De repente, o verão

Por Ivan Lessa

Primeiro domingo com cara realmente de verão. Sim, a temperatura não foi além de uns serenos 22 graus, dos nossos, e os casos de internação ou insolação podem ser contados na mão de um maneta. Mas, em casa, após a carne assada com molho ferrugem e dois guaranás da Antártica comprados no português de Chelsea, literalmente no Fim do Mundo (World’s End), esse o nome do bairro, fiquei devorando o livro O quinto filho, de Doris Lessing, com as janelas abertas para os jardins internos de nosso quarteirão. Alguns sons e aspectos costumeiramente ligados à estival estação: rádio de pilha, cachorro correndo atrás de bola, criança correndo atrás de cachorro, uma senhora muito branca pede ao marido que passe loção de bronzear nas costas.

Minha filha foi ler no jardim. Na sala, a televisão, sem som, quadro semovente a me ver em vez de ser vista. De vez em quando, inevitável, meu olhar na tela. Lá estava um Rio velhíssimo em filme de Bob Hope e Bing Crosby da série “A Caminho de”… Depois, críquete – aquele, para mim, insondável mistério dos homens de branco a bolear e a taquear e a correr. Pela primeira vez, em oito dias, uma deliciosa ausência de baderneiros balipodais britânicos – os infelizmente notórios hooligans.

Regando as flores na janela, sempre em homenagem a Dolores Duran, dei com um senhor – um senhor como hoje eu também virei (quem diria?) –, dei com um senhor também regando suas flores na janela, também conferindo o jardim. Estava sem camisa. Sabe-se que é verão quando se tira a camisa para ir à janela aberta.

Não estando em praia ou piscina, ao ar livre lembro-me apenas de tirar a camisa em jogo de futebol, jogo de futebol evidentemente do Botafogo. Quando ia com meu pai – aí eu tinha menos de 10 anos –, a camisa podia ser tirada, sim senhor, mas um chapéu improvisado, geralmente com o Jornal dos Sports (Sports sem E), fazia-se necessário, segundo o cuidado paterno.

Foi sem camisa que eu também – sou obrigado a confessá-lo – fui, em meu tempo, um pequeno vândalo, jovem baderneiro, arruaceiro-mirim. Confesso – mea culpa, mea máxima culpa – que mais de uma vez tentei acertar o bandeirinha com uma laranja chupada no campo de General Severiano, no Rio de Janeiro dos anos 40. Não sei o que deu em mim. Foram decerto as más companhias. Uma falha na educação recebida em casa. Uma omissão de minha professora, Dona Armia do terceiro ano primário. Uma consequência direta do Estado Novo e de toda a política externa e interna de Getúlio Vargas.

Vítima do sistema ou não, sintoma ou causa, o fato inegável aí está: eu taquei a laranja no raio do bandeirinha. Errei. Todas as vezes em que tentei acertar um bandeirinha dei sempre num crioulo que, virando-se para trás, reconhecendo minha culpabilidade, dizia: “Ô, garoto, olha esse negócio aí!”. Felizmente, eu era isso mesmo, garoto, e ele, botafoguense como eu, na certa com a mesma vontade de acertar o bandeirinha, talvez até mesmo – seria tão bom! – tendo acertado o bandeirinha.

Em matéria de hooliganismo, é isso aí. Sim, uma vez ou outra, saía um pau nas gerais ou nas arquibancadas. Mas nós tomávamos mate e os torcedores passavam direitinho o picolé que o sorveteiro não conseguia nos trazer, assim também como levavam o dinheiro e devolviam o troco, caso houvesse.

Todas essas recordações levam-me a construtiva ponderação, após uma semana de tristes cenas, após este domingo de triste volta dos “torcedores” ingleses.

Pondero que é preciso estimular a venda de mate e picolé, em sabores de limão e groselha, nos estádios, coibindo o álcool. Não esquecendo, evidentemente, das laranjas. Preferencialmente do Brasil, donde inclusive poderíamos auferir lucros para nossa balança comercial. E, chupadas as laranjas, tentar com elas acertar o bandeirinha. Que, na verdade, sejamos francos, é o único responsável pela degradação do nobre esporte bretão.

Como eu disse no início: é verão. Verão a gente pensa essas bobagens.

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