Fantasma, o Espírito-que-anda

Por Rafael Galvão

O Fantasma foi criado por Lee Falk em 1936. Era uma época em que o mundo começava a ver imagens em movimento da África, e o continente negro se consolidou como sinônimo de mistério e exotismo, uma relíquia do colonialismo inglês e reflexo do sucesso de Tarzan nas telas.

Que eu saiba foi o primeiro super-herói a se casar nos quadrinhos, na década de 70, mas a essa altura ele já não tinha praticamente nenhuma relevância. Um pouco depois, nos anos 90, virou moda “matar” os super-heróis, a partir da morte do Super-Homem — que precisava desesperadamente de um aumento de vendas. Nessa época eu defendia uma solução para o Fantasma que, modestamente, considerava brilhante: ele também devia morrer. Mas, ao contrário do Superman e tantos outros, devia morrer de verdade.

Era simples. Ele era o único super-herói que realmente podia morrer, porque sua estrutura permitia isso.

A lenda do Fantasma é uma das mais interessantes do mundo dos quadrinhos: tudo começou quando um navio foi atacado pelos piratas Singh, no século XVI, e Christopher Walker foi o único sobrevivente. Nas praias de Bengala (um absurdo geográfico interessantíssimo) ele fez o juramento de dedicar sua vida (e, sem consultá-los, as dos seus descendentes também) a combater a pirataria e o Mal.

A partir daí se sucederam Fantasmas. Quando um Fantasma morria e seu filho (todos recebiam o nome do pai, ou seja, Kit Walker) assumia o seu lugar; daí a lenda do “Espírito-Que-Anda”. Aquele cujas aventuras líamos era o vigésimo segundo.

Essa estrutura, para quem gosta de quadrinhos, é perfeita. Porque permite a renovação do personagem a cada 20 anos. Na minha concepção, o Fantasma seria o primeiro super-herói cujas aventuras poderiam transcorrer em tempo real, envelhecendo com seus leitores, morrendo e cedendo lugar à nova geração quando fosse perdendo força. Por exemplo, hoje praticamente todos os personagens em quadrinhos têm dificuldades em explicar sua cronologia (no Homem-Aranha, Flash Thompson lutou na Guerra do Vietnã, que acabou há quase meio século).

Com o Fantasma isso não precisaria acontecer, ele podia simplesmente começar um novo personagem do zero. Sempre que o personagem estivesse cansado, poderia se casar — sem problemas, porque daqui a alguns anos ele poderia se casar novamente, ou melhor, o seu filho poderia. Para o público adolescente, as aventuras de cada sucessor trariam, renovadas, as mesmas emoções que seus pais haviam lido tempos atrás.

Era o plano perfeito, mesmo, e só idiotas como os donos do Fantasma não percebiam. Ahn… Eu disse perfeito? Que bobagem.

Àquela altura aquilo era impraticável. O Fantasma perdeu força simplesmente porque a África não existe mais no imaginário mundial. Os autores bem que tentaram atualizar o personagem, com Diana Palmer, por exemplo, passando a trabalhar na ONU. Mas o problema do Fantasma era estrutural, era o fato de ser indissociável de um lugar que perdia gradualmente o seu interesse. Na década de 30 ainda era o continente negro, cheio de mistério e animais enormes, e gigantes Masai e anões pigmeus. Cecil Rhodes e Livingstone eram personagens recentes. Os safáris eram chiques. Resumindo, o mundo do início do século XX permitia a existência do Fantasma, tornava-o crível e factível, qualidades fundamentais para o sucesso de qualquer personagem.

Hoje a África não tem mistério nenhum. Tem tutsis e hutus massacrando-se uns aos outros, tem a África do Sul recuperando-se do apartheid, tem a Libéria e a Somália, tem o Ebola e uma população miserável condenada a morrer de Aids. Quando dizemos que a África é selvagem, certamente não é no mesmo sentido que dizíamos há um século.

A tecnologia e a informação já tinha assassinado outro personagem de Lee Falk, Mandrake (surgido na esteira do sucesso dos ilusionistas no início do século passado, com gente como Houdini, em quem era descaradamente baseado), porque suas mágicas já não convenciam, e porque aquele mundo — com princesas Narda e príncipes negros Lothar servis — tinha acabado. Demorou um pouco mais para a vida matar o Fantasma. Mas conseguiu.

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