Amo e escravo

Por Marcos de Vasconcellos

Era um preto retinto, magrelo, idade imprecisa, eletrificado, chamava-se Djalma e dizia-se mordomo, declaração que ficava longe de me envaidecer dado o aspecto pouco inglês da criatura e o serviço soi disant à francesa ser mais à africana. Contudo, era um eficiente factótum na minha casa de recém-casado e logo depois povoada de menino novo.

Um belo dia mandou-se o Djalma levar a enceradeira para consertar e nunca mais se soube nem dele, nem da enceradeira, nem de inúmeros outros objetos, alguns de apreciável valor. Eu, que tenho muita preguiça de polícia, deixei por isso mesmo e absorvi o prejuízo, absolvendo o ladrão.

Meses depois, eu estava, lá pelo meio-dia, na esquina da Rua Santa Clara com Av. Atlântica esperando alguém, quando ouço a tradicional gritaria de “Pega! Pega!”

Correndo em direção à praia, portanto em minha direção, a multidão de futuro linchadores perseguia um crioulo desembestado: o meu mordomo demissionário, o Djalma.

Quando ele me viu, a uns dez metros de distância, deve ter pensado: Tô ferrado…

Em vez de travar-lhe a marcha acelerada, saí da frente e gritei que ele se mandasse.

Antes de sumir no oco do mundo, desta vez para sempre, deixou no ar, reverberando, sua despedida, aos berros:

– Obrigado, doutor!

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