“Alguém apertou o rewind na máquina do tempo e estamos indo pra trás”, avisa Reinaldo

Reinaldo Figueiredo é conhecido por ser aquele policial americano mal dublado da série “Fucker & Sucker” ou por encarnar o presidente “Devagar Franco”, duas criações antológicas do programa “Casseta & Planeta”, da TV Globo Comunista (ex-Tv Globo Golpista).

No entanto, antes de virar um global famoso e cercado de mulheres por todos os lados, Reinaldo já tinha sido editor do lendário “Pasquim” (de 1974 a 1985) e criado “O Planeta Diário” em 1984, tabloide que revolucionou o humor brasileiro ao final da ditadura e que segue sendo a grande referência para a zoeira internética de hoje – como “Sensacionalista” e o glorioso “Marcha da História”. O “Planeta” o levou para a redação do “TV Pirata” (1988-1992) e, depois disso, ao longevo “Casseta & Planeta” (1992-2012), como roteirista e também ator.

Reinaldo também é autor de alguns dos livros mais criativos do humor gráfico brasileiro, como “A Arte de Zoar” e “Noites de Autógrafos”, e atualmente é colunista do jornal “Folha de S. Paulo”. Ele ainda apresenta o programa “A Volta ao Jazz em 80 mundos” na Rádio Batuta e toca contrabaixo na banda Companhia Estadual de Jazz. Aliás, ele ensina que o certo é”djás” e não “djés”, como vocês, filisteus, vivem pronunciando. Não se preocupem. Eu também só falo “djés”.

Esta entrevista faz parte da série “O HUMOR NOS TEMPOS DA CÓLERA”, que pretende discutir a arte da graça nesses tempos onde todo mundo se proclama um guerreiro social ou patrulheiro moral. Eventualmente, as entrevistas serão todas reunidas num livrão bem lindão sobre o humor brasileiro no Terceiro Milênio. A não ser que o Apocalipse Zumbi aconteça primeiro, claro, mas é problema pra outra hora.

Agora, senhores e senhoras, fiquem com o talento, o charme, a elegância e a malemolência de… REINALDO!

Desenho de Reinaldo na capa do “Pasquim”

Você editou o “Pasquim”, criou o “Planeta Diário”, foi pra TV e agora está na Internet, rádio etc. Pouca gente tem essa mesma experiência multimídia. O que muda no humor em cada plataforma?

A principal diferença é que no humor de imprensa escrita você tem mais liberdade, principalmente se você é o dono do jornal. Coisas que a gente publicava no “Planeta Diário” nunca iriam ao ar na “TV Pirata” ou no “Casseta & Planeta”. Na TV você tem um público muito mais amplo. Não é nem por auto-censura, mas por uma questão de bom senso editorial mesmo. A gente sempre teve noção dessas diferenças.

Era possível “editar” mesmo o “Pasquim”? Porquê o jornal só tinha estrelas e cada um fazia o que queria ou não? Como era isso?

Eu fui colaborador fixo, com carteira assinada e tudo, por alguns anos, e um dia o Jaguar me escalou para ser um dos novos editores, junto com o Ricky Goodwin e o Haroldo Zager. Eu fiquei mais com a parte do humor. E é claro que Jaguar e Ziraldo continuavam no controle. Por exemplo, o Ronald Reagan tinha acabado de ser eleito presidente dos EUA, o Jaguar chegava pra mim e falava: “Bola uma capa sobre isso! E junta os cartunistas e redatores pra fazerem 3 páginas sobre o Reagan!”. Nessa época é que eu comecei a fazer coisas em parceria com o Hubert e o Claudio Paiva. Foi uma espécie de laboratório do que viria a ser o “Planeta Diário”. Enquanto isso, o Ivan Lessa, lá de Londres, junto com seus textos, também mandava cartas dando muitos pitacos sobre o jornal…

Tinha muita treta na cúpula do jornal? Ziraldo, Jaguar e Ivan trocavam farpas publicamente?

O Ivan foi, durante uns tempos, um editor à distância, mesmo morando em Londres. E é claro que rolavam altas discussões e discordâncias. Tudo normal, ainda mais com esses caras. Era um eterno embate de egos e personalidades fortes. Mas não muito publicamente. O ponto culminante dessas discordâncias foi na cizânia eleitoral de 1982, quando Jaguar ficou do lado de Brizola e Ziraldo, do MDB. Uma pena, porque essa militância do humor na política partidária geralmente não dá certo. Aí, quem saiu perdendo foi o humor e o “Pasquim”…

Você era o ilustrador do Ivan Lessa nos “Diários de Londres”. Como era a relação com o Ivan, como ilustrador e editor? Fui editor dele na “Playboy” e nos dávamos muito bem, mas o cara sempre teve fama de irascível e intratável. Como era?

O pessoal às vezes confunde o Ivan Lessa com seu alter-ego, o Edélsio Tavares. Comigo, o Ivan sempre foi muito tranquilo, um gentleman. Não é por acaso que ele se sentia bem em Londres e acabou indo morar lá pra sempre. É verdade que, se ele me respeitava, era porque sempre gostou do que eu fazia. Um dia até me convidou pra fazer uma história em quadrinhos em parceria com ele. Infelizmente, eu amarelei e a coisa nem começou. Usei esse episódio pra fazer uma HQ, publicada na revista Piauí: “Memórias Póstumas de Ivan Lessa”.

O que mudou no humor do “Pasquim” até agora? Ainda funcionaria uma publicação – ou um site, ou um canal do YouTube – com aquela mesma pegada de humor meio intelectual, meio de esquerda?

Eu acho que hoje temos um pouco disso no site da revista “Piauí”, com o “Piauí Herald”, os cartuns e HQs.

Nos estertores do “Pasquim” teve um quadrinho de que gosto muito e do qual ninguém mais se lembra, “Avelar, o general que não aderiu ao golpe”, do Hubert, Claudio Paiva e do Agner, que ridicularizada e enterrava a ditadura. A ditadura foi enterrada cedo demais? O Avelar foi criado cedo demais?

Não, acho que foi criado na hora certa, e o alvo não era só a ditadura, mas também as figuras da esquerda. Me lembro que a Dona Nelma, a secretária do jornal, era brizolista roxa e falava: “Pô, meninos, dessa vez vocês pegaram pesado com o Brizola…” Mas o General Avelar foi uma criação deles, e eu dava todo o meu apoio. E, como eu disse antes, desse tipo de coisa é que nasceu a ideia de criar o “Planeta Diário”…

Por quê esquerda e direita têm tanto fetiche com a ditadura? Será que é sadomasoquismo?

No caso do “Pasquim”, não era fetiche, a ditadura era uma coisa real, tinha gente sendo morta e torturada, tinha censura prévia, essa coisa toda…Não era a ficção do George Orwell, era um reality show de terror, só que não era transmitido pela TV.

Tá, mas eu falo hoje. Esquerda e direita são nostálgicos daquele período. A direita tem saudade de uma ordem que nunca existiu e a esquerda tem saudade do tempo em que era vista como heroína e não como corrupta. Já não passou da hora de seguir em frente?

Mas nós vamos seguindo em frente, do jeito que é possível… E este momento está muito parecido com os chamados “anos negros”, mesmo que a gente não esteja numa ditadura. Com esse tipo de governo no poder, toda a oposição passou a ser de esquerda. Eles acham que todo mundo é comunista. O que é uma situação totalmente grotesca e surrealista, mas é um prato cheio para o humor…

Durante a ditadura, a causa vinha sempre na frente do humor. O “Planeta” mudou isso, fazendo o humor vir na frente da causa. Mas com a chegada do lulismo ao poder, a causa voltou a ficar na frente do humor. E continua assim em boa parte do humor gráfico e televisivo. Um humor claramente “com lado”. Você também tem essa percepção? Será que isso vai mudar um dia?

A grande diferença é que no tempo da ditadura a situação era mais simples e maniqueísta: quase todo artista era contra o regime militar. Seria muito absurdo um humorista, que é um cara que depende de liberdade de expressão, apoiar um regime que faz censura prévia e fecha jornais, cassa mandatos e tortura adversários. Era quase todo mundo contra a ditadura, isso é óbvio. Depois da abertura, a coisa fica mais complicada. E aí começam a aparecer os 500 tons de oposição…

Mas, hoje em dia, contraposição ao, digamos, “humor lulista”, apareceu um troço que antes era impensável: o humor de direita, especialmente no stand-up. O que você acha desse fenômeno?

É um fenômeno meio bizarro, mas nesse mundo tem de tudo e, numa democracia, a gente tem que conviver com as opiniões divergentes, e tem que aturar qualquer tipo de piada, mesmo as mais escrotas.

Você já ficou ofendido alguma vez com alguma piada, charge, texto ou cartum?

Ofendido, não. Eu só lamento. Lamento que existam no mundo textos horríveis, desenhos mal feitos, piadas sem graça e humoristas sem noção. Mas faz parte. Errar é humano.

Um fenômeno doido dessa eleição pra president foi o surgimento de uma “direita zuêra”. A candidatura Bolsonaro foi impulsionada por contas no Twitter que eram bem engraçadas – como, por exemplo, o Joaquim Teixeira – enquanto o Lulismo continuou no mimimi mal humorado de sempre – como, por exemplo, a Dilma Bolada. Na sua opinião, isso de alguma forma afetou o resultado das urnas?

É difícil dizer se isso teve efeito na votação, mas acho que nessas eleições o bom humor continuou aparecendo de todos os lados. Os anti-bolsonaros não eram sempre mal humorados, e também tiveram seus bons momentos. Por exemplo, aquela série de memes feitos com fotos de bonecas Barbie…

“Quando “O Planeta Diário” surgiu, parecia que o cartum do empresário de cartola montado no operário, que era o nosso “cartum de ilha”, estava morto para sempre. Mas ele voltou com força e com vontade nos últimos anos. Por quê? A gente não consegue andar pra frente?

É, infelizmente parece que alguém apertou a tecla de rewind na nossa máquina do tempo e estamos indo pra trás. Mas se ainda tem gente querendo fazer cartum de empresário de cartola montado no operário é porque aqui ainda tem uma distância enorme entre os mais ricos e os mais pobres. No dia em que desaparecer esse problema, esse tipo de cartum não vai fazer mais sentido. Quem tem que mudar não são os cartunistas e nem os ficcionistas, a realidade é que tem que mudar primeiro.

Mas isso não vai acontecer nunca. A Califórnia tem um PIB maior que o do Brasil, mas, ainda assim, lá vivem o Elon Musk e também o mexicano que trabalha pra ele de jardineiro. Só que o humor americano, na média, é muito mais criativo que o brasileiro e não fica tocando sempre esse samba de uma nota só. Por quê?

Não sei se é bem assim. Por exemplo, agora na Califórnia tem um monte de humoristas fazendo piada com o problema dos imigrantes e com o Trump. Problemas de injustiça social sempre vão existir e você pode, e deve, tratar desses assuntos de um jeito engraçado e criativo. Ou então ficar só no mimimi ou no protesto puro, coisa que não tem a ver com o departamento de humor. Você pode achar que o humor nos Estados Unidos é mais criativo porque, realmente, lá tem muita gente trabalhando nisso. Lá tem muito mais filmes, programas de TV, revistas, sites, podcasts etc. E a quantidade gera qualidade, mas também gera muita merda. O trabalho do público é, nesse caos de excesso de informação, descobrir o que é bom.

Como sucesso do “Planeta Diário”, ali bem no comecinho, vocês meio que voltaram ao “Pasquim” com uma história em quadrinhos completamente maluca chamada “Lacerda, o Merda”, que era um negócio sem roteiro, com cada um desenhando um quadrinho, parecendo HQ francesa. Por quê esse tipo de HQ porralouca e sem-noção não vinga por aqui? Por quê, nós, humoristas, somos tão sérios?

Quem fazia essa HQ era o Hubert e o Claudio paiva, mas sem o Agner, que fez com eles o “General Avelar”. E era naquele mesmo estilo, de quadrinho colaborativo, cada um desenhando uma parte, tipo “Los Três Amigos”, de Angeli, Laerte e Glauco. Eu também acho que o mundo das histórias em quadrinhos tá precisando de mais humor…

Lacerda, o Merda, parceria de Hubert e Claudio Paiva

O “Casseta e Planeta” gozava deus e o mundo, de Osama a Obama. O humor televisivo de hoje tem essa mesma amplitude? Vocês inclusive são os responsáveis pela criação da sigla “FHC”, criada quando o Hubert fazia um Fernando Henrique doidão num esquete chamado “Praça dos Três Poderes da Alegria”. Como você se sente batizando um presidente?

Só fazendo uma correção: A “Praça dos Três Poderes da Alegria” era com o Devagar Franco, que eu fazia, sentado lá mesmo, em Brasília, na locação real, num banco, na Praça dos Três Poderes. Como dizem os atores, “foi muito gratificante viver esse personagem importante da nossa história”. Outro dia mesmo eu estava fazendo a minha caminhada e um cidadão gritou pra mim: “Ô Itamar, quem diria que a gente ia ter saudade de você!”

Num grupo onde todo mundo escrevia – e escrevia muito bem – como no “Casseta e Planeta”, devia ser dureza aprovar esquetes, não? Como era o processo de aprovação? Tinha votação? Existiam subgrupos dentro do grupão?

Nosso método era baseado num brainstorming geral com todo mundo dando ideias. E sobravam as melhores, depois de altas discussões em alta decibelagem. Tinha uns dias em que os vizinhos comentavam com nossos funcionários: “Eu acho que o grupo vai acabar hoje…” Mas não acabou e esse processo durou quase vinte anos. Depois de escolhidas as melhores ideias, a gente se dividia em três grupos para finalizar o texto. E depois, o resultado ainda passava por uma dupla que fazia a redação final. Durante um tempo era Claudio e eu, depois foi Cláudio e o Beto…

A patrulha ideológica não é novidade. Mas ela vigiava o posicionamento político e não o posicionamento cultural, certo? Quer dizer, você podia fazer piada com gay, só não podia fazer piada com a esquerda. Tem uma diferença entre os dois tipos de patrulha? A patrulha de hoje é pior que a patrulha dos anos 80?

O problema da patrulha ideológica de hoje é que ela não é mais uma patrulha metafórica, ela é uma patrulha mesmo, composta de sujeitos raivosos, empunhando armas de grosso calibre.

Como é fazer humor com tanto grupo de pressão na cabeça? É diferente?

Eu acho que você não deve se deixar pressionar, ou impressionar, pelos grupos de pressão, contando que a coisa fique no plano do debate de ideias. Isso faz parte do jogo. O problema são os grupos de pressão que não sabem criticar com palavras e ideias. Por exemplo, se aqueles fundamentalistas islâmicos tivessem ido no “Charlie Hebdo” pedindo pra publicar um texto, um cartum, ou ido lá pra defender o seu ponto de vista, seria razoável. Mas os caras não levaram papéis, livros ou notebooks, eles foram com fuzis Kalashnikov.

O Cláudio Manoel disse que a diferença entre o lulismo e os outros grupos políticos é que os outros não têm militância pra encher o saco, como ocorreu com o “Casseta e Planeta” no tempo da Dilma. Mas agora nós temos o bolsonarismo, que é o lulismo de direita, e que age da mesma forma. Tem diferença entre uma coisa e outra? Qual?

Qualquer fanatismo é uma merda. E eles se parecem muito. Mas são ótimos alvos para o humor. Um torcedor furioso que mata o seu adversário arremessando uma privada do alto do estádio, um fanático religioso que taca fogo num templo porque acha que o seu “deus” é mais maneiro que os outros, ou o fanático político que se recusa a ver as maluquices que seu líder é capaz de fazer… todas são figuras bizarras e grotescas, que acabam sendo matéria prima para muitas piadas boas. Felizmente. Ou infelizmente.

Você se autocensura? Que tipo de piada você não faz de jeito nenhum?

Em princípio, nenhum assunto deveria ser tabu mas, como eu falei antes, o problema da autocensura acontecia mais quando eu fazia coisas para a televisão. Mas a piada que eu sempre evito fazer é a piada sem graça.

Essa coisa de tocar jazz não é meio esnobismo? Por quê humorista não é fã de forró, cacete?

Aí é que você se engana, meu caro Aran. Eu gosto de forró, de samba e de qualquer música boa. Dois dos maiores músicos brasileiros foram Sivuca e Dominguinhos, sanfoneiros da pesada. E o meu quarteto não é de jazz, é de samba-jazz. Procure saber sobre a CEJ (Companhia Estadual de jazz). O único problema desta banda é o nome, que só é compreendido aqui no Rio. A nome é um trocadilho com CEG (Companhia Estadual de Gás), a fornecedora de gás aqui na região. E o que é pior: o trocadilho só funciona se você pronunciar “jazz” com um sotaque bem carioca: “jás”, pra rimar com “gás”.

O humor brasileiro tem o rabo-preso? Quem prende o rabo do humor brasileiro?

O humor brasileiro em geral não sei, mas qualquer um, individualmente, pode ter o rabo preso. É só se oferecer para entrar em algum esquema desses que sempre rolam por aí. Mas não sei se a galera da propina ia querer desperdiçar dinheiro comprando humorista…

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