Bar da Maria

Por Jaguar

“Bar da Maria, tarde 1 d. C. (depois da Copa). Ligeira depressão, aliviada pelas cervejinhas. Feito esses lenços que mágico vagabundo tira da cartola, uma historinha de casamento em crise puxava outra. Baiano resumiu o clima:

– A dimensão da crise num casamento pode ser medida pela resposta que seu Ernesto deu pra cara-metade.

Môa suspirou:

– De novo?

Entende-se a falta de saco do Môa. É a pentelhésima vez que o Baiano conta esse troço, uma espécie de carro-chefe dele. Mas vale a pena ver de novo. A mulher do seu Ernesto fez uma sopa e perguntou ao marido, sujeito extremamente mal-humorado, se ele queria um pouco. Recebeu como resposta um resmungo de assentimento. Na ânsia de agradar, a probrezinha fez a pergunta fatal: ‘Quer no prato?’

Seu Ernesto virou a boca de bazuca na direção da infeliz e não perdoou:

– Não. Quero no prato não. Joga no chão e vem varrendo.”

Este trecho foi tirado de uma das centenas de crônicas que Aldir Blanc escreveu tendo como cenário seu bar-escritório. Dele e do seu parceiro, de mesa e de música, Moacyr Luz, o Môa acima citado.

A primeira vez em que fui ao Bar da Maria fiquei olhando os caras que estavam lá. Quem era frequentador e quem era personagem do Aldir? Aquele sujeito na mesa perto do mictório lendo jornal seria de carne e osso ou um produto da mente doentia do Lima Barreto da rua Garibaldi? E o outro, encostado no balcão, com cara de nordestino, seria o Baiano?

Môa adentrou o recinto, coisa que faz pelo menos dez vezes por dia e saudou:

– Ôi, Baiano!

Era o Baiano. Do outro lado do balcão uma senhora portuguesa, com certeza. Só podia ser dona Maria.

– Dona Maria, se este é o bar da Maria por que se chama Café e Bar Brotinho?

– Porque quando me estabeleci aqui, no dia 13 de janeiro de 1960, já tinha esse nome!

– A senhora era do ramo?

– Na minha terra, Manteigas, na Serra da Estrela, trabalhei na Taberna da Cardosa, de meus pais.

Se no bar da Maria tinha algum prato da Taberna da Cardosa? Não, lá só se servia vinho e bagaceira para os pastores da região. Dona Maria é uma portuguesa atípica: não sabe cozinhar. Mas é boa em fazer contas. Adelaide, a filha, é que garante a qualidade dos PF’s e dos petiscos, costela, bolinho de aipim, e principalmente as suas imbatíveis almôndegas. Adelaide é professora de português. Como todos sabem, professores ganham um dinheirão, ela deve encarar o fogão como hobby. Baiano mete a sua colher:

– O único professor que ganha bem é o Fernando Henrique.

A dose de Red Label custa 6 paus. Muito caro.

– É que o pessoal sempre pede um choro – justifica dona Maria.

Proponho cobrar R$ 5,50 com choro e R$ 3,50 sem choro. Quando saí o pessoal do lado de cá e de lá do balcão estava discutindo acaloradamente o momentoso assunto.

Bar da Maria. Rua Garibaldi, 13. Muda. Tel. 238-5091. De segunda a sábado, das 7 da manhã às 9 da noite.

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