Galeria dos Bambas: Nelson Cavaquinho

Nelson Antônio da Silva nasceu no Rio de Janeiro em 29 de outubro de 1910, no berço de uma humilde família carioca. Mesmo sendo pobre, Nelson levava uma infância muito boa, brincando em peladas, se divertindo com bolinhas de gude e frequentava a escola, mas devido aos problemas financeiros que passava sua família, teve que abandonar a escola no terceiro ano primário para trabalhar numa fábrica de tecidos e depois como auxiliar de eletricista.

Desde moleque, Nelson já mostrava seu dom musical. Nas tardes de domingo, seu tio Elvino tocava violino e Nelson tentava acompanhá-lo num instrumento feito em casa: uma caixa de charutos com arames esticados. Seu pai, Brás Antônio da Silva, tocava tuba na Polícia Militar. A mãe de Nelson era lavadeira no Convento de Santa Tereza e cuidava de seus cinco irmãos: Arnaldo, Atarílio, Iracema, João e José.

Na adolescência, morando na Gávea, Nelson entraria em contato com os chorões e suas músicas. Contemplava os grandes mestres do cavaquinho e ia espiando e aprendendo os truques do instrumento, mas não tinha dinheiro para comprar um cavaquinho, e só treinava quando conseguia algum instrumento emprestado. Ainda muito jovem, se aproximaria da malandragem carioca e ficaria amigo de personagens como Brancura, Camisa Preta e Edgar.

Em suas andanças pelas quebradas cariocas, conheceu músicos de grande influência em sua formação, como Heitor dos Prazeres, Mazinho do Bandolim e o violonista Juquinha, de quem recebeu importantes noções de como tocar cavaquinho. Demonstrando grande habilidade para o instrumento, Nelson compôs um choro, “Queda”, que o fez tornar-se respeitado como músico, passando a ser chamado para fazer shows. Ganhou enfim um cavaquinho e já mostrava o seu estilo peculiar de tocar o cavaquinho, vibrando as cordas com apenas dois dedos. Foi então batizado de “Nelson Cavaquinho”, apelido que o acompanharia por toda a vida.

Com 20 anos, conheceu Alice Ferreira Neves e foi obrigado a se casar, depois de ser arrastado pelo pai da moça até a delegacia. Com ela, teria quatro filhos, aos quais encontrava dificuldades para criar, pois sem emprego, Nelson teve que pedir socorro à família. Seu pai, conseguiu então um posto como cavalariano na Polícia Militar. Lá, Nelson pegava diariamente o seu cavalo e subia o morro da Mangueira para a patrulha. Chegando lá, parava de bar em bar, onde fez amizades com os sambistas como Cartola, Carlos Cachaça e Zé da Zilda.

Nelson conta uma história interessante desta época. “Resolvi parar numa tendinha e deixei amarrado na porta o cavalo, (…) fiquei tanto tempo conversando com o Cartola, que quando saí da birosca, cadê o animal? Tinha sumido. Fiquei apavorado. E resolvi, assim mesmo, voltar para o quartel. Não é que quando chego lá dou de cara com o cavalo na estrebaria? O danado parecia que sorria pra mim pela peça que me pregou.”

Sua patrulha era diferente: como conhecia todos no morro, quando encontrava alguma encrenca, não prendia, conversava com os envolvidos e chegava a um acordo. Cada vez mais no samba e na boêmia, passava dias longe de casa, faltava ao trabalho e era punido com detenção. Dizia: “Eu ia tantas vezes em cana que já estava até me acostumando ao xadrez. Era tranqüilo, ficava lá compondo, entre as músicas que fiz no xadrez está “Entre a Cruz e a Espada”.

Adoniran Barbosa, Billy Blanco, Cartola e Nelson Cavaquinho

No começo da década de 40, depois de três dias e três noites na rua, tocando cavaquinho, quando voltou para casa, descobriu que sua mãe havia morrido e fora enterrada dias antes. A música triste de Nelson refletia as amarguras que havia passado.

Ele começou a fazer algum sucesso como compositor quando Cyro Monteiro gravou algumas de suas músicas. Separou-se da mulher, e ficou livre para dedicar-se à música e a boêmia. Sem dinheiro, vendia seus sambas por ninharias na Praça Tiradentes.

Na década de 50, alegando que o cavaquinho era muito pequeno, o trocou pelo violão, mas não abandonou o modo de tocar com o polegar e o indicador que sempre impressionou músicos de renome.

Como compositor era marcante a melancolia e a morte era tema muito frequente. “Sou um homem que está muito perto da fatalidade. Minhas músicas, por isso, falam sempre em morte e em Deus, não faltando os amores fracassados”.

Com um repertório de mais de 600 composições (a maioria delas inéditas ou esquecidas, pois dificilmente o músico as escrevia, preferindo guardá-las na memória), Nelson Cavaquinho criava de madrugada, nas mesas dos bares, com o violão e um copo de cerveja ou cachaça.

Guilherme de Brito, seu principal parceiro, conta como o conheceu: “Conheci o Nelson Cavaquinho no Café São Jorge. (…) Nelson já era um sucesso, quando passava de manhã no botequim, estava aquele aglomerado de gente em volta de uma mesa. Às vezes eu voltava de noite, trabalhava o dia inteiro, e lá estava o Nelson com o seu violão. Até que um dia eu me atrevi e cheguei perto dele com a primeira parte de um samba, que foi “Garça”, e falei: “Ô Nelson, vê se você gosta aqui…”. Ele disse que estava ótimo e fez a segunda parte. Dali em diante seguimos até o fim da vida e fizemos um trato de compormos juntos, só eu e ele. Foi muito boa a parceria e fomos leais até o fim da vida dele. Se bem que ele pulou fora duas vezes durante esse período e compôs com outro cara, mas foi muito bom. Se ele estivesse vivo, estaríamos com certeza até hoje ligados um ao outro”.

Em 1963, Nelson Cavaquinho faz uma série de apresentações no Zicartola, restaurante de Cartola e Dona Zica. Ao lado de Zé Kéti, Elton Medeiros, Jorge Santana, Cartola e Nuno Veloso, forma o grupo A Voz do Morro, que faz uma única apresentação em um programa de televisão. Com Clementina de Jesus, Cartola e Carlos Cachaça, grava o LP “Fala Mangueira”. É protagonista e tema do curta-metragem “Nelson Cavaquinho”, de Leon Hirszman, em 1969. No ano seguinte, lança o LP “Depoimento de Poeta”, dois anos mais tarde, “Nelson Cavaquinho – da série Documentos”, pela RCA, e, em 1973, “Nelson Cavaquinho”, com a participação de Guilherme de Brito.

Sua obra é difundida, entre os anos 1950 e 1970, pela interpretação de artistas como Elizeth Cardoso, Paulinho da Viola, Nora Ney, Beth Carvalho, Nara Leão, Elza Soares, Elis Regina, Thelma Soares, Clara Nunes e Paulo César Pinheiro. Em 1977 grava, com Guilherme de Brito, Candeia e Elton Medeiros, o álbum “Quatro Grandes do Samba”.

Apesar de ser um poeta marginal durante muitos anos, tem seu talento reconhecido em vida: em 1985 é lançado o álbum “Flores em Vida”, no qual Nelson Cavaquinho executa algumas de suas canções e é homenageado por intérpretes como Chico Buarque, Beth Carvalho, João Bosco e Toquinho.

Já idoso, e com medo de ter problemas de saúde, parou de beber e fumar. Não mais varava as noites em claro, não desaparecia por dias seguidos, mas continuava com o violão, abraçava-o carinhosamente, com seu estranho hábito de tocá-lo quase na vertical. As composições foram rareando, no entanto, persistiram até o fim.

Nelson Cavaquinho e Cartola

Há 33 anos Nelson Cavaquinho desaparecia (dessa vez em definitivo) pela segunda vez na vida. Apesar de seus dois sumiços – ou de suas duas mortes, como provavelmente ele gostaria – sua figura continua sendo enigmática. Morreu de enfisema pulmonar na madrugada do dia 18 de fevereiro de 1986, aos 74 anos, no Rio de Janeiro, mas sua voz rouca, suas músicas sombrias – que falam de desamores, despedidas e morte – ainda desnorteiam: não há em Nelson nenhum resquício do estereótipo do samba como uma música alegre, feita para agradar.

A primeira vez em que Nelson Cavaquinho desapareceu foi pouco antes da década de 1950. Ele havia feito sucesso até a metade do século passado quando a época áurea do samba (marcada por figuras como Carmem Miranda, Dalva de Oliveira e Dorival Caymmi) acabou. Nelson e seu amigo Cartola, compositor de clássicos, como “O Mundo é Um Moinho” e “As Rosas Não Falam”, passaram anos de ostracismo artístico. Até que no início de 1960 foram redescobertos pela classe média carioca que buscava novos ares nos velhos morros cariocas.

Quando voltou, Nelson Cavaquinho já abandonara o cavaquinho que tinha lhe rendido o apelido na juventude. Seu instrumento agora era o violão, que ele tocou de forma única. Saído diretamente de um túnel do tempo, ele recendia há uma época passada, esquecida – ou que ao menos queria se esquecer.

Se o Brasil se profissionalizava, Nelson era o símbolo do improviso, do amadorismo. Se éramos o país do futuro, ele era nosso passado de pé no chão. “Muito mais do que arcaico, Nelson parece ter nascido extemporâneo, na contramão da ‘promessa de felicidade’. É desse patamar que Nelson e Cartola compõem, esquecidos, mas também preservados”, escreveu no artigo “Rugas”, o artista plástico e ensaísta Nuno Ramos.

No entanto, ao contrário de Cartola que se fixou como um dos maiores sambistas brasileiros, Nelson Cavaquinho também é lembrado, mas em segundo plano. É que junto ao seu nome não é possível usar qualquer adjetivo que proponha sutileza ou conforto. Enquanto Cartola oferecia respostas e conselhos em suas músicas – “Preste atenção, querida / Embora eu saiba que estás resolvida / Em cada esquina cai um pouco a tua vida / Em pouco tempo não serás mais o que és” –, Nelson oferecia incômodo puro e simples.

Em Nelson Cavaquinho, sambista e poeta, tudo remete ao final. Se, por exemplo, fala em folhas, lembra-se das secas. No Carnaval não há confete ou purpurina, mas partida para sabe-se lá quando voltar. E até sua barriga, na gíria cômica inventada por ele próprio, vira um cemitério de frango. Se o samba é muitas vezes um gênero que desconhece autores, confundindo-os nas coletâneas em que intérpretes desfilam pout-pourris recheados de clássicos, Nelson Cavaquinho é inconfundível.

Suas letras são sombrias, sua voz é rasgada, esculpida pelo excesso de álcool e tabaco barato. O modo como toca violão, usando apenas o polegar e o dedo mínimo, é dissonante, forte. Em um de seus sambas mais famosos, Nelson ordena: “Tire o seu sorriso do caminho / Que eu quero passar com a minha dor”. Em outro, anuncia: “É o Juízo Final, a história do bem e do mal / Quero ter olhos pra ver, a maldade desaparecer”. E, num terceiro, pede: “Me dê as flores em vida / O carinho, a mão amiga / Para aliviar meus ais / Depois que eu me chamar saudade / Não preciso de vaidade / Quero preces e nada mais”.

Nenhuma história poderia ser mais Nelson Cavaquinho do que a do próprio Nelson Cavaquinho. Obcecado pelo final, ele viu seu fim ainda em vida e depois voltou só para lembrar os brasileiros, empolgados pela invenção da bossa-nova, pela vida dourada da zona sul carioca, do barro de que também eram feitos.

Seu estilo, como escreveu Ramos, era uma espécie de anti-João Gilberto. Enquanto um busca o minimalismo, a sutileza, o outro escancarava as dores de se estar vivo. Ainda segundo o ensaísta, há no sambista o desejo e a recusa do moderno, coisa que caracteriza quase tudo o que o Brasil almeja ser. “Em Nelson, a vida é o que é, num certo sentido, aquilo que sempre foi. Por isso, não carrega ansiedade nem projeto. Parece tão desejável quanto a morte”.

E, contudo, apesar de ser provavelmente o sambista que mais escreveu sobre o fim, a imagem que talvez melhor defina sua personalidade é a do mito que diz que ele próprio, Nelson Cavaquinho, tremia de medo ao pensar em seu juízo final. Conta-se que ele passou uma madrugada inteira atrasando o relógio: a ideia era que, desse modo, ele poderia enganar a morte.

Sabe-se hoje que a tática não deu certo, mas Nelson, de um jeito ou de outro, ao mexer nos ponteiros, conseguiu permanecer parado no tempo, dentro do passado de onde veio. E, por isso mesmo, é hoje uma ponte para o que o Brasil foi e deixou de ser.

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