Alain Robbe-Grillet: Viagem ao castelo

Por José Castello

O cenário é impreciso, em tons viscosos, com a estrada borrada em placas cinzentas e pássaros riscando um céu em preto e branco. Acabo de sair de Caen, na Normandia, norte da França, e viajo rumo ao interior, acomodado em um táxi bem aquecido, guiado por um chofer de bigodes largos, em forma de escova, e gestos curtos de bailarina, que, numa velocidade de hipopótamo, me leva até o esconderijo do escritor Alain Robbe-Grillet, o grande chefe do Novo Romance francês.

Contrariando as atmosferas opacas e desumanas que envolvem as narrativas de Grillet, tenho a sensação de entrar em um romance antigo, com escarpas escuras, serviçais nos quais não se deve confiar e outros clichês góticos. Não está nevando, mas a pista se desenrola submersa em uma espuma de nuvens que me lembram o chantilly e me fazem sentir como se eu viajasse sobre um imenso sorvete.

Meu condutor, ainda que conservando a postura profissional, os ombros empertigados, o olhar fixo na estrada, um silêncio de especialista, não consegue camuflar o medo que sente de se perder. “Diabos de estrada!”, murmura ele indignado. “Assim não é possível.” E logo, disposto a apagar a imagem negativa, ergue o queixo, franze a testa e, exibindo-se pelo retrovisor, se esforça para sorrir. Sem saída, deixo-me levar.

Seguira com escrúpulos as instruções que me foram dadas por telefone, duas horas antes, pelo próprio Robbe-Grillet, e, ainda na gare de Caen, procurara um motorista de táxi que conhecesse o caminho para o Chateau de Mentil au Grain, cidadela em que o escritor vive escondido do mundo, longe da Paris, que, décadas atrás, ele se encarregara de dinamitar, acompanhada por amigos célebres como Marguerite Duras, Samuel Beckett e Claude Simon, autores, como ele, de romance gelados e perturbadores.

“Não adianta me pedir mapas, ou indicações precisas, porque eles não servem de nada e, além de tudo, não existem”, advertiu-me meu entrevistado, ainda pelo telefone. Achei que estivesse tentando me convencer a desistir, e por isso não lhe dei muita atenção. Depois, ele abaixou a voz como se tivesse vergonha do que ia dizer: “O único caminho é encontrar um motorista de táxi que conheça o castelo, ou será impossível chegar.”

Bem, não parecia tão difícil, era só um jogo de paciência. Depois de chegar tão longe, não teria sentido desistir, e eu não iria desistir. “Não se preocupe”, eu lhe disse, esticado na cama de meu quarto de hotel em Caen. “Darei um jeito, mas chegarei aí.” Olhei pela janela: caía uma chuva fina, mas persistente, que me aconselhava a virar para o lado e dormir. Mesmo assim, vesti-me e caminhei até a gare, a uma quadra do hotel, ainda perplexo com a segurança contida em minhas palavras, que não combinavam com meu temor crescente de fracassar.

Não foi difícil encontrar o motorista que eu procurava. “Todos aqui conhecem o Sr. Grillet”, me disse um homem de meia-idade, cabelos grisalhos, testa de Poirot, que terminou sendo o meu escudeiro, esse homem que agora me guiava nas trevas. “Ele está sempre chegando de Paris, ou pedindo um táxi pelo telefone quando deseja partir”, completou.

Alain Robbe-Grillet comprou o Chateau de Menil au Grain no ano de 1963, graças a um adiantamento de direitos autorais que recebera da Éditions de Minuit, que publica toda a sua controvertida obra. O castelo, cuja construção foi concluída em 1680, ergue-se a quarenta minutos de automóvel do centro de Caen, em meio a uma floresta de pinheiros em cujas sombras circulam lebres e lobos, paisagem agora, por conta do inverno rigoroso, transformada em uma natureza-morta.

Tomo o táxi na porta da gare, já no fim da tarde. Logo que nos afastamos da cidade, gelada mas ainda nítida, a pequena estrada – sem qualquer iluminação – começa a se derreter e se transforma em uma nuvem, cada vez mais cerrada, que se espalha como uma onda de ácido, roendo tudo a seu redor. Pergunto ao motorista se ele tem certeza de que estamos no caminho certo. “É claro que estamos”, me responde com seu mau humor francês. “O único problema é enxergar a estrada.”

No coração do inverno, anoitece cedo na Normandia. Em alguns momentos, a névoa se adensa tanto, que tenho a impressão de viajar em um monomotor, e não mais em um automóvel. Chego a ouvir o barulho das hélices, que talvez seja apenas o medo girando dentro de mim. Afasto, porém, esses maus pensamentos, convencendo-me de que a visita compensará qualquer sacrifício. Desde muito jovem, leio os romances de Grillet e de sua gangue de dinamitadores, em particular de Sarraute e de Butor. Vou realizar um sonho pessoal, e sempre sentimos uma ponta de medo quando os sonhos ameaçam se concretizar.

Depois de muitos ziguezagues, que me deixam um pouco nauseado, tomamos finalmente uma estreita via de terra que, deixando para trás a atmosfera desolada, desemboca em uma floresta de pinheiros. A paisagem volta a fazer sentido. Mais um pouco e chegamos ao portão principal do castelo, que está aberto e é desprovido de qualquer sinalização. Serpenteando entre árvores de tronco castanho, fincadas na bruma como palitos, subimos um pouco mais; e eis que surge finalmente o esconderijo do conde – nenhuma outra comparação menos óbvia me ocorre –, que tem as portas cerradas e as cortinas das janelas abaixadas, como se estivesse desabitado. Chego a temer que o motorista tenha errado de endereço.

“É aqui mesmo”, ele me diz, notando minha inquietação, e posso sentir a ironia que lhe escorre da face. Ainda dentro do táxi, sem me mexer, negocio um preço e, precavido, peço ao motorista que me espere por três, quatro horas, o tempo necessário, porque, mesmo devendo demorar, não poderei pernoitar no castelo. “O Sr. Grillet não gosta mesmo de receber convidados”, ele acrescenta, com uma certa felicidade. E, sem hesitar, aceita o dinheiro que lhe ofereço, o que não deixa de me surpreender, e me pergunto se traz dentes de olho e estacas de prata no bolso do paletó.

Ainda procuro a campainha, ou algo que a substitua, quando a porta começa a ranger. Atrás da imensa porta de madeira, surge, envolto em um robe lilás, com um cachecol negro que lhe bate na face, Alain Robbe-Grillet, e não posso deixar de evocar, novamente, a figura do conde Drácula. “Então você veio mesmo”, ele comenta, ainda incrédulo com minha presença. Minhas fantasias tolas começam a ruir; a realidade, enfim, passa a se impor, e já não era sem tempo. Esperto, depois de fazer uma reverência de maestro, ele se diminui: “Será que valho tanto?” Não respondo, apenas retribuo o sorriso, enquanto espero que minha respiração retome o ritmo regular.

Robbe-Grillet me conduz, então, através de um pequeno corredor lateral – e as janelas desfilam à minha direita, como quadros abstratos numa exposição. Quase posso ouvir as correntes que se arrastam pelos corredores e as tampas dos ataúdes batendo contra as paredes, até que o escritor, arrancando-me de meu pesadelo, me introduz em um acolhedor salão de estar onde uma lareira crepita, avermelhando as paredes. A atmosfera da sala, em que o conde do Novo Romance se move com desenvoltura, um ambiente discreto mas sofisticado, evoca os tempos de Luís XIV.

Deixando-me para trás, ele se aproxima da lareira a lança algumas toras a mais no fogo, mexendo depois as brasas com um garfo de ferro. Em seguida, abre uma garrafa de madeira, serve dois cálices e trata de se acomodar em uma poltrona de espaldar alto, um pequeno trono bem ao lado do fogo. Ainda inseguro, escolho um lugar no sofá que fica no lado oposto, talvez distante demais para uma entrevista, mas onde afinal posso me sentir mais tranquilo.

O salão é decorado com requinte: da lareira emana um calor reconfortante, há tapetes macios pelo chão com desenhos que não posso decifrar, e peças gregas (provavelmente falsas) colocadas em mesas de canto; almofadas de veludo, candelabros com os pés em cristal, brasões nas paredes, um cesto cheio de bengalas completam o canário. A um canto, há um estranho pássaro de ferro aprisionado em uma gaiola dourada, imagem que me provoca discreta inquietação; atrás dele, leões de bronze, com seus focinhos roídos pelo frio e seus olhos perfurados, nos vigiam.

Custo a acreditar que estou onde estou: Robbe-Grillet mais se parece, hoje, com um fantasma de Robbe-Grillet, e aquele castelo, gelado e imóvel, só pode ser um museu do Novo Romance – isso se eu, por algum mecanismo, não tiver sido carregado para dentro de um dos livros que o conde escreveu. Ali, imitando os romances do escritor, os objetos reinam, soberanos, enquanto nós dois, pobres seres humanos, apenas os incomodamos um pouco; nada podemos fazer, com nosso humor e nossas palavras, que abale esse mundo perfeito de coisas imóveis.

O castelo de Robbe-Grillet fica no coração da Normandia, primeira região da França a ser libertada do jugo de Hitler pelos Aliados. Durante o conflito, Mentil au Grain serviu como enfermaria alemã, e ainda hoje existem vestígios de um cemitério de guerra em certa região dos jardins, logo ali depois daqueles pinheiros, ele diz, apontando pela janela e lamentando que, com o mau tempo, não possa me levar para uma visita. “Se você tivesse vindo na primavera”, ele começa a dizer, mas trato de mudar de assunto.

Robbe-Grillet rememora esse passado heroico sem qualquer emoção, como que se referindo a um filme medíocre, ou um romance de bolso. O castelo conserva, em cada detalhe, essa aparência de cópia barata, de literatura B, armadilha de que também eu já não posso escapar e que mesmo agora, enquanto escrevo, parece entranhada em meu espírito.

Adivinhando meus pensamentos, o conde tenta me convencer de que estou enganado: exibe, comovido, e a título de prova, as grossas paredes que dividem os cômodos, de mais de meio metro de largura, construídas apenas, como nos tempos antigos, com madeira e terra. Ergue-se, abre os braços em cruz e simula um abraço nas paredes, aumentando a dramaticidade de sua descrição e deixando entrever, por instantes, seu talento desperdiçado de ator.

Tento, de minha parte, desempenhar o papel de espectador admirado, mas não sou muito convincente. “Veja, que extraordinário”, ele insiste. “Não é espetacular?” Quando descobre o significado de meu sobrenome, muito adequado à situação, ele fica ainda mais excitado. O velho conde parece, de fato, muito à vontade naquela residência de quatro andares, em que todos os cômodos estão ligados por comunicações secretas e em que as janelas se abrem tanto para o nascer do sol quanto para o poente, detalhe arquitetônico de que ele tem especial orgulho, como se estivesse assim capacitado a dominar o ciclo solar. O escritor não pode esconder sua paixão pelo lugar que escolheu para viver, que hoje se confunde com ele e, provavelmente, também com sua obra.

Robbe-Grillet vive acompanhado apenas da mulher, Catherine, uma autora de romances sadomasoquistas, editados pela coleção erótica da Minuit, que ela assina com o pseudônimo romântico de Jeanne de Berg. “Catherine é especialista em mulheres dominadoras”, ele comenta, com um sorriso maldoso. De fato, Madame de Berg vigia de perto, com o olhar discreto mas atento, boa parte de nossa entrevista, e de vez em quando olha acintosamente para o relógio, lembrando-me assim da proximidade da hora do jantar – para o qual não estou convidado. Tento, o mais que posso, ignorá-la, e o escritor parece se interessar por meu desprezo, que de alguma forma secreta o alivia, tanto que vez por outra seus lábios se alongam, se remexem, emitindo pequenos sinais que interpreto, talvez apressadamente, como de prazer.

É provável, eu penso, que o velho conde, outrora um grande agitador, já não goze de grande liberdade. Sob o jugo de Madame de Berg, ele caminha pelos jardins, toma sucessivos cálices de vinho, aquece-se à beira da lareira, lê sem parar e resmunga, resmunga, lamentando-se da incompreensão que hoje se abate sobre sua obra. Dois dias antes, de fato, percorrendo as prateleiras da Fenac, em Paris, eu tentara localizar os romances de Robbe-Grillet e, depois de muito procurar, encontrara-os à altura do chão, desprezados em uma prateleira rasteira e quase inacessível, esquecidos – a revolução transformada em mofo.

Comprara meia dúzia deles, mas não tivera tempo de reler os que já conhecia, nem de ler os que não tinha lido. A única exigência de Robbe-Grillet para aceitar nosso encontro fora que eu tivesse lido o terceiro volume de sua “Trilogia”, ou autobiografia, batizado Os últimos dias de Corinthe. Eu a cumprira, aos saltos, no expresso de Paris a Caen, e confesso que não me caíra muito bem. Embaralhando aspectos históricos com páginas de ficção, o escritor faz um relato bastante cruel, mas apesar disso enfadonho, do nascimento do Novo Romance, movimento do qual foi o personagem mais eminente.

Para se proteger da ira de seus amigos companheiros, Robbe-Grillet se desdobra em dois: é ele mesmo, o escritor conhecido em todo o mundo por livros como La jalousie, mas é também Henri de Corinthe, seu alter ego, um outro Alain Robbe-Grillet, que ele vem a conhecer, por acaso, no meio da rua. O artifício lhe permite se dedicar à verdade sem que a mentira fique excluída, ou se transforme em um erro. Em outras palavras: tendo um duplo que erre por ele, o escritor fica mais livre para dizer tudo, sem medo de fracassar. A ação transcorre em Herópolis, cidade imaginária que é em parte Paris, mas em parte também o Rio de Janeiro, e em parte ainda Curitiba (há, por exemplo, uma praça central cheia de araucárias), e em novas partes contém ainda pedaços de cidades gaúchas que Robbe-Grillet conheceu durante as viagens que fez ao Brasil.

Em Corinthe, o escritor relata histórias bastante incômodas a respeito de alguns dos seus principais companheiros de aventura. Lembra, por exemplo, que ajudou pessoalmente Marguerite Duras a estabelecer o texto final de Moderato cantabile, romance que marca a grande guinada modernista da autora de O amante, já que o original era excessivamente derramado, até primário. E que foi ele, Robbe-Grillet, quem sugeriu a Claude Simon, o futuro ganhador do Nobel de literatura, cortes decisivos nos originais de Le vent, sem os quais, talvez, seu amigo não teria se tornado o escritor que escreveu, depois, o magnífico La modification.

Duras e Simon, é evidente, trataram mais tarde de atenuar, ou mesmo de excluir, a colaboração de Grillet, confirmando assim que o movimento do Novo Romance foi, antes de qualquer outra coisa, uma gincana de vaidades. Mas Robbe-Grillet, nem assim, abriu mão do papel de grande guia, o grande capitão da aventura que revirou o romance ocidental de ponta-cabeça – movimento que, na definição certeira de Nathalie Sarraute, nada mais foi que “uma associação de malfeitores”.

Em nossa conversa, no entanto, o conde assume um papel bem mais conciliador e se esforça para evitar atritos, fugindo das provocações que ele mesmo exibiu em sua “Trilogia” e que agora, fingindo-me de inocente, eu lhe devolvo. Ainda assim, Robbe-Grillet não consegue conter sua personalidade feroz, que, no campo literário, transformou-o em um escritor talvez gélido demais, um escritor difícil, certamente, mas inconfundível.

A cisão que o velho conde vê em si mesmo – dois Grillets, um vitorioso, outro derrotado – não é arbitrária; ela reflete, ao contrário, a perplexidade que o sucesso da gangue acabou por produzir. Depois de lhe conferir anos de glória, o Novo Romance se converteu em um grave problema para Hobbe-Grillet. Primeiro, os críticos o reverenciaram, afirmando que seus livros lançaram a literatura francesa em um período de grande vertigem, em que todos os parâmetros e cânones se alteraram; mas logo depois os elogios se transformaram em desprezo, e o sucesso passou a ser visto como um fardo.

O desiludido Grillet foi descobrindo que ao grande prestígio não correspondia uma adesão real dos leitores a seu projeto revolucionário. Os leitores, na verdade, preferem o personagem Robbe-Grillet, raivoso e mordaz, aos personagens que ele foi capaz de inventar, preferem o criador às criaturas, acidente que, para alguém que coloca a literatura acima de tudo, só pode mesmo ser considerado uma derrota. E que revela, de modo doloroso, os aspectos falsos, e até pervertidos, do sucesso. “Quando entendi que era admirado mais como personagem que como escritor, meu prazer acabou”, ele me diz, sem esconder a vergonha. Sentindo que um duplo havia ocupado seu lugar, que os leitores agora desejavam o personagem Robbe-Grillet e não mais o escritor Robbe-Grillet, ele entendeu que era chegado o momento de se recolher, pois não poderia viver à sombra de si mesmo.

Primeiro, o casal cogitou em um pequeno sítio, uma casinha acolhedora, dessas que transformam a velhice em uma tela primitiva, o que não era muito animador mas se parecia bastante com o mal menor. Um dia, porém, Madame de Berg, vendo o abatimento do marido, sugeriu: “Já que vamos mesmo sair de Paris, por que não viver em um castelo?” A ideia de habitar um castelo está carregada de fantasias: é associada, sempre, aos mitos antigos, aos contos de fadas, e parece transportar os que a realizam para um mundo superior.

Comprar um castelo se tornou, a partir daí, uma obsessão para Robb-Grillet, mas os preços de mercado, confrontados com o saldo de sua conta bancária, desaconselhavam a aventura. Até que certa manhã, já desanimado, ele deparou nos jornais com o anúncio de um pequeno castelo, muito mal conservado, todo destruído, mas ainda assim de traços imponentes. Estava situado em um lugar quase inacessível, pois a auto-estrada Paris-Brest ainda não tinha sido construída, e por isso o preço pedido era bastante razoável. Um outro fator estimulou Robbe-Grillet: naquele tempo, seus pais ainda estavam vivos e moravam em Best, vizinhança que, além de seus aspectos práticos, tornava a mudança menos escandalosa.

Em poucos dias, fechou o negócio. O castelo fica numa região úmida, desvantagem que não deixa de ser também uma conveniência. Há, primeiro, motivos de ordem botânica: do ponto de vista geológico, o castelo de Grillet está em uma região que já pertence à Bretanha; no momento em que se sai de Caen, abandona-se a zona do calcário, o terreno mais rochoso que vem desde Paris, e entra-se num solo mais antigo, de terra ácida e, em consequência, mais adequado ao cultivo de camélias, hortênsias, flores delicadas que não se adaptam à região de Paris mas que ali, sob as garras do conde, florescem com exuberância.

Quanto à ação da umidade no corpo humano, que é mesmo exagerada e não combina com a velhice, Robbe-Grillet, ainda assim, a bendiz, pois não se dá bem com o clima seco. “Secos, bastam os livros”, eu penso, e me controlo para não dizer, pois o conde já parece bastante agastado. Ele estica os pés sobre uma almofada de veludo, que por instante me faz lembrar um cachorro morto, e, dando mais um gole em seu madeira, fecha um pouco os olhos. Aos poucos, meu querido conde parece mais calmo e menos desconfiado.

Enquanto fala, e muitas vezes se repete no que diz, ou se põe a contar histórias cifradas sobre personagens que desconheço, deixo que meus olhos vagueiem pela sala, que tem mesmo, com suas peças exageradas e um leve cheiro de mofo, a aparência de um museu. E me convenço de que Alain Robbe-Grillet, o escritor, é hoje apenas um ator, muito convincente, que encena o papel de Alain Robbe-Grillet – e que, mesmo que quisesse, já não poderia alterar esse destino.

É sempre muito estranho esse momento em que a vanguarda, roída pela ação do tempo, se transforma em recordação. Em que, chegado o futuro, a ideia de futuro se desvaneça e se pareça apenas com um pesadelo de mau gosto. A denominação em si, Novo Romance, não deixa de ter, agora, um acento cômico, pois é no mínimo inadequado chamar de novo algo que cheira a passado. E, o mais grave, eu sei que o conde sabe disso.

E para suportar a si mesmo, como esses velhos que ficam nas praças com seus tabuleiros de dominó, ele agora se distrai com miudezas. E nesse ponto não deixou de ter sorte. Quando ele chegara ao castelo, encontrara, é verdade, um ambiente bastante habitável: havia aquecimento central, um telefone, água em abundância, e no entanto tudo lhe parecia ainda por fazer. Fora um período muito difícil, durante o qual ele se vira obrigado a se concentrar em planilhas de custos, listas de encomendas, orçamentos, e a dividir seus dias com pedreiros, entregadores e eletricistas, deixando um pouco para trás terror que ele mesmo, com seus livros, ajudara a produzir.

“Os homens costumam construir seus próprios infernos”, ele me diz. “E depois são eles mesmos, exaustos, às vezes já sem forças, que devem apaga-los. A essa rotina dupla de incendiário e bombeiro”, ele conclui, “chamamos viver.” A reflexão, ainda que depressiva, parece entusiasmá-lo. “Fizemos, eu e Catherine, praticamente tudo sozinhos”, ele resmunga, e rugas se avolumam em seu rosto, pequenas sombras horizontais que passeiam seguindo o movimento das palavras.

O salão em que estamos, por exemplo, foi todo redesenhado por Madame de Berg; do original só restam as portas em décor Luís XV. E Grillet fez, ele próprio, todo o serviço de marcenaria, atividade que julga muito tonificante. Sim: quando a literatura falha, é preciso encontrar alguma coisa a que se apegar, e aí a realidade, com seus problemas tolos, listas de compras e parafusos, pode ser um bom começo.

Foi bom que tivesse se dedicado à marcenaria. Depois de concluir suas memórias, o escritor já não tem projetos literários. Não tomou a decisão de parar de escrever, só sabe dizer que não tem mais ideias, e isso é tudo. O que pode fazer? “Tenho a sensação de que as ideias desapareceram”, ele confessa, sem perder a dignidade. “De que se esgotaram.” Continua porém a trabalhar, intensamente, em seus projetos para o cinema, roteiros que, no entanto, já não interessam a ninguém.

O tempo – que o Novo Romance subverteu por completo, paralisando as horas numa grande borra de imagens – agora se vinga de Robbe-Grillet. Sem ideias para a literatura e desprezado como cineasta, ele se vê em descompasso absoluto com o mundo. Digo que está exagerando, mas ele não se apega ao consolo que, desastrado, eu lhe ofereço. Para provar que não exagera, e que a grande sombra de desprezo vem de longe, pergunta se estou disposto a ouvir uma história. É claro que estou.

Em 1975, Robbe-Grillet realizou um filme, O jogo com o fogo, protagonizado por uma atriz que estava na moda: Sylvia Kristel. Graças à sua performance em Emanuelle, filme que chegou a ser proibido no Brasil durante o regime militar, Kristel tinha se tornado famosa em todo o mundo. Depois de tentar, sem sucesso, a autorização para exibir Emanuelle, o distribuidor brasileiro resolveu, como forma de compensação, investir em O jogo com o fogo. E isso, não por causa do diretor, Alain Robbe-Grillet, que ele nem sabia quem era, mas só porque Sylvia Kristel, a atriz proibida de Emanuelle, era a estrela do filme. A publicidade brasileira dizia: “Você, que não pôde assistir a Emanuelle, veja agora o filme de Alain Robbe-Grillet”, e, logo abaixo, havia uma foto escandalosa de Kristel. Em outras palavras: a indústria cinematográfica brasileira, na falta de melhor mercadoria, passou a vender Alain Robbe-Grillet como um autor pornô.

“Eu tinha o mesmo valor que uma caixa de preservativos, ou uma calcinha”, ele reflete, ainda conseguindo se divertir. Sylvia Kristel veio ao Brasil para o lançamento de O jogo com o fogo, filme que em circunstâncias normais jamais teria qualquer repercussão no mercado brasileiro, e, apesar de seu status de atriz censurada, conseguiu ser recepcionada em uma festa organizada pelo Ministério do Interior. E o filme de Grillet, que imediatamente se tornou um sucesso de bilheteria, era na verdade só um filme “de arte”, como se dizia, absolutamente incompreensível para a maioria dos espectadores. O que mostra que o sucesso, muitas vezes, é só uma armadilha. Ou, como Grillet prefere ver agora para se livrar da dor, uma piada.

A verdade é que Robbe-Grillet ficou marcado não só por sua associação com Silvia Kristel, mas também pelo rótulo do Novo Romance – uma espécie de prisão que ele mesmo criou para si, e da qual jamais pôde fugir. Rótulos aderem com facilidade a superfícies frágeis, e Grillet é fragilíssimo, mas se tornam resistentes quando desejamos nos livrar deles. A rigor, o Novo Romance não designa um único tipo de literatura, mas muitas literaturas. A bandeira se converteu, com o tempo, numa camisa-de-força. Robbe-Grillet foi vítima desse tipo de duplicação (ou de clonagem) que afeta os artistas criadores de grandes marcas.

Primeiro, eles têm sua imagem fixada em meia dúzia de adjetivos (no seu caso: frio, cerebral, cinematográfico, desumano…) dos quais, mesmo que se esforcem, não podem mais se livrar. Algum tempo depois, aquilo que serviu à mídia como objeto de venda e consumo, que rendeu reportagens especiais e capas de cadernos, é jogado no lixo das coisas comuns. Depois de celebrado, o Novo Romance se tornou “tedioso”. E logo ninguém se interessava mais por ele.

As tiragens também nunca foram o forte do Novo Romance. La Maison du rendez-vous, o caso mais surpreendente, foi no começo um estouro comercial, mas depois as vendas caíram, de repente, sem que se pudesse entender a razão. Já com La jalousie se deu o oposto: o interesse do público, de início muito fraco, aos poucos se consolidou. No primeiro ano, La jolousie só vendeu algumas dezenas de livros, depois se tornou um clássico. Mais uma vez, a razão deve ser procurada fora dos domínios da literatura: provavelmente, no sucesso de O ano passado em Marienbad, filme de Alain Resnais, do qual ele é, mais que Resnais, o verdadeiro autor e que o projetou internacionalmente. Ouso perguntar se não são as teorias do Novo Romance que, até hoje, afugentam os leitores, que buscam apenas bons livros para ler.

Parece que toquei em uma ferida, porque Grillet se encolhe na cadeira, deixa a cabeça pender em direção às mãos e parece rezar. “Quando releio hoje Por um novo romance, o principal livro de teoria que escrevi, acho-o muito esquemático, simplista mesmo”, ele admite, constrangido. Julga-o mais um livro de combate, uma arma de guerra, que um livro de teoria. “E eu não me considero um teórico”, diz, agora com a voz mais firme. Como se tivesse encontrado, depois do sufoco, a via de saída. E acrescenta que as teorias são interessantes, mas que um escritor jamais deve se valer delas na hora de escrever. “A teoria é mais o resultado do trabalho do que a causa do trabalho”, diz. E lembra que primeiro escreveu quatro romances, até La jalousie, e só depois escreveu seu primeiro ensaio, o célebre (mas maçante) Por um novo romance.

Os leitores, no entanto, costumam julgar que as teorias precedem as criações, quando, na verdade, elas as sucedem. “Elas são seus herdeiros, e não seus genitores”, Grillet diz. Quando as teorias vêm primeiro, as obras que as sucedem costumam fracassar. E mesmo surgindo depois da obra, a teoria também parece destinada ao malogro. Mesmo chegando depois, a teoria aponta sempre para trás, e não para a frente: a prova é que as teses de Por um novo romance foram desmentidas, em seguida, pelos romances que o sucederam. “Esses livros não pertenciam mais às teorias que formulei, mas ao futuro”, reflete. “A teoria, ao contrário, está sempre a reboque da criação.”

Incompreendido pelos leitores, Robbe-Grillet não teve nem mesmo o consolo de seus companheiros de aventura literária. O grupo do Novo Romance nunca foi mesmo muito unido. A rigor, talvez não se possa nem falar em um grupo. Claude Simon, no momento em que conversamos, já está com seus oitenta anos e, distante de todos, exilou-se na fronteira espanhola. “Eu, com os meus setenta e cinco, estou aqui na Normandia, do outro lado do país”, diz Grillet, sem deixar de achar engraçado.

Já Michel Butor está cada vez mais fechado, mais rabugento; evita toda forma de contato, enclausura-se, não quer ver ninguém. E Nathalie Sarraute, que a esta altura já passou dos oitenta anos, vive isolada em Paris. Além disso, Samuel Beckett está morto, Marguerite Duras também, e outros, menos prestigiados, simplesmente desapareceram. “Enfim, o tempo nos separou. Nada mais resta, nenhum consolo, nenhum amparo”, o conde se lamenta, e não diz isso só por nostalgia, mas como se agora duvidasse do que realmente se passou. “Talvez nosso encontro tenha sido só um romance que ninguém teve coragem de escrever.”

O exílio no castelo, protegido pela bruma, pela floresta, pelas paredes grossas, e atenuado pela rotina enfadonha da marcenaria, pode ser visto, então, como uma bênção. Graça um tanto amarga, é verdade, pois o conde se sente esquecido, e esse sentimento, para quem esteve sempre no centro da batalha, é devastador.

Esquecido e, talvez mais ainda, magoado. Depois que Samuel Beckett e Claude Simon receberam o Nobel, a inveja entre eles se tornou uma doença. Simon, o contemplado pela academia sueca, foi, entre todos esses malfeitores, quem fez uma literatura mais próxima da convencional. Não é de surpreender, no entanto, que o Nobel tenha escolhido a regra, e não a exceção. “Por que Sarraute não recebeu o Nobel, por que não ela?”, Grillet se pergunta, para logo, sem se conter, acrescentar: “E por que não eu, na verdade?”

Por que o Nobel foi para Claude Simon, e não para Robbe-Grillet, que sempre foi o grande chefe do Novo Romance? Simon fez a guerra da Espanha do bom lado, enquanto Grillet, e ele admite isso sem qualquer culpa, esteve sempre do lado errado, ou na penumbra. Outro fator: para Claude Simon, a sexualidade é sempre muito saudável, enquanto que nos romances de Robbe-Grillet ela toma formas perversas e desviantes. “Claude Simon representa muito o Nobel do que eu. Mas eu represento melhor que ele o Novo Romance, e é isso o que me importa”, fecha o assunto um Grillet melindrado.

Simon, assim como Butor, são muito mais recuperáveis para o humanismo do que Grillet, o conde gelado, com seus livros feitos de paisagens duras, seres vazios, acontecimentos inexistentes. E o Nobel, ele argumenta com razão, é um prêmio do humanismo. Por fim, não pode conter o sarcasmo: “Eu fiquei muito contente por Claude Simon ganhar o Nobel, porque ele o ganhou graças a mim”, diz, e o ressentimento lhe toma a face, antes avermelhada pelo madeira e pela proximidade do fogo, e agora empalidecida pelo desgosto. A velhice, em grande parte, é isso: mágoa, descontentamento, pesar. Não seria diferente para o grande malfeitor.

É verdade que Robbe-Grillet teve ótimas relações com Marguerite Duras, que ele considerava uma mulher engraçada, cheia de vida e escolada em espertezas. “Mas, no fim da vida, Marguerite se converteu em uma espécie de estátua empalhada”, lamenta. “Ela se tornou a Grande Dama da literatura francesa, isso me fazia rir, era simplesmente ridículo”, diz. Duras, ele afirma sem nenhuma piedade, transformou-se numa mulher insuportável.

Com Nathalie Sarraute, que Grillet julga uma mulher muito mais inteligente, ele ainda pôde ultrapassar certas miudezas, certas mesquinharias, ainda pôde perdoar, mesmo que esse perdão nada mais seja agora que gelo. Mas, ainda assim, o diálogo era difícil, porque Sarraute não gostava nem de Duras nem de Beckett, e isso porque era muito invejosa, ele justifica.

Grillet admite que, no fim, teve problemas com todos os seus companheiros de escola, mas ainda assim, afirma, gosta de todos eles. “Eles, sim, se desentenderam entre si”, diz, esforçando-se para se consolar com a serenidade. Com Marguerite Duras, porém, a convivência tornou-se impossível. “Eu pensava nela e ria”, recorda, rindo ainda.

O conde tem uma tese bastante cruel a respeito da popularidade de Duras: a de que um escritor se torna popular, sempre, por causa de algum mal-entendido. Beckett, por exemplo, popularizou-se graças a um erro: até hoje seu Esperando Godot é lido como a história de um homem abandonado por Deu. “Isso é simplesmente um absurdo”, avalia, “é muito ofensivo a Beckett.” No entanto, é o motivo de sua fama. Quanto a Duras, Grillet acha que, na verdade, ela só escreveu “romances de gare” – livros para serem lidos no trem, ou no avião, distraidamente, enquanto se vê a paisagem, ou se masca um chiclete.

Ela ficou célebre, sobretudo, por O amante, e este é, a seu ver, um livro que se presta muito a esse tipo de leitura despreocupada, leitura ligeira entre um sanduíche e um cochilo. Robbe-Grillet julga que, nesse aspecto, há sem dúvida um mal-entendido, pois Duras é muito mais que uma autora de bolso, é, sim, uma grande escritora. No entanto, ela ficou conhecida pelo mais fácil, já que os leitores, e também os críticos, são sempre preguiçosos. Flaubert também ficou célebre por causa do processo contra Madame Bovary, e não por causa de Madame Bovary. No cinema, O último tango em Paris, o mais famoso filme de Bernardo Bertolucci, ficou famoso por causa de uma manteiga…

Termino convencido de que, mesmo que a inveja continue a agir em surdina, Robbe-Grillet não deixa de estar certo. O conde acredita, porém, que esses equívocos, no fundo, não têm importância alguma. “Devemos nos beneficiar também dos mal-entendidos, pois é preciso sempre saber aproveitar as chances que a vida nos oferece”, ele sugere, com a pose de psicólogo – mas também essa imagem o deixaria arrepiado, então prefiro me calar. “Se o mal-entendido nos serve para a consagração, para a popularidade, por que não aceita-lo?”, e aqui o escritor se diverte com a própria ironia, mas a tristeza nem assim o abandona.

Robbe-Grillet não escreve mais. Ainda viaja muito, recebe diversos convites, mas quando está na França prefere ficar isolado em seu castelo. Nos últimos tempos, tornou-se também jardineiro. Trata com carinho particular de uma estufa para cactos, que são hoje sua grande paixão. Faz ainda pequenos trabalhos manuais, reforma móveis, constrói canteiros, repara a cerca. Ampara-se nas coisas – e nem parece que as coisas, em seus livros, sempre o infernizaram. Tem, ainda, uma coleção de carpas. “A carpa é, talvez, o único animal de que sou capaz de gostar”, ele diz. Não é preciso perguntar a razão: Grillet ama nas carpas a leveza, a elegância e, mais que tudo, o silêncio, que combina com a sensação, que lhe volta sempre, de que já não há o que dizer.

Catherine entra na sala e, discreta, vigia o último trecho de nossa conversa. Incomodado pela presença da mulher, o conde passa a circular pelo salão como um cicerone, apontando telas, objetos de arte, livros. “Infelizmente, o frio não permitirá que eu lhe mostre os jardins”, ele diz. São quase nove horas da noite e o castelo está imerso em um grosso nevoeiro. Preciso ir. Na porta de saída, para minha surpresa, Robbe-Grillet me abraça calorosamente. “Então, a entrevista não o incomodou tanto”, digo, referindo-me a sua resistência inicial. Para se desviar de meu comentário, ele mostra, entusiasmado, a madeira trabalhada da escada que se ergue diante da porta principal. É uma escada muito bonita, que sobe com majestade, prometendo grandes tesouros. “Se houvesse mais luz, eu o faria subir para uma visita”, desculpa-se, mas eu sei que o problema está dentro de um vestido preto.

Abrindo a porta, e ainda se fazendo e difícil, ele me diz: “Só o recebi porque você veio de tão longe.” Talvez seja verdade. A literatura não o interesse mais. O sucesso o abandonou. Alain Robbe-Grillet é hoje quase que só uma etiqueta: “Novo Romance”. Avisto então meu motorista, que, paciente, cochila aconchegado em seu carro. Enquanto bato na janela, ouço a porta do castelo ranger às minhas costas. Assim que tomo meu lugar, o motorista, ainda bocejando, diz: “Já estava preocupado com o senhor.” Só para agradá-lo, simulo um ar fatigado, de quem passou por uma grande provação, e depois fecho os olhos. Ainda o ouço dizer: “Escritores são sempre muito esquisitos.” Talvez tenha mesmo razão.

(Publicado no livro “Inventário das Sombras”, de 1999)

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