Deixa solto, doutor

Por Joaquim Ferreira dos Santos

Desculpem, senhores editores das revistas masculinas, mas não quero saber de conselhos para se alcançar um corpo malhadão. A barriga tábua-de-tanque é dom de quem tem, não insistam em torná-la item obrigatório para ser homem nestes tempos. Não capitularemos ao ridículo.

Muito menos peçam, como vi numa revista, para se perder a vergonha de tratar com os amigos sobre os cremes que estamos carregando escondidos na maleta, como se eu e o Arnaldo Jabor admitíssemos carregar outra coisa conosco que não um volume qualquer do Bukowski, um canivete suíço e o par de joelheiras para um time-contra no Aterro. Mudamos, nem sempre por iniciativa própria, mas vamos com calma. Temos um Zé do Boné a zelar. Ainda não será dessa vez que receberemos de vocês, Moisés dos aquários das Redações, a tábua com as dez melhores cantadas a se dar numa mulher ou como abrir com estilo contemporâneo a porta de um single-bar. Temos nossas próprias manhas. Relaxem.

São muitas revistas dizendo que tipo de flor entregar, o que cozinhar para ela no primeiro encontro (esqueça o amendoim, deixa cascas nos dentes). Dos conselhos de homem que tenho ouvido, prefiro seguir exclusivamente a sabedoria do flanelinha – “deixa solto, doutor”. É o que tenho feito. Se o mocassim colorido combina com jeans customizado? Por favor, senhores.

Eu sou do tempo em que o exercício da masculinidade plena era atividade simples, algo que precisava como apêndice estético apenas do apoio de um bom pente Flamengo e, pronto – deixa a vida me levar. Milhões de homens passaram felizes suas existências balizados por uma única filosofia: “Dura lex, sed lex, no cabelo só Gumex”. Infelizmente, já era. Complicou. Tenho visto cada vez mais revistas especializadas em dizer como o homem, se gordo, deve se vestir de preto para anular as adiposidades ao redor da barriga, e se de cabelos finos, como torná-los mais cheios com o xampu de ovo transgênico.

Ora, senhores editores dessa nova tendência das bancas, me poupem os poros. Acabei de limpá-los com o Clay Mask da Zirh. É uma loção relaxante, mas não o suficiente para me obnubilar a razão.

Seria reduzir demais o espectro de uma revista masculina deixá-la em eterno rodízio pelo corpo das deusas nuas e piadas de loura. Nada contra ampliar a pauta. Mas eis que se volta contra o macho, este que ainda há pouco ria da Nova e da Cláudia por estabelecerem para suas leitoras a obrigatoriedade de a cada estação do ano trocarem o tamanho dos seios – eis que se volta contra o macho a mesma ditadura. Ei, garotos, agora depilem os pêlos do peito. Ótimo. Agora vamos aplicar um silicone no peitoral.

Leio nessas revistas que ficou absolutamente impossível continuar homem no século XXI sem ter feito, por exemplo, um curso de vinho e saber a temperatura ideal para servi-lo. Não tenho a mínima idéia de que uva é feito o branco – e não arvoro aqui qualquer orgulho especial pela ignorância. Só quero ser dispensado, como até ontem, da súbita obrigatoriedade de frequentar esse vestibular cafona para ganhar inclusão sexual.

Repara só: como são de safra triste os senhores que, treinados a dispensar com elegância o cangote da moças, tentam seduzir cheirando a rolha.

As revistas masculinas, quase todas editadas por mulheres, estão ensinando o homem a aplacar a testosterona, suavizar o instinto e trabalhar a pegada de jeito menos extravagante. Querem-no sensível e ouvinte do que elas têm a dizer. Sejam românticos, rapazes, liguem no dia seguinte. É o contrário das mensais femininas, que obrigaram a mulherada a um papel mais agressivo. Recuperem o tempo perdido, tigresas. Caiam matando, guerreiras. Querem-nas turbinadas e assumindo o controle da situação. Como são infelizes homens e mulheres que pautam suas vidas pelas pautas dos editores de revistas.

Gerações inteiras de fortões achavam que bastava apertar um punho contra o outro, o método Atlas da Força Aérea Canadense, e elas se renderiam. Podia até ser, mas só até anteontem. Acabei de ler na banca: excesso de músculos cheira a falta de masculinidade.

Elas detestam marombados. Pior: mulheres gostariam que seus amigos gays fossem héteros, pois estão num momento em que cultuam machos sensíveis. Não aconselho meus pares a correrem atrás. Quando você, para entrar no perfil da moda, estiver acabando de ler toda a poesia de Bandeira, é bem provável que elas já tenham sido convocadas a preferirem o novo cafaja da novela das oito.

Machos, líderes, campeões, já soubemos de tudo. Hoje somos convencidos pelos sabichões da press de que não passamos de uns pobres coitados ignorantes das coisas da vida, compradores de revistas em busca de dicas espertas. Que roupa se deve usar para agradar a uma mulher no primeiro encontro? Cuidado para não estar mais perfumado do que ela.

Uma dessas publicações, que tenta ensinar o homem a se comportar segundo os novos valores da pele hidratada, lista cinquenta coisas sobre elas que ele, o papai-sabe-tudo na televisão de outrora, não sabe mais. Aqueles beijos que levavam nas orelhas e pareciam se derreter todas? Pois então. Depois de anos conformadas em se deixarem lambuzar, elas tomaram coragem para dizer. De-tes-tam. Inventem outra, rapazes.

Conheci mulheres, vítimas da opressão editorial, que começaram a semana com as unhas azuis e sexta-feira, quando saiu a nova edição da revista, precisaram trocar para o rosa-escuro. Outras, sexualmente tímidas, foram convencidas de que estavam fora de seu tempo e convocadas a colocar fogo no colchão, ou, quem sabe, na própria mesa do chefe. Os homens são as novas vítimas. Flagrados no contrapé, no momento em que boa parte deles ainda emula o Brucutu e puxa a Hulla pelo cabelo nas boates, eles piscam inseguros diante das novas ordens. Revelem suas emoções, rapazes, mas em seguida corram ao dermatologista e providenciem um botox básico para aliviar as marcas de tanta expressão de carinho, amor e compreensão.

Caçar javali, Santo Asterix, socorrei!, era mais fácil.

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