Arthur Virgílio Filho (Capítulo 3)

Três gerações: Arthur Virgílio, Arthur Virgílio Filho e Arthur Virgílio Neto

Por Mário Adolfo

Arthur Virgílio do Carmo Ribeiro Filho nasceu no dia 12 de fevereiro de 1921 em Manaus. Fez o curso secundário no Colégio Dom Bosco, onde já se destacava em manifestações do grêmio estudantil. Na mocidade, Arthur Virgílio Filho foi atleta de voleibol do Rio Negro e ali conheceu aquela que seria sua futura mulher, a também atleta Isabel Vitória, carinhosamente chamada na equipe de Bilica.

Dessa união nasceram Arthur Virgílio Neto, Júlio Verne, Ana Luíza e Ricardo Arthur. Como se o destino selecionasse para a política apenas os batizados com o nome Arthur Virgílio, Neto foi o único dos quatro irmãos que seguiu a veia política do pai, vindo a se eleger deputado federal pelo Amazonas pela primeira vez em 1982, na legenda do PMDB, de onde se transferiu logo em seguida para o PSB. Foi eleito prefeito de Manaus em 1988 pela coligação Muda Amazonas. Foi ministro-chefe da Casa Civil no governo Fernando Henrique Cardoso e líder do PSDB no Senado de 2003 a 2010.

A saga política dos Virgílio está em sua quarta geração. O filho de Arthur Virgílio Neto, Arthur Virgílio Bisneto, aos 22 anos se elegeu vereador de Manaus, deputado estadual aos 24 e, aos 25, disputou a Prefeitura de Manaus, nas eleições municipais de 2004.

Paralelamente aos esportes, Arthur Virgílio Filho cursava Direito, na Universidade de Manáos. Tornou-se bacharel na turma de 1944, e tinha como companheiros nomes conhecidos da sociedade amazonense, entre eles Calil Hayek, Fueth Paulo Mourão, Oldeney de Carvalho, Plínio Ramos Coelho (que viria se tornar governador do Amazonas), Waldemar Batista de Salles, Augias Gadelha e Pietro Celani.

Ingressou no serviço público como escrivão de feitos da Fazenda, exercendo também o cargo de chefe de gabinete, secretário de Economia e Finanças e secretário do Interior e Justiça. Além de sua carreira jurídica, Arthur Virgílio Filho também desenvolveu a carreira de jornalista no jornal A Gazeta, do qual foi diretor. Era um apaixonado pela profissão.

– O jornalismo – dizia ele – é uma profissão sagrada e, quando praticada de forma correta, torna-se a maior trincheira de defesa da democracia.

Algumas vezes, nos amargos tempos da cassação, quando reunia estudantes que o procuravam em busca de orientação nos conturbados anos 70, costumava lembrar fatos memoráveis do jornalismo. Tinha paixão por uma charge do cartunista Ziraldo Alves Pinto, publicada no Jornal do Brasil, que reeditava a cena de Maria e José fugindo para o Egito com o Menino Jesus. Só que, no humor de Ziraldo, Maria e José eram representados por um casal de vietnamitas, viajando em um burrico naquela imensidão de deserto, sendo alvejados por um gigantesco míssil dos arrogantes Estados Unidos.

– Um cartum, sem nenhuma palavra, às vezes vale mais que uma reportagem de páginas – dizia o senador, numa época em que o humor político, mesmo perseguido e censurado, tornava-se cada vez mais comprometido com a oposição.

O senador sempre chamava a atenção para a coragem dos cartunistas que, apesar dos riscos, abordavam os temas que popularizaram a luta política, como anistia, dívida externa, arrocho salarial, concentração de renda, tortura e as violações dos direitos humanos.

A vida política de Arthur Virgílio Filho teve início em 1947, ao se eleger deputado à Assembleia Constituinte do Amazonas pela legenda do Partido Social Democrático (PSD). A História registra que esta foi uma das mais expressivas bancadas que passaram pela Assembleia Legislativa do Estado do Amazonas.

No batismo das urnas, também se elegeram naquele ano os deputados constituintes Menandro Tapajós, Areal Souto, Abdul Sá Peixoto, Áureo Mello, Almeron Caminha, Aristophano Antony, Carlos Melo, Jackson Cabral, João Veiga, José Negreiros Ferreira, Paulo Jobim, Alexandre Montoril, Danilo Corrêa, Homero de Miranda Leão, João Fábio Araújo, Josué Cláudio de Souza, Mendonça Júnior, Nobre da Silva, Raimundo Nicolau da Silva, Aderson de Menezes, José Francisco da Gama e Silva, Júlio de Carvalho Filho, Ney Rayol, Paulo Pinto Nery, Plínio Ramos Coelho, Thomaz Meireles e Waldemar Machado da Silva.

A posse da nova bancada de deputados estaduais e do governador constitucional eleito em 19 de janeiro de 1947 realizou-se no dia 8 de maio daquele ano. “O Amazonas espera ressurgir para uma etapa gloriosa”, apostava a manchete da edição daquele dia de O Jornal. A cerimônia foi realizada às 16 horas na Assembleia Legislativa, que funcionava em uma das dependências do Instituto de Educação do Estado do Amazonas (IEA).

Empossados pelos desembargadores do Tribunal Regional Eleitoral (TRE), os novos deputados iniciaram os debates para a eleição da Mesa Diretora da Assembleia. Por maioria absoluta, foi eleito presidente da ALE o deputado Aristophano Antony. Primeiro-secretário, Ney Osmar da Silva Rayol. Segundo-secretário, deputado Plínio Ramos Coelho. Os deputados Abdul de Sá Peixoto, Áureo Bringel de Mello e João Fábio de Araújo foram eleitos líderes da UDN, PTB e PSD, respectivamente.

À tarde, na mesma Assembleia Legislativa, empossou-se o governador constitucional, Leopoldo Amorim da Silva Neves, conduzido pelo povo ao Palácio Rio Negro, na avenida Sete de Setembro, onde ouviu as manifestações de diversos oradores dos bairros de Manaus e agradeceu da sacada do palácio.

Nos primeiros passos de sua carreira política, Arthur Virgílio Filho já se revelava que seria um defensor intransigente das liberdades democráticas. No dia 13 de maio de 1947 – poucos dias depois de sua posse –, ocupou a tribuna da ALE para manifestar-se radicalmente contra a cassação do registro do Partido Comunista do Brasil (PCB):

– Não quero penetrar no mérito da questão que o nobre deputado Alfredo Jackson Cabral (PTB) levantou, pois não sou jurista, mas venho dizer o meu pensamento de democrata sincero e por isso mesmo voto a favor da primeira moção e contra a segunda porque não entendo como o mesmo tribunal que deu existência legal a um partido venha cassar a sua existência legal tão somente decorridos dois anos da sua primeira decisão.

Para entender melhor o pensamento de Arthur Virgílio: a primeira moção era a da não cassação do registro do PCB. A segunda moção era a de cassação do registro do PCB.

No dia 15 de maio de 1947, o deputado Arthur Virgílio Filho atacou a questão das nomeações de prefeito “extremamente partidárias”, para os municípios onde seriam realizadas a 25 de maio as eleições suplementares.

De acordo com o deputado, havia muita diferença entre os homens que apregoavam democracia nos comícios políticos “e esses que hoje começam a agir, tão cedo, negando os princípios democráticos”. Houve tumulto na Assembleia depois da primeira fala de Arthur Virgílio, que continuou o discurso:

– A nomeação de prefeitos partidários para os referidos municípios é um atentado à democracia. O povo pediu eleições livres e honestas.

O deputado Aristophano Antony (PTB) aparteou Arthur, tentando explicar que não era intenção do governador cercear a liberdade do povo no decorrer das eleições suplementares. Ao que o deputado Arthur Virgílio respondeu:

– Que as minhas palavras sirvam como alerta ao povo e ao estado para que fique bem claro que houve um protesto contra essa medida que contraria os mais comezinhos princípios democráticos.

Apesar de estar em seu primeiro mandato e sem experiência suficiente, Arthur Virgílio demonstrava que não estava atento somente às questões regionais, mas também às que diziam respeito ao país e até àquelas ligadas à ordem internacional. Foi isso que o levou, no dia 4 de novembro de 1947, a pedir que fosse inserido nos anais da Assembleia Legislativa o discurso pronunciado pelo general Dutra, por ocasião da concentração trabalhista em solidariedade ao rompimento com a União Soviética. Esse requerimento foi aprovado por unanimidade.

Concluídos os trabalhos e promulgada a nova Carta Estadual, exerceu o mandato até janeiro de 1951, tendo sido reeleito no ano anterior, ainda na legenda do PSD. Arthur Virgílio foi reeleito para seu terceiro mandato de deputado estadual em outubro de 1954, mas desta vez pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB).

No dia 9 de março de 1958, no gozo de seu terceiro mandato, Arthur Virgílio Filho foi lançado candidato à Presidência da Assembleia Legislativa. No dia 10 daquele mês, ao retornar do Rio de Janeiro, Distrito Federal, o deputado foi recebido com festa no aeroporto de Ponta Pelada, Zona Sul de Manaus, por eleitores e correligionários que queriam elegê-lo presidente da AL.

Ao desembarcar – às 9 horas – do Constellation da Panair do Brasil, que o trouxera de volta à terra natal, o líder político agradeceu a manifestação carinhosa. À noite, participou de um gigantesco comício no Boulevard Amazonas, organizado pelo comitê pró-candidatura Arthur Virgílio Filho.

A Gazeta, edição de 10 de março de 1958, informava:

Passageiro do Constellation da Panair do Brasil, que aterrissou às 9 horas de ontem no aeroporto de Ponta Pelada, retornou a Manaus o deputado Arthur Virgílio Filho, diretor deste vespertino e líder do governo na Assembleia Legislativa do estado, indicado para no corrente ano ser o presidente do Poder Legislativo pela bancada governista. Figura das mais influentes em todos os círculos sociais do estado, político combativo e honesto, o ilustre parlamentar foi apoteoticamente recebido, quando do seu desembarque, por autoridades, correligionários e amigos que lhe tributaram expressiva manifestação.

O governador do estado fez-se representar pelo coronel Neper Alencar, seu assistente militar. No aeroporto, em expressivas saudações a Arthur Virgílio Filho, usaram da palavra o deputado Souza Filho, reafirmando o apoio e a solidariedade de Parintins à candidatura do ilustre líder político da Câmara Federal; deputado Arlindo Porto, em belíssima oração cívica, conclamando o povo a unir-se às fileiras trabalhistas e, finalmente, o jornalista Júlio César da Costa, em nome do Comitê Central pró-Arthur Virgílio Filho, que pronunciou entusiástica oração.

Agradecendo a grandiosa manifestação, profundamente comovido, o homenageado declarou que retornava à sua terra mais do que nunca imbuído do desejo de trabalhar pelo seu progresso e que, se não estivesse restabelecido em sua saúde, naquela hora ficaria bom pelo calor da manifestação que recebia.

Como era de se esperar, o deputado Arthur Virgílio Filho foi eleito por maioria absoluta presidente da Assembleia Legislativa, tomando posse no dia 12 de março de 1958. Sua eleição foi considerada uma prova de “prestígio do governador Plínio Ramos Coelho no Legislativo Estadual”.

Empossado na presidência do Palácio Rui Barbosa, Arthur Virgílio Filho afirmou que no cumprimento do cargo iria procurar agir “dentro do lema do juramento que prestei ao assumir o mandato, sob a inspiração da honra, do patriotismo e da lealdade”:

– Um poder legislativo se impõe pela confiança e a admiração do povo. Pela sua conduta retilínea e atuação legal, dentro do que preceitua a Constituição. Um poder se impõe pelo comportamento altivo na defesa dos sagrados interesses do povo.

(Publicado em 2011, no livro “Perfis Parlamentares nº 59 – Arthur Virgílio Filho”, pela Câmara dos Deputados)

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