Diego Moraes: Anjo ou Demônio (Parte 2)

Depois de viver na rua e usar crack, Bukowski da Amazônia lança sexto livro

Por Rodrigo Casarin

Nas escadarias da Catedral ou sob os bancos da Praça da Sé que Diego Moraes costumava dormir quando viveu nas ruas de São Paulo. Aos 21 anos, em Manaus, andava usando muitas drogas e brigando com a família. Então, junto da namorada, passaria uma breve temporada na capital paulista e depois rumaria para Barcelona, cidade-sonho da moça. Nada saiu como planejado. Acabaram com o namoro e logo Diego não estava mais hospedado no hotel onde ficaram por algumas semanas. Passou um ano pelas ruas do centro paulistano. Acostumado a fumar pasta base de cocaína, não demorou para que provasse o crack.

“Me sentia um pedaço de miúdo de galinha no freezer”, diz sobre a solidão daqueles tempos. Diego carregava consigo uma mala com poucos pertences. Dentre eles, cerca de uma dúzia de poemas escritos à mão. Quando a fome apertava, parava em algum canto da Praça da República ou da Luz e lia seus versos em voz baixa, atraindo a atenção de um ou outro passante. Sem uma fotografia sequer da família, era neles que se apoiava para que não se entregasse completamente àquela situação. Ainda precisava lutar pelo seu sonho de publicar um livro, o que veio a acontecer alguns anos depois de engolir o orgulho e ligar para sua mãe pedindo uma passagem de volta a Manaus.

Agora, aos 33 anos, o autor está prestes a lançar o sexto título de sua carreira, “Meu Coração É um Bar Vazio Tocando Belchior”, coletânea de escritos que sairá no começo de fevereiro pela Penalux. Os textos são carregados de referências do que já passou na vida – Diego não acredita que o autor possa se descolar do escritor. Drogas, paixões e brigas são temas frequentes, o que, aliado a seu estilo, faz com que a comparação com Charles Bukowski – uma de suas grandes referências, junto com John Fante, Lima Barreto, Reinaldo Moraes e Pedro Juán Gutiérrez – seja inevitável.

“Há uma contradição na poesia. O poeta precisa estar sempre se destruindo. Poeta brinca de mergulhar no inferno. Quando estou sem grana, quero me livrar de tudo, aí escrevo poesia. Escrever poesia é tirar o nome do Serasa”, diz sobre seu trabalho. Nessa linha, acredita que o grande poeta jamais deve estar em uma situação amorosa cômoda. “A felicidade conjugal descamba para a mediocridade da literatura, aí o cara vira tipo um Carpinejar da vida”.

Stallone, Schwarzenegger e Chimbinha

Voltando ao novo livro de Diego, a poesia a qual o autor tanto se refere é de um lirismo brutal, impiedoso, e que não se preocupa com o formato textual: pode estar em um poema, claro, mas também em uma única frase ou em contos brevíssimos, com não mais que uma página, ou breves, que em casos raros ocupam três páginas. Precisa de pouco para fazer uma literatura admirável. Aliás, se sai melhor quando é mais sucinto. Se Julio Cortázar dizia que no romance o escritor vence o leitor por pontos, enquanto no conto a vitória vem por nocaute, Diego sai vitorioso nocauteando quem o lê com não mais do que um ou dois golpes. Um cruzado e um direto bem dados, talvez, sem sequer se preocupar em usar jabs para abrir a guarda daquele que o confronta.

Isso pode ser percebido já nos títulos de suas obras, como “A Solidão É um Deus Bêbado Dando Ré Num Trator”. “Tenho preconceito com títulos ruins, nem abro o livro. Tem que ter uma porrada já no título. Uma frase bonita é um poema”. E sobre as frases fortes, revela uma influência pouco usual dentre os escritores nacionais. “Isso veio dos filmes da Sessão da Tarde, do Stallone Cobra, do Schwarzenegger”, conta, para depois citar também Millôr Fernandes e Nelson Rodrigues como referências dentre os grandes frasistas.

Vez ou outra também aproveita para jogar intervenções cafonas em seus textos. “Até o carteiro sente pena de mim”, escreve no conto “Chuva”, por exemplo. Acredita que a literatura não só permite, mas às vezes pede isso. “Quando escreve, você pode ser uma Keith Richards, mas também um Chimbinha”.

Apalavrado com a Record

O momento é bastante favorável a Diego. Além do novo livro, trabalha em um romance que sairá pela Record – apesar do contrato ainda não estar assinado, Carlos Andreazza, editor da casa, já anunciou em sua página do Facebook que publicará o autor. Contudo, acostumado com os textos breves, não está tendo uma empreitada fácil ao construir uma narrativa longa. “Tô penando. O conto é nadar 100 metros, já o romance é atravessar o Canal da Mancha. Gosto de dar o recado com o mínimo, de me livrar logo das coisas para entrar em outro delírio”.

Além de escritor, Diego também é um agitador cultural, sendo um dos criadores da Flipobre, encontro literário virtual que acontece uma vez por ano a reúne autores que estão, de alguma forma, à margem. “Nunca tive tesão de ir para a Flip, que é muito mais mainstream do que literatura. Entre os escritores de lá e os da periferia, fico com os da periferia sempre. O Ferréz tem muito mais coisas a dizer do que o Daniel Galera”.

Depois de ter nascido e crescido em um bairro barra-pesada de Manaus – onde brigas de gangues, assaltos e até gente amarrada a postes eram cenas que faziam parte do cotidiano -, largado a escola na sexta série – complementaria os estudos com um supletivo e depois abandonaria as faculdades de jornalismo e letras porque “não curtiu” –, vivido nas ruas de São Paulo, onde se apoiou no crack, e passado por clínicas e igrejas para tentar lidar melhor com as drogas, agora a realidade de Diego é bem mais tranquila.

Usando principalmente a internet para divulgar seu trabalho, viu seus textos extrapolarem Manaus e terem sucesso até em Portugal, onde já foi publicado. Como sua literatura não o sustenta financeiramente, vive de fazer bicos com amigos em gráficas, bares ou qualquer outro canto que lhe valha uma renda. E hoje pega muito mais leve com as drogas, continua usando principalmente o álcool. E a poesia, claro, que parece ser seu psicotrópico favorito.

Veja um trecho de “Meu Coração É um Bar Vazio Tocando Belchior”:

“Chuva”

Escrevo agora porque a Internet caiu mais cedo. Um temporal derrubou a cruz da igreja e a correnteza da enchente fez com que uma criança sumisse nos bueiros do bairro. Sinto sua falta. A saudade lateja mais que minha dor de dente. Lembro-me daquela vez que você encostou a cabeça no meu peito de metalúrgico grevista e começou a chorar mornamente sem parar falando do irmão que morreu de AIDS e da mãe que enlouqueceu de tanto tomar tranquilizantes. Escrevo agora porque acabo de escrever um poema lindo do jeito que você gostava de ler sentada no trono do banheiro. Lia alto que da cozinha escutava suas gargalhadas de atriz de ópera. Escrevo agora porque todas as cartas que escrevi voltaram (até o carteiro sente pena de mim). Escrevo agora porque escrevi seu nome no meu último cigarro do maço e fumei lentamente até a chuva passar.

(Publicado no site paginacinco.blogosfera.uol no dia 23 de janeiro de 2016)

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