ABCedário íntimo para uso público (3)

Por Thiago de Mello

A do professor Abilio Alencar

Nunca fui aluno dele. Os muitos amazonenses que tiveram essa sorte, particularmente as alunas da Escola Normal, entre elas minhas manas Maria Julia, Ritinha e Eline, nunca se esquecem do professor que, além de sábio, sabia ensinar, porque ensinava com alegria. A propósito de algo que todo mundo estava velho de saber, ele tinha expressões que não se cansava de repetir: “Isso é do tempo dos Afonsinhos, da idade do boi Careta”. Para mim, o professor Abilio, cuja casa frequentei ali na Dr. Almino, era sobretudo um ser assombroso dentro d’água. Sua capacidade de flutuar, absolutamente imóvel sobre a água, como se seu corpo fosse feito de cortiça, era tanta, que se comprazia, nas manhãs domingueiras do Parque 10 de águas límpidas, a ficar um tempão, cigarro no canto da boca, lendo o jornal da manhã, literalmente estirado, de pernas cruzadas, sobre a água.

Era também um grande carnavalesco, fundador do famoso bloco Os Ciganos. Mas para mim o professor Abilio foi também o pai do Euler, professor estagiário no Grupo José Paranaguá, com quem aprendi, duvidando muito, que o Sol era também uma estrela, e estrela das pequenas, só que brilhava de dia e parecia grande porque ficava pertinho da Terra. Nenhuma vez entrei na casa do professor Abilio, casa de muita moça bonita e sempre cheia de gente, que não encontrasse o Euler lendo, debruçado sobre um livro aberto. Só uma vez o encontrei em postura diferente, estirado num caixão, coberto de flores, depois que minha Mãe chegou em casa chorando com a notícia da morte do jovem professor.

Nunca mais tive novas da Selma, filha do dr. Abilio, moça que encantava a rua. Nem do Viete, um dos mais hábeis empinadores de papagaio que já conheci, a respeito de cujos dons necessariamente tratarei no livro que tenho já em preparo sobre a arte e a ciência de empinar papagaios em Manaus.

A dos alfaiates e das alfaiatarias do tempo.

Me garante o Ulysses Bittencourt que, ali na Dr. Moreira, rua onde nasceu e cuja história antiga ele conhece inteirinha, o cidadão José Gonçalves Dias, antes de ser deputado por muitos anos, tinha a sua mesa de costureiro. Mas a sua tesoura nunca alcançou a fama que ganhariam depois as dos mestres da Alfaiataria Ramalho, da Alfaiataria Bezerra, ali na rua da Instalação, especializada em uniformes militares e fardas para os alunos do Ginásio Amazonense e do Colégio Dom Bosco, fundada em 1904 sob a direção de Pedro Bezerra.

Alfaiataria de primeira ordem, que ostentava em seus anúncios o mais completo sortimento de casemiras, sedas, flanelas, linhos, palm beach, com especialidade em “fatos de cerimônia”, era a Sportiva, também na rua da Instalação. Na Eduardo Ribeiro, logo depois da Leitaria Amazonas, ficava a alfaiataria Avenida, do italiano Biondini. Mas a casa que reunia a preferência dos figurões da alta era a de um francês dono da alfaiataria Cem Mil Paletots, na Sete de Setembro.

Deixei para o fim, sem me livrar de omissão, a famosa Casa Londres, que funcionava ali nos baixos do Grande Hotel, aos cuidados do bom gosto da tesoura e da régua do português Hilario Martins, o qual tem na sua boa escrita de serviços prestados à cidade o mérito de haver iniciado na arte do corte e da costura o alfaiate jovenzinho que veio a ser o mais talentoso da cidade. Não é apenas a opinião de um amigo dileto. A arte de Cid Cabral, que hoje, no seu sossego da rua Lobo D’Almada, só pega da tesoura e da agulha para atender a clientes do seu coração, é reconhecida pelos grandes costureiros internacionais, que fazem questão de contar com a sua participação nos frequentes congressos aos quais lá vai o Cid em tantas capitais deste mundo.

Convém, no entanto, acrescentar que o Cid, filho de Parintins, que muito jovem veio para Manaus, se fez a figura querida e respeitada já faz tempo pela cidade, não apenas graças à elegância do seu corte, mas particularmente pelas suas qualidades de caráter e de patriota permanentemente empenhado no estudo da realidade social brasileira.

A dos anúncios

que mais ostensivamente apareciam pintados ou afixados nos muros da cidade. O mais pitoresco era inegavelmente o que trazia, a cores, a cara de um homem de olhos contentes, no interior de cuja boca, bem aberta, se via a cabeça de um boi, já quase só com os chifres de fora. A legenda curta dizia tudo: “Coma um boi inteiro e tome Elixir Doria”.

Eram quase que exclusivamente anúncios de remédios. Como o da Emulsão de Scott, à base do óleo de fígado de bacalhau, que trazia a figura de um pescador que carregava às costas um peixe quase do seu tamanho. O Phimatosan era “o milagroso reconstituinte”, indicado para os doentes do peito. O Capivarol era “o fortificante dos fortes”. Tosse? Bromil.

Os bondes traziam dois anúncios inesquecíveis. Um, pintado a cores sobre folha de flandres: um homem muito magro e abatido, sentado a uma mesa, sobre a qual, ao alcance de sua mão, via-se um revólver. De pé, a seu lado, a mão erguida num gesto de exortação, um amigo lhe dizia: “Não faças tal! Já existe o Elixir 1914!”, que era o santo remédio contra a sífilis.

O outro era o famoso anúncio do Rhum Creosotado, feito em versos que ainda hoje correm o país, feitos por Bastos Tigre. A propósito, recordo neste instante que todas as vezes que a vida me dá alegria de encontrar Nicollás Guillén, seja em Paris, em La Habana, em Lisboa, em Santiago do Chile, na Ciudad de México, a primeira coisa que o grande poeta cubano, um dos maiores de nosso tempo, vem logo me dizendo antes mesmo do abraço, são os versos do anúncio do Bastos Tigre, que ele guardou de uma antiga visita que fez ao Brasil: “Veja, ilustre passageiro, / o belo tipo faceiro / que você tem a seu lado. / E no encanto acredite: / quase morreu de bronquite, / salvou-o o Rhum Creosotado”.

A de Amine Daou,

hoje Lindoso, minha colega de turma do Ginásio, hoje esposa do José, que acaba de deixar o governo do Estado e pai do meu amigo Felipe, brasileiro dos bons. Tenho a segurança de que não são as obrigações de mulher de governador, mas as virtudes de seu coração, que a levaram, ajudadas pelos favores oficiais, ao desempenho de um trabalho ingrato, penoso e de cujos resultados sociais concretos quem sabe às vezes ela própria não duvidará. Sempre que me encontra, me vem contente com o seu abraço, sem perder a oportunidade de me chamar, com um carinho que nos resume as divergências ideológicas, de “mau elemento”.

(Do livro “Manaus, Amor e Memória”, publicado pela Philobiblion Livros e Artes Ltda., em 1984)

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