ABCedário íntimo para uso público (18)

Por Thiago de Mello

Na casa do seu Gumercindo (outro funcionário das Águas, creio que chefe de turma de trabalhadores da rede pública), eram famosas as festas de aniversário, preparadas e organizadas com antecipação de alguns dias por dona Alice, sua esposa, mãe da Anita, do Armando, do Alberto e da Anahyde, a única da família a quem agora reencontrei morando na mesma casa, só que amodernada e sem o belo de antigamente. O que não precisou de reforma foi a meiguice da menina.

Na vasta sala da frente, reuniam-se grandes e pequenos para as brincadeiras de salão, comuns às comemorações de aniversário da época. As principais eram a de berlinda, a do casamento oculto, a do anel, a de corrida em redor das cadeiras, a da passagem da revista ao batalhão.

Na da berlinda, uma pessoa era escolhida, moça ou rapaz, retirava-se da sala, enquanto um mestre-de-cerimônias perguntava a cada um dos brincantes porque aquela pessoa estava na berlinda e retinha na memória a resposta de cada uma. Os motivos dados eram os mais diversos, de elogio ou de implicância, rara vez eram indiscretos. Pode vir, gritava o chefe da brincadeira. A pessoa vinha lá de dentro, ouvia a enfiava de razões de sua berlinda e então escolhia aquela que mais lhe tocava. Era revelado o autor, o qual, por sua vez, passava à berlinda.

O casamento oculto era a que mais risadas provocava. A moça ia lá para a outra sala, de onde podia ouvir e ser ouvida. Quer casar com este?, perguntava o mestre da festa. Não. Por quê? Porque é muito feio, porque usa calça pega-marreca, porque não gosta de estudar, vinham lá de dentro as respostas. De repente vinha um quero, porque é muito educado, porque é bom com os amigos. O casamento começava e terminava num abraço sob as palmas da sala.

Além da mesa farta de sequilhos, olhos de sogra, babas-de-moça, bolos, pudins e compotas, de vez em quando corriam a sala bandejas com copos de guaraná e principalmente de aluá, bebida feita com cascas de ananás ou abacaxi deixadas em fermentação durante vários dias. Não faltavam os números musicais: moças e rapazes cantando ao violão as valsas e as modinhas de moda.

No final dos 30, também moravam na casa a dona Edna, irmã do seu Gumercindo, que enviuvou jovem: o marido, Antenor Rocha, morreu assassinado em circunstâncias nunca bem esclarecidas, quando participava, no interior da floresta, de uma missão parece que da Comissão de Limites, lá pelas brenhas do Rio Branco. Dona Edna tinha dois filhos, o Herivelto, que morreu moço e a encantadora Zenira, que depois tanto trabalhou pelo ballet no Amazonas.

Pegada ao portão do Almoxarifado moravam os Alves de Mello, seu Francisco Augusto e dona Julia, que era espanhola, cheios de filhos. A Noemia, de quem já andei lembrando, professora do grupo escolar Nilo Peçanha. A Virginia, hoje casada com o médico Platão Araujo. E a Esperança, de todas a única a quem reencontrei fiel à rua e à casa. Os meninos eram o Augusto, o Zeca, o Paulo, além de um filho-de-criação, ou parente próximo, o Virgilio, louro fortão, de corpo cheio de sardas, a quem a rua alcunhava de Virgilio Barata, de quem não esqueço as proezas de acrobacia num circo que ele mesmo fundou, com a ajuda do Tamar e do João Coroca, nos fundos do quintal da saboaria do J. Benayon, instalada do outro lado da rua.

O cirquinho, armado num pequenino terreiro, com os galhos das árvores fazendo as vezes de lona de cobertura, teve inspiração num circo de verdade que, aí por 1935, visitou Manaus e foi, por alguns dias, a sensação da cidade, que por primeira vez via leões e elefantes de verdade, além de um palhaço sensacional, grande estrela da companhia.

Do outro lado da rua, no meio da qual duas enormes mangueiras se irmanavam às famosas mariraneiras, todas desaparecidas, já contei que na casa do canto da Zé Paranaguá morava a família Barroso. Das moradias vizinhas a memória só guarda a figura do Frejal, um rapaz que padecia de enfermidade neurológica que o fazia caminhar quase correndo e com o corpo levemente inclinado para diante: mesmo inseguro e vacilante, o Frejal não perdia uma oportunidade de chutar uma bola que lhe chegasse por perto, sempre de bico. E guardo o som de uma flauta noturna, tocada por um cidadão magro e solitário, cujo nome nunca aprendi.

Casa de muita gente era a da dona Naninha, sogra da dona Belinha Guimarães, irmã da Zuleika e cunhada do Hildebrando Marinho, então figura de proa de Manaos Harbour e pai do Jauari Marinho. Na casa morava também o aluno do Grupo Escolar José Paranaguá que viria a ser um dos melhores ficcionistas do Amazonas: o escritor Anthistenes Pinto. Dia que a rua não esquece é o da morte, na mesma noite, de dois irmãos que ali residiam, filhos-de-criação: a Iracy e o Alfredo, consumidos pelo tifo. Mas também guarda a recordação boa do casamento da Zuleika, moça prendada e de muito bom piano, com o viúvo seu Leal.

Sucediam-se as casas da família Cajui: da dona Josefa Silva, mãe do Novinho, do Adalberto e do Osvaldo: da família Macedo, um de cujos filhos, o Oyama, foi nosso bom colega de Ginásio. A última casa era a do seu Pantaleão.

A rua Isabel também serviu de morada à família Zuany, os descendentes do velho corso Zuany. Intacta no tempo, a ternura de Ana, que nasceu com o dom de repartir a alegria.

Refaço a viagem pela Quintino Bocayuva, uma das ruas que integrava o universo da nossa infância, pela mão amiga de um dos treze filhos (sete mulheres e seis homens, todos vivos e vendendo gosto de viver) do bom varão Manoel Feliz de Mendonça: Iacy, linda normalista, professora formada pela Escola Normal, Pucu por parte de mãe, dona Herculana, e que hoje leva feliz o sobrenome do marido: Moura Tapajós, médico a quem esta cidade deve tanto e ser humano admirável, a quem devo eu a prenda da amizade.

Nas nossas andanças e aventura não ultrapassávamos a rua Dr. Almino, em cuja esquina sempre morou o seu Alberto Cabral, pai de muitos filhos de dois matrimônios. O Albertinho, um dos meninos da rua, virou Alberto Simonetti, advogado famoso. Não me lembro do nome do vizinho, mas recordo o apelido do filho, o Alicate, mecânico de mão cheia. De pegado, era um terreno enorme (o terreno ainda está lá) em cujo centro havia uma carpintaria de um português, que se acabou, mas deixou a fama de Quatro Rodas, apelido do melhor marceneiro daquelas bandas.

Depois vinha a casa da dona Teresa Cordovil, de quem se recorda a carinhosa paciência com que recebia o marido, que sempre chegava em casa mais para lá do que para cá. O pessoal daquele tempo sente saudades do Laci, a filha que se fez professora e foi embora para o Rio. Morava ao lado o dr. Nogueira da Mata, cujo pai, português, foi comandante de embarcação. A casa ainda está lá, com o jeitão antigo, habitada pelo filho, o Geraldo, e sua família. Como também ainda lá se encontra, o jardim da frente bem cuidado, com o seu gradil e portão de ferro, a casa amarela do tempo em que Iacy era solteira.

O morador do lado, que parava pouco em casa porque vivia viajando, era o comandante Mendes, cuja embarcação, motor movido à caldeira, fazia a linha do Careiro, transportando passageiros e sobretudo rebocando a fila infindável de canoas. Chegamos afinal à casa da esquina alta, a do seu Azevedo, que era o dono do Canto da Fortuna, ao lado do Mercado de Peixes. Uma de nossas brincadeiras, à luz do lampião que pendia do poste de ferro, era saltar da calçada para um bueiro, uma boca-de-lobo, construção de pedra que chegava à altura da calçada, uns bons três metros acima do nível do chão enladeirado, mas dela afastada bem mais de um metro. A gente corria para tomar impulso, era bonito ver as saias das meninas esvoaçadas.

Do lado fronteiro, a primeira casa era do seu Tidoca, casado com dona Clarisse. Dos filhos homens, ganhou fama o Otávio porque era doido por briga; das moças, a Caboca, pela boniteza macia.

Outros moradores do quarteirão: o seu Severino, vendedor ambulante de redes, pai do Luiz, excelente violinista, fez boa carreira no Banco do Brasil. O seu Pio, pai da Zezé, da Geralda e do Azamor, era chefe de disciplina na Escola Normal, muito temido pelas normalistas. O taverneiro português seu Manoel, casado com dona Nazareth e pai de uma enorme filharada. A taverna, de três portas, ficava na parte da frente da casa que tinha um quintal cheio de árvores fruteiras, ao qual, por bondades do coração, o taverneiro nos dava acesso.

Seu Manoel era bom e forçudo: um dia um automóvel, dos raros da época, ao dar marcha-á-ré, imobilizou sob uma roda traseira uma menina, sem chegar a passar-lhe sobre o corpo. O chofer freou o veículo, enquanto a criança gritava e a rua se alvoroçava. De repente surge o seu Manoel e sozinho levantou o automóvel pela traseira, liberando o corpo apenas machucando da meninazinha.

Merece destaque, pela imponência, o sobrado que se erguia em frente à taverna, habitado pela família Figueiredo, cujos cinco filhos eram conhecidos na vizinhança pelos fonemas que a consoante D formava com as cinco vogais repetidas: Dadá, Dedé, Didi, Dodó e Dudu. Só Dedé morreu. Dodó e Dudu são hoje ilustres Figueiredos da cidade. A propósito, me garante a Graci que uma das moradoras da Vila Pereira, que ficava ao lado da estância, a dona Santinha (mãe da Isailda, que acabou sendo poderosa mãe-de-santo) dava uns chinfrins, quer dizer uns arrasta-pés, todo sábado lá na Vila. Pois bem: lá o Dudu já dançava, ainda estudante, com a Regila, hoje sua esposa.

O quarteirão da rua Isabel entre a José Paranaguá e a Lima Bacury já ia ficando esquecido. É por sinal o trecho da rua onde se encontram, ainda hoje, alguns dos sobrados mais bonitos, construídos, frontão de azulejos, aí por 1910. Num deles morou o Acurcio Maia. Noutro, o comandante Frota, que fazia a linha dos vaticanos pelo médio-Amazonas, pai da Isa e da Junis, eram magrinhas, me lembro delas vendendo carambolas numa cesta. O sobrado passou depois para as mãos do dr. Felismino Soares.

Também ali morou tradicional família desta cidade: a dos Trigueiro. Um dos filhos maiores chegou ao comando da Polícia Estadual. Outro, o Francisco, para nós o Chico Trigueiro, a quem ainda não tive a alegria de rever, foi meu colega de turma e grande goleador do time de futebol do Ginásio.

Da Lima Bacury, quero trazer, para representa-la, a humilde a bonita família dos Bonatti. Para dois deles faço questão de gravar, com um ramo de mais límpida do rio Andirá, um sinal do respeito e da ternura que a vida me ensinou a ter por eles. Um é o Adílio, ardoroso e destemido no nosso tempo de Ginásio, hoje um engenheiro empenhado sobretudo na construção do edifício do futuro do nosso povo. O outro é o Bonatti que comigo foi menino de beira de igarapé: o Bonatti do Teatro Amazonas, ao qual deu, como servidor modesto, durante longos anos, o melhor de sua vida e de seu amor.

Da rua Dr. Almino o bom Marciano taverneiro já deu notícias de primeira água. Cabe, contudo, um pouco da história do casarão que deslumbrava os nossos olhos de meninos e que, ainda hoje, admiravelmente bem conservado pelos atuais donos e moradores, se constitui num dos melhores exemplos da arquitetura da Manaus antiga, marcada por influência europeia. Fica do lado direito de quem desce, já quase chegando à Quintino Bocayuva. Foi construído nos primeiros anos do século por um negro vindo das Alagoas, ou do Sergipe, chamado Ascendino Barros. Era contador, não se sabe se de diploma, enfim cuidava da escrita dos livros contábeis, e se fez empregado da Casa Canavarro, de onde saiu, para ter comércio próprio, de sociedade com o José Soares, fundador da casa que até hoje leva o seu nome.

Nos anos 20 o sobrado foi adquirido pelo dr. Xavier da Albuquerque, que pouco tempo depois o vendeu a um português também associado ao Jota Soares, o comerciante Anibal Beça, casado com Dona Mercedes Magalhães. Um filho deles, o Alfredo Antonio Beça, casou com Clarice, linda filha de Luiz Maximino Corrêa, um dos maiores empresários da época. A casa continua com a família Beça: nela foi que Maria do Céu, filha do proprietário, se casou com Emidio Vaz de Oliveira, fino português dono de prestígio e poder na vida da cidade, que o tempo só fez alargar. O casal não tem filhos. Mas os dois souberam construir um secreto parentesco com a multidão de passarinhos que fazem morada no jardim do palacete, em cujo frontão aparecem as iniciais AB, e quase todo mundo pensa que se referem a Anibal Beça, mas são as iniciais do negro Ascendino Barros.

Termino com o quarteirão da Quintino Bocayuva que descia da taverna do seu Emidio, e cujas modestas casas, hoje guarnecidas de grandes metálicas, mal podem respirar debaixo da ponta de concreto que as oprime. Ao lado da taverna, morava o seu Adolfo Pires, pai da Apolônia, gorda bondosa e janeleira e do Tibiriçá, que atualmente dirige importante companhia de aviação.

Para a casa ao lado, alugada ao velho Abdon Said, nossa família se mudou, quando saímos da José Paranaguá. De tudo que a vida nos deu durante a temporada em que residimos naquela casa, gravou-se na memória o primeiro contato direto com a morte. Com meus pais e minhas irmãs maiores, vi pela primeira vez uma pessoa morrer: o meu avô paterno Gaudencio José, o longo corpo estendido na rede na sala de visitas, o olhar doce passeando o seu amor pelos parentes. Uma semana depois, na mesma casa, morria o meu outro avô, de quem eu fora guia quando cego. Em poucos dias perdi dois grandes amigos, que, cada um a seu modo, sabiam se fazer meninos para me ajudar a crescer, a me fazer homem.

Obtenho do meu amigo Waldir Garcia, figura que ocupou cargos de importância na administração do Estado, e que também foi menino da rua Isabel, onde morou com sua tia Ana, casada com o João de Azevedo, valiosas informações. Sua memória reteve, por exemplo, a mania que tinha o comandante Frota, seu vizinho, pelos galos de briga, aos quais dedicava cuidados especiais e em cuja rinha, armada ao fundo do quintal, reuniam-se “galeiros” de fama, um deles o marchante João Magalhães.

Também da memória do Waldir foi que desencavei o nome do taverneiro da esquina da Lima Bacury com a Isabel: era o seu Rodrigues, português bonachão, que desrespeitava muita vez a consigna afixada em letras bem graúdas numa tabuleta na parede, “Fiado só amanhã”, para ceder mercadorias a crédito aos moradores dos casebres humildes da beira do rio.

Waldir guardou o nome da moça cuja beleza fez fama na época, Amenahide; mas foi incapaz de recordar (nem ele nem tantos dos moradores das redondezas, a quem indaguei) o nome de moça já de bom tope, dona de doce jeito de avançar, cabeça erguida, segura de suas pernas altas, mas cuja atração maior, à qual não resistia o olhar mais sossegado da rua, era o busto empinado e perfeito que a natureza lhe deu. Peito de aço, era como a rua a conhecia.

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