Antigos garçons

Por Jaguar

Nunca consegui fazer uma entrevista que prestasse com garçom. Quando o Jangadeiros ainda era na Visconde de Pirajá, tentei entrevistar o Cabeça. Seu brado retumbante – Caldereta! – quando alguém lhe pedia um chope, numa voz roufenha de dar inveja a Louis Armstrong, ainda ressoa na minha memória.

Perguntei quais eram as celebridades que ele tinha servido. O Janga era ponto de encontro de jornalistas, artistas, políticos. Até Juscelino aparecia lá de vez em quando.

Fiquei pasmado quando me respondeu que não se lembrava de nomes. Achei que estava querendo me sacanear. Será que os garçons – pensei – são como os bancos suíços que não revelam a identidade dos clientes?

Naquela época – lá se vão uns 40 anos – os garçons do Jangadeiro bebiam quase tanto quanto os clientes, tinham seus cálices estrategicamente malocados em algum lugar entre as mesas e a copa. Vários, depois de largarem o serviço, já quase de manhã, iam tomar uma saideira no Carlitos e outros bares da Lapa. Eram garçons boêmios, espécie em extinção. Impossível imaginar o Cabeça berrando Caldereta! num desses restaurantes informatizados onde os garçons digitam as comandas num computador portátil.

– Essa não – eu disse para o Cabeça – venho aqui todos os dias, vai falar que não sabe meu nome.

Não sabia. Sabia o que eu bebia e comia. Quando eu chegava, nem precisava pedir, era atendimento automático.

Outro dia encontrei um antigo garçom do Lamas, também frequentador da Lapa quando o sol raiava. Não o reconheci, mas ele foi logo perguntando se eu ainda bebia chope com Steinhager. Claro, também não se lembrava do meu nome, e nem da maioria dos outros frequentadores (na época, o bar era ainda no Largo do Machado). Mas contou muitas histórias dos seus colegas.

Uma delas: Paulinho, além de estar sempre meio de porre, era míope como Mister Magoo. Certa vez foi servir uma fritada, pensou que tinha posto o prato, branco que nem a toalha e despejou a gororoba direto na toalha.

Teve aquele lance do Maia, garçom memorável, que pisou numa casca de banana – na parte da frente do Lamas vendiam-se frutas – e caiu estatelado, de pernas para o alto, mas sem derramar um só copo da bandeja. O bar aplaudiu de pé a performance; fui um dos primeiros a puxar as palmas.

Outra dele: sua gravata-borboleta, que era de prender por pressão, afrouxou e caiu dentro de uma travessa de canja. O cliente separou a gravata da canja, degustou o prato normalmente e só às 4 da manhã perguntou ao aflito Maia, já desesperançado de achar a gravata, se tinha perdido alguma coisa. Pensando bem, um cliente como esse é também uma espécie em extinção.

Garçons e mulheres. Não posso viver sem elas nem eles, mas não consigo entende-los.

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