Galeria dos Bambas: Ernesto dos Santos (Donga)

“Olha esse ponteado, Donga!”. A exclamação com que Almirante incentivava o violão solista do Grupo da Guarda Velha – entre eles Pixinguinha e João da Baiana – está perpetuada em um dos discos mais famosos da história da música popular brasileira, gravado por importantes músicos e compositores da fase de sedimentação do samba no Rio de Janeiro. Esse Donga, que provocava tanta admiração no severo Almirante, nasceu Ernesto Joaquim Maria dos Santos, no Rio de Janeiro, a 5 de abril de 1889, filho de pai pedreiro e tocador de bombardino, com a famosa Tia Amélia, do grupo das baianas da Cidade Nova, cantadora de modinhas, festeira e mãe-de-santo.

Desde menino frequentava a casa da Tia Sadata, no bairro da Saúde, onde desfilou no Rancho Dois de Ouro como “porta-machado”, figurante que abria o desfile brandindo um pequeno machado, em uma dança parecida com a capoeira. Passou a infância entre ex-escravos e negros baianos, dos quais aprendeu o jongo, o afoxé e outras danças populares que serviriam de base para sua carreira musical.

Começou a tocar cavaquinho, de ouvido, e passou para o violão, em 1917, tomando aulas com o grande Quincas Laranjeiras. Iniciou-se na composição – “Olhar De Santo” e “Teus Olhos Dizem Tudo” (que anos depois teria letra de David Nasser) são dessa época – quando já era frequentador das reuniões na casa de Tia Ciata, ao lado de Bucy Moreira, João da Baiana, Pixinguinha, Sinhô, Caninha e outros.

Em tais reuniões nasce o samba “Pelo Telefone”, que Donga registra como seu na Biblioteca Nacional, contestado pelo grupo que considerava a criação de caráter coletivo, por ser oriunda de partido-alto, em que todos improvisavam versos. Seis de novembro de 1916 é a data da gravação daquele que é considerado o primeiro samba registrado no Brasil.

A partitura para piano é do mestre Pixinguinha. O documento permanece arquivado na biblioteca. Nesta primeira versão, a canção não tinha letra, só melodia. Posteriormente, foram incluídos os versos do jornalista Mauro de Almeida, que teve seu nome incluído como co-autor.

No carnaval do ano seguinte, 1917, o samba se tornou um grande sucesso, tornando-se o ritmo que reinaria na folia até os dias atuais. O sucesso de “Pelo Telefone” fez com que diversos músicos reivindicassem sua autoria.
A canção também causou polêmica, por referir em sua letra a “polícia” e “roleta”, jogo proibido na época. Só anos depois, em 1960, em depoimento ao Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro, Donga confirmou ter mudado a letra para evitar atrito com as autoridades.

A canção foi composta em 1916, no quintal da casa da Tia Ciata, na Praça Onze, um famoso terreiro de candomblé daqueles tempos:

Abaixo, a letra de “Pelo Telefone”, um marco da música brasileira:

O chefe da folia
Pelo telefone manda me avisar
Que com alegria
Não se questione para se brincar
Ai, ai, ai
É deixar mágoas pra trás, ó rapaz
Ai, ai, ai
Fica triste se és capaz e verás
Tomara que tu apanhe
Pra não tornar fazer isso
Tirar amores dos outros
Depois fazer teu feitiço
Ai, se a rolinha, sinhô, sinhô
Se embaraçou, sinhô, sinhô
É que a avezinha, sinhô, sinhô
Nunca sambou, sinhô, sinhô
Porque este samba, sinhô, sinhô
De arrepiar, sinhô, sinhô
Põe perna bamba, sinhô, sinhô
Mas faz gozar, sinhô, sinhô
O peru me disse
Se o morcego visse
Não fazer tolice
Que eu então saísse
Dessa esquisitice
De disse-não-disse
Ah! ah! ah!
Aí está o canto ideal, triunfal
Ai, ai, ai
Viva o nosso carnaval sem rival
Se quem tira o amor dos outros
Por deus fosse castigado
O mundo estava vazio
E o inferno habitado
Queres ou não, sinhô, sinhô
Vir pro cordão, sinhô, sinhô
É ser folião, sinhô, sinhô
De coração, sinhô, sinhô
Porque este samba, sinhô, sinhô
De arrepiar, sinhô, sinhô
Põe perna bamba, sinhô, sinhô
Mas faz gozar, sinhô, sinhô
Quem for bom de gosto
Mostre-se disposto
Não procure encosto
Tenha o riso posto
Faça alegre o rosto
Nada de desgosto
Ai, ai, ai
Dança o samba
Com calor, meu amor
Ai, ai, ai
Pois quem dança
Não tem dor nem calor

Influenciado por João Pernambuco, Donga faz parte do Grupo de Caxangá, com o nome de guerra de Zé Vicente e, em 1919, convidado por Pixinguinha, integra o conjunto Oito Batutas, de importância fundamental na história da música brasileira, estreando na sala de espera do cinema Palais. Em janeiro de 1922, os Batutas se apresentaram durante seis meses em Paris com o nome de “Les Batutas”. Ao retornar, o grupo atua ainda na Argentina, onde grava uma série de discos na Victor daquele país, antes de dissolver-se.

Donga passa a tocar violão-banjo, influência trazida da Europa, e, em 1926, integra o grupo Carlito Jazz para acompanhar a companhia francesa de revistas Ba-Ta-Clan, que se exibia no Rio de Janeiro. Com esse conjunto viaja outra vez à Europa e voltando em 1928 cria com Pixinguinha a Orquestra Típica Pixinguinha-Donga, eminentemente dançante, responsável por gravações no selo Parlophon, da Odeon. Em 1932, atua nos grupos Guarda Velha e Diabos do Céu, formados por Pixinguinha para gravações. Nesse mesmo ano casa-se com a cantora Zaíra Cavalcanti, com quem viveu até a morte desta em 1951.

Em 1940, participa com composições suas da famosa gravação a bordo do navio Uruguai, feita por Leopoldo Stokowski, que colhia músicas sul-americanas para uma série de discos lançados nos Estados Unidos pela Columbia. Suas criações mais conhecidas – além de “Pelo Telefone” – são “Passarinho Bateu Asas, Bambo-Bambu, Cantiga de Festa, Macumba de Oxóssi, Macumba de Iansã, Seu Mané Luís e Ranchinho Desfeito. Casou novamente em 1953 e morreu em 1974, no bairro de Aldeia Campista, para onde se retirou como oficial de Justiça aposentado.

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