Galeria dos Bambas: Carlos Cachaça

Todos os moradores vieram de algum outro canto da cidade e foram morar naquele mundo de zinco que é o morro da Mangueira. Antes mesmo de outros poetas e trovadores, sambistas e partideiros chegarem àquele morro, o menestrel Carlos Moreira de Castro (aka “Carlos Cachaça”) já estava lá. Ele nasceu no dia 3 de agosto de 1902, no pé da colina, perto da linha do trem, onde o pai, ferroviário, tinha um barracão.

Ainda criança, Carlos Moreira de Castro subiu o morro que seria seu lar por toda a vida e foi morar com o português Tomás Martins, dono de vários barracos na favela. O pequeno Carlos ajudava o padrinho analfabeto assinando recibos e percorrendo as vielas da localidade, recebendo aluguéis dos primeiros habitantes do lugar. Aos poucos, conheceu lugares atraentes como a casa da Tia Fé, onde escutou um samba pela primeira vez, cantado por Mano Eloy, sambista lendário de Madureira.

Carlos iniciou sua vida no samba aos 12 anos, quando começou a sair nos blocos formados no morro da Mangueira, onde já morava desde os oito anos. Em 1918, já tocava pandeiro no conjunto de Elói Antero Dias e, em 1922, conheceu o compositor Cartola, oito anos mais novo. Dessa amizade surgiu uma parceria de sucesso, que resultou em mais de 400 sambas gravados.

Seu apelido foi dado por um amigo da Praça Onze, o Tenente Couto. O sambista Carlos frequentava um bar naquelas imediações, onde aos domingos rolava uma feijoada com cerveja preta. Quando Couto oferecia a bebida à Carlos, a resposta era sempre a mesma: “Não, obrigado. Eu prefiro uma cachaça, uma cachacinha”. O apelido pegou.

Apaixonado por carnaval, este mangueirense reuniu várias virtudes. Ao contrário do que seu apelido sugere, Carlos zelava pela diversão e pelo trabalho. Quando jovem bebia, mas não sofria alteração, o que lhe permitia uma total disciplina.

Em 1925, ele, Cartola e Saturnino, pai de dona Neuma, criaram o Bloco dos Arengueiros, formado exclusivamente por foliões bagunceiros, como bem dizia o nome. Três anos depois, levariam o verde e rosa daquele pavilhão para outra agremiação, desta vez uma escola de samba, a Estação Primeira de Mangueira. Seu nome, no entanto, não aparece na ata de fundação da escola, no dia 28 de abril de 1928. A causa da sua ausência é, até hoje, motivo de dúvidas.

Alguns afirmam que Carlos Cachaça estaria de plantão na Central do Brasil, onde trabalhava como ferroviário. Outros dizem que ele estaria ocupado com alguma de suas conquistas amorosas. Segundo o próprio compositor, ele estava com Maria Ida, sua companheira na época, grávida do segundo filho – o filho recebeu o nome de Carlos e morreu antes de completar dois anos.

Em 1932, a Mangueira ganhou seu primeiro desfile com o samba-enredo “Pudesse Meu Ideal”, primeira composição sua em parceria com Cartola. Parceiro de Cartola em mais de 400 composições, como “Não quero mais amar a ninguém”, “Alvorada”, “Quem me vê sorrindo” e “Tempos Idos”, Carlos Cachaça é pouco lembrado como compositor destes e de tantos outros sambas que fez com seu amigo e concunhado – a esposa de Carlos e a mulher de Cartola, Menininha e Zica, eram irmãs.

Em 1933, ele levou à avenida um samba que estava de acordo com o enredo. Até então, os sambas cantados nos carnavais – sambas de terreiro, banais, que falavam de amor e da natureza – não eram associados ao tema do desfile. Nascia o samba enredo. E, antecipando o que viria na década de 1940, quando os sambas seguiam temas históricos e patrióticos, sua composição daquele ano, “Homenagem” já exaltava grandes brasileiros. Não eram heróis de revoluções e nem mártires pela liberdade, mas poetas: “Recordar Castro Alves, Olavo Bilac e Gonçalves Dias / E outros imortais que glorificaram nossa poesia / Quando eles escreveram, matizando amores, poemas cantaram / Talvez nunca pensaram de ouvir os seus nomes num samba algum dia”.

Se nesta época alguns sambistas de morro, como Cartola, emplacavam gravações com grandes cartazes (Francisco Alves, Silvio Caldas, Carmem Miranda, etc) da incipiente, mas muito fértil, música popular brasileira, Carlos Cachaça teve, nos anos 30, apenas um samba levado à cera do disco: “Não quero mais amar a ninguém”, parceria com seu melhor amigo – embora o nome de Cartola não conste no disco – e Zé da Zilda, registrado por Aracy de Almeida, em 1936.

O lirismo requintado dos versos do Menestrel de Mangueira, décadas depois imortalizados na primorosa regravação de Paulinho da Viola, rendeu-lhe uma homenagem. Se antes ele celebrou os poetas com seu samba, agora eram os poetas que celebravam seu samba. A riqueza do verso “semente de amor sei que sou desde nascença” é tamanha, que este foi premiado e arquivado na Academia Brasileira de Letras, por sugestão do poeta Carlos Drummond de Andrade: “Semente de amor sei que sou desde nascença / Mas sem ter vida e fulgor, eis minha sentença / Tentei pela primeira vez um sonho vibrar / Foi beijo que nasceu e morreu sem se chegar a dar”

Como o pai, Carlos Cachaça também foi ferroviário e por quarenta anos exerceu a profissão, com a cabeça repleta de linhas melódicas de sambas, que seriam cantados no primeiro pagode que houvesse em Mangueira ou nos outros redutos que gostava de frequentar, como Salgueiro, Estácio de Sá e Oswaldo Cruz. Aposentou-se como escriturário na Rede Ferroviária Federal. De sua Mangueira, entretanto, ainda sairiam muitos frutos saborosos. Sua última participação ativa na escola de samba ocorreu em 1948, quando a escola foi a primeira a colocar som no desfile, para o samba-enredo Vale de São Francisco, mais uma parceria com Cartola.

Em 1968, registrou seu canto pela primeira vez. Foi no disco “Fala Mangueira”, em que, ao lado de Cartola, Nelson Cavaquinho, Odete Amaral e Clementina de Jesus, celebrou a Verde Rosa, berço dourado de tantos bambas. “Lacrimário” é uma composição sua, com letra e melodia, de beleza pungente: “Tenho um lacrimário extraordinário, / Lindo relicário que um dia fiz do meu sofrer / Fiz de agonia, fiz de nostalgia / Parte de um romance, sem acabar o meu viver”

Oito anos depois, o Poeta do Morro de Mangueira pôde, finalmente, gravar um disco inteiro. Com produção de J. Botezelli, o Pelão, figura de suma importância para o samba e para música brasileira, e arranjos – fiéis ao samba mangueirense – de João de Aquinho, o álbum reuniu 12 composições criadas ao longo de mais de 50 anos pelo gênio da raça.

No encarte, as letras garrafais relatavam a injustiça que acabara de ser reparada: “CARLOS CACHAÇA – 1º LP AOS 74 ANOS”. O primoroso disco reuniu instrumentistas de alto valor como Raul de Barros (trombone), Copinha (flauta), Waldir de Paula (violão 7 cordas), Meira (violão), Canhoto (cavaco), Marçal, Elizeu, Jorginho e Gilson (ritmo) e é considerado um dos mais emblemáticos álbuns de samba de todos os tempos.

Em dezembro de 1980 lançou pela Ed. José Olympio o livro “Fala Mangueira”.

Em 1997, ao completar 95 anos, foi homenageado, na quadra Mangueira por ser o único fundador vivo da agremiação.

Carlos Cachaça morreu em fevereiro de 1999, aos 97 anos, na casa da filha Inês de Castro. Por causa da velhice, há dois meses o sambista se mudara do morro da Mangueira para o subúrbio de Engenho da Rainha, onde vivia com a filha, os netos Carlos José e Marília e o bisneto Anderson. Foi uma morte serena, de acordo com o relato de seus parentes. Carlos Cachaça morreu enquanto dormia. O compositor deixou dois filhos, seis netos e três bisnetos.

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