Florentino

Retrato do artista quando jovem: o poeta e cronista PMC

Por Jaguar

Doutor em bar, crônica e poesia, em boa hora Paulo Mendes Campos foi reeditado por Flávio Pinheiro, que reuniu em livro algumas crônicas com o título de uma delas, “O amor acaba”.

Numa crônica antológica, “Por que bebemos tanto assim?”, Paulo Mendes Campos, do alto do seu norrau, decreta: “Um bar legal precisa apresentar cinco qualidades fundamentais: boa circulação de ar, bom proprietário, bons garçons, bons fregueses e boa bebida. Isso é raríssimo de acontecer. Quando o garçom é uma flor de sujeito, o dono do bar costuma ser uma besta; se os fregueses são alcoólicos esclarecidos, o ambiente às vezes é quente e abafado; vai ver um excelente e confortável bar refrigerado, e boa porcentagem de uísque é fabricado no Engenho de Dentro. Para dizer toda a verdade, o bar perfeito não existe. Barmen and jockeys are the only people who are polite any more, doutrinou um homem que consumia álcool em quantidades industriais, o romancista Ernest Hemingway.”

Para o poeta talvez o bar perfeito, pelo menos para ele, não existisse. Mesmo que o ambiente, o dono, os garçons e a bebida fossem nota dez, um item – o frequentador – desequilibraria o conjunto. No caso, ele, grande intelectual e péssimo bebedor. Contrariando a frase de Humphrey Bogart (“todo homem está sempre três doses abaixo do normal”), Paulo Mendes Campos parecia estar quatro ou mais acima do normal logo depois de tomar a primeira.

Para mim a noite do Rio tem um bar perfeito: O Florentino, que fez 20 anos. Os garçons JB e Zezinho, os maîtres Eduardo, Rogério e Patrick parecem telepatas adivinhando o que a gente quer. O barmam Jorge prepara um Dry Martini que é uma obra de arte. Os manobreiros Chiquinho e Tarcísio eventualmente entregam a domicílio os mais bêbados.

O ambiente é aconchegante, Paulinho, o dono, é uma flor de pessoa. As doses são generosas e muito em conta e, pra quem quiser forrar o estômago, a comida é de primeira. Peço o cardápio e depois de meticulosa leitura escolho sempre o mesmo prato: panquecas de carne com arroz, comida típica de boteco. Mas pra quem quiser lagosta, também tem.

Era um dos lugares preferidos por Rubem Braga, bebedor exigente, que gostava de curtir seu uisquinho posto em sossego.

Mesmo assim não figura entre os 50 melhores bares selecionados pelo guia Rio Botequim 2000.

O que prova que, em matéria de bar, uma coisa é certa: ninguém concorda com ninguém.

Florentino. R. General San Martin, 1.227. Leblon. Tel. 274-6841.

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