra sua filha. Boêmio sim, mas bobo não. “Professor Marinósio” foi então direto na União Brasileira de Compositores (UBC), na época presidida por Ataulfo Alves, que reconheceu a autoria da marchinha. Demorou, mas Marinósio conseguiu ficar com 40% dos direitos autorais, e cada um dos outros três compositores, que tinham mudado alguns versos do original, Lúcio de Castro, Heber Lobato e Mirabeau Pinheiro receberiam 20%.

A marchinha “Cachaça” foi cantada por Carmem Costa e pelo cômico Colé em 1953 (uma versão de 2007 com Carmem Costa pode ser vista no youtube) e venceu o concurso carioca, apesar das acusações de plágio do “Pierrot Apaixonado”, de Joubert de Carvalho. E a polêmica continuou quando apareceu o “Professor Marinósio”; cobrando também o seu lugar no pódio da fama. Alguns sites de letras de música até mesmo identificam apenas Marinósio como autor.

Marinósio era bom de conversa e combate. Apresentava-se como pesquisador de um projeto “educativo, musical, folclórico e nacionalista” em pleno Estado Novo, da ditadura de Getúlio Vargas, época de censura na imprensa. Na época, o próprio Getúlio Vargas se empenhava na divulgação do samba como patrimônio cultural e até Carmem Miranda acompanhou o presidente em uma de suas viagens oficiais.

Ao longo da carreira, Marinósio, ao lado da mulher, a cantora Dulce de Almeida, aperfeiçoou o seu sistema de apoio de políticos para suas empreitadas culturais nas suas viagens, mas foi em Londrina que ele encontrou terreno para se estabelecer, constituir família, que foi se alargando com os casos extraconjugais do boêmio. Em 1948, ele fundou o jornal “O Combate” que defendeu por anos com unhas e dentes o governador do Paraná Moysés Lupion, entre 1947-1951 e 1956-1960, famoso por denúncias de corrupção e de fazer vista grossa com os seus protegidos. Por causa do seu ativismo político, foi perseguido durante a ditadura militar em 1964.

“Era um compositor, cantor, poeta, escritor e jornalista, meu pai Marinósio Filho amava tudo o que fazia. Escrever era sua paixão e foi um dos fundadores da Academia de Letras de Londrina”, lembra sua filha, que junto com a família doou todos os exemplares do jornal “O Combate” para a biblioteca da Universidade Estadual de Londrina e sonha que a cidade um dia reconheça o valor do seu pai para a cultura local.

O caso do Marinósio há muitos anos é notícia no Paraná. Ter um sambista, um compositor de marchinhas, no Paraná é um grande privilégio. É um eterno combate para que o carnaval aconteça no Paraná. Em 2017 a prefeitura de Curitiba retirou o apoio ao desfile do principal bloco da cidade, o “Garibaldis e Sacis”, que, tradicionalmente, toca marchinhas pelas ruas do centro histórico de Curitiba.

O bloco foi criado por outro imigrante, o maranhense Itaércio Rocha, que faz os sisudos curitibanos cantarem marchinhas tradicionais ou originais, como a “Banana no cuque é bom”, em referência ao tradicional pão doce de origem alemã chamado de “cuque”, ou mesmo pedirem um típico café paranaense “Damasco”, com uma ligeira alteração na vogal final. Afinal, é carnaval. E a alegria e o humor aos poucos também começam a contagiar o sul do país.

(Fonte: ONG Projeto Colabora)

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