As querelas do Brasil

Em pé: Antônio Maria, Ary Barroso e Vinicius de Moraes. Sentados: Isaac Zuchman e Paulo Mendes Campos.

Autor de dezenas de clássicos da Música Popular Brasileira, Ary Barroso era dono também de um humor cáustico, birrento, incorrigível que era. Dividia a sua paixão pela música com o Flamengo (deixo de usar o adjetivo doente por redundante), time que exaltava sempre que podia.

Narrava com assumida parcialidade os jogos do “mais querido”, e narrava apenas os lances do rubro-negro. Quando a bola estava no ataque do adversário, fechava os olhos e dizia “não quero nem ver”. E não via.

No seu programa Calouros em desfile, primeiro na Rádio Cruzeiro do Sul, depois na Tupi, Ary Barroso, não raro, perdia a paciência com os candidatos a artista, principalmente quando estes não sabiam o nome do autor – ou autores – da música que iriam interpretar. Mas, algumas vezes, passava do ponto.

Foi assim com Elza Soares, uma menina de quinze anos, esquálida e já mãe de dois filhos, inscrita no concurso. Vestida em farrapos presos com alfinetes, Elza foi recebida com a pergunta: “De que planeta você vem, minha filha?”. A jovem mulata respondeu à altura: “Venho do planeta fome”. Depois que cantou, no entanto, Ary Barroso se desmanchou em emoção e generosidade. Abraçou-a e vaticinou: “Nasce uma estrela”. Acertou em cheio.

Mas ficou famosa, mesmo, sua disputa com outro grande compositor: Antônio Maria (1921-1964). Autor de “Ninguém me Ama”, a mais reverenciada canção de fossa, estilo que marcou a década de 50 do século passado, o grandalhão pernambucano era outro bom de briga (xingou pra valer seu parceiro Fernando Lobo, nessa música. E fazia isso pelos jornais, sempre que podia ou queria).

Boêmio inveterado, “meu Maria”, como o chamava Vinícius de Moraes, fazia muitas viagens internacionais, o que Ary evitava – apesar de suas idas a trabalho aos Estados Unidos, México e países da América do Sul.

Internado num hospital para tratamento de uma cirrose, no final de 1963 (Ary morreu em fevereiro do ano seguinte, num domingo de carnaval), recebeu a cordial visita do “desafeto”. A disputa entre ambos já durava mais de uma década.

O compositor mineiro não suportava a carreira internacional de “Ninguém Me Ama”, música que Antônio Maria dizia ser mais tocada no exterior do que “Aquarela do Brasil” – o que não era verdade. O pernambucano, que amava a noite em qualquer país para onde fosse, sempre que retornava ao Brasil bradava o sucesso da sua música lá fora.

Prostrado na cama, Ary pediu ao visitante, com voz sumida:

– Maria, canta “Aquarela do Brasil”.

O Antônio Maria olhou em volta embaraçado.

– O que é isso, Ary?

– Maria, canta “Aquarela do Brasil”.

Muito sem jeito, Antônio Maria começou a cantar. Afinal, era o pedido de um moribundo.

Cantou toda a música, acompanhando-se com uma discreta batucada de palmas.

O Ary ouviu tudo de olhos fechados, com a cabeça atirada pra trás. Quando Maria terminou, ainda de olhos fechados, disse:

– Como este é o nosso último encontro, queria que você me pedisse pra cantar “Ninguém Me Ama”.

Claro, em momento tão pungente, Antônio Maria desconversou e disse que em breve ambos tornariam a se ver, para conversar, falar sobre música etc.

Mas não houve jeito, o autor de “Aquarela do Brasil” insistiu:

– Maria, me pede pra cantar “Ninguém Me Ama”.

– Ora, Ary, não precisa.

– Maria – insistiu o Ary – me pede pra cantar “Ninguém Me Ama”.

Constrangido, o Maria obedeceu. Pediu:

– Ary, canta “Ninguém Me Ama”.

E então o Ary levantou a cabeça do travesseiro, encarou o Maria e declarou:

– NÃO SEI!

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