Galeria dos Bambas: Wilson Baptista

Wilson Baptista de Oliveira nasceu no dia 3 de julho de 1913, em Campos dos Goytacazes, no norte do Rio de Janeiro, de família humilde, mas original, porque os avós eram ligados aos movimentos abolicionistas na região, que foi um dos núcleos mais fortes do país. Ele chega ao Rio fugido em trem cargueiro, ainda adolescente, provavelmente em 1927. Tinha o sonho de se tornar sapateador no teatro de revistas, já que nunca gostou do trabalho formal.

Na então capital da República, sempre andou pelas bandas da Lapa e Praça Tiradentes, nos bares e cabarés, convivendo com prostitutas e malandros como Miguelzinho Camisa Preta, os irmãos Meira e Madame Satã, dentre outros. Sua admiração pela malandragem fez com que se vestisse como eles, não dispensando o terno de linho, camisa de seda pura, cachecol sobre os ombros e navalha de aço Solingen no bolso, apesar de garantir que nunca precisou usá-la.

Mas a lei da vadiagem pegava. Quem fosse encontrado na rua e não comprovasse ocupação poderia ser preso, até que um parente levasse comprovante de residência. Não só Wilson Batista, mas muitos sambistas da época foram presos para averiguações. Uma madrasta de Wilson, Irene, segunda mulher do pai dele, ia direto à cadeia levar recibo de aluguel, dizia que ele era compositor, que trabalhava em teatro por conta própria, essas coisas.

A carreira artística teve início aos 16 anos quando compôs seu primeiro samba, “Na Estrada da Vida” que foi cantada por Aracy Cortes num espetáculo no Teatro Recreio. Em 1932, pela primeira vez teve um samba gravado, “Por Favor, Vai Embora”, em parceria com Benedito Lacerda e Osvaldo Silva e lançado por Patricio Teixeira.

Aos 19 anos, aquele moço de chapéu de lado, cabelos ondulados de Glostora, fatiota batida e o gingado manemolente era deliberadamente isso mesmo, o malandro carioca dos anos 1930. Ninguém mais do que Wilson Baptista encarnou essa estética e assumiu a sua defesa em sambas de melodias sincopadas de se dançar em gafieiras e letras bem-humoradas com personagens de minioperetas como a Nega Luzia, que recebeu o Nero e queria botar fogo no morro.

Malandros havia muitos na flamante noite da primeira metade do século passado na então Capital Federal. Brotavam dos morros da área central da cidade e se realizavam no entorno da Praça Tiradentes e da Lapa de prostitutas, gente da noite, malandros, intelectuais, jornalistas, músicos, escritores e turistas. Por ali circulavam Orestes Barbosa, Vadico, Ataulfo Alves, Noel Rosa, Nássara, Herivelto Martins, Donga, Francisco Alves e Wilson, gente que compunha (ou cantava) para as peças dos teatros da redondeza.

Mas só Wilson Baptista, só ele mereceu a distinção de “filósofo do samba”. Um filósofo underground, diga-se. Letras rabiscadas em guardanapos de cafés e bares, Wilson cantou a boêmia, os conflitos dos apaixonados, as ilusões do povo, a vadiagem, os azares da jogatina e a ironia de quem erguia construções e não tinha onde morar e assim impregnava seus sambas de vida e cotidiano. Foi ele um dos primeiros a retratar a mulher, no auge da imposição machista: “Oh! Seu Oscar / Tá fazendo meia hora / Que sua mulher foi embora / E um bilhete deixou / O bilhete assim dizia; / “Não posso mais / Eu quero é viver na orgia”.

Este samba, “Oh! Seu Oscar”, de parceria com Ataulfo Alves, venceu um grande concurso de música popular promovido pelo Departamento de Imprensa e Propaganda, o tenebroso DIP do Estado Novo, em 1936. Mas ainda assim, seu desfecho é libertário. Esse é um lado desconhecido de Wilson Baptista. O mais conhecido é o de sua polêmica com outro mestre, Noel Rosa. Entre meados de 1933 e o final de 1936, os dois compositores esgrimiram sambas feitos nos cafés da Lapa, a começar quando Wilson compôs um lindo elogio à malandragem, o “Lenço No Pescoço”, gravado por Sylvio Caldas. Mas havia uma linda morena de um cabaré da Lapa, uma bailarina por quem Wilson e Noel tinham interesse.

Wilson Baptista e o gato Falla em foto d’O Cruzeiro

Como a moça se engraçou com Wilson, Noel fez um samba desancando Lenço no Pescoço e disse “proponho ao povo civilizado / não te chamar de malandro / e, sim, de rapaz folgado”. Noel se alinhava ao Rio moderno, das largas avenidas recém-abertas onde antes havia cortiços, casarios e morros do centro da cidade. Noel, porém, era tanto ou mais apaixonado pela malandragem quanto Wilson. O duelo divertido se seguiu e nele Noel presenteou o país com Feitiço da Vila e Palpite Infeliz. O gênio de Wilson não era menor. Só que ele ficou esquecido na história.

Quem recupera sua memória é o escritor, ator e músico Rodrigo Alzuguir, que lançou em 2013 a biografia “Wilson Baptista, o Samba Foi a sua Glória” (Casa da Palavra), já tendo lançado antes um “Cancioneiro Comentado”, com 105 partituras e, em 2011, um musical e um álbum duplo: “O Samba Carioca de Wilson Batista” (Biscoito Fino). Uma preciosidade recuperada no baú por Paulinho da Viola fala muito do modo de vida de Wilson Baptista. Em “Meu Mundo É Hoje”, ele diz que “assim morrerá um dia / não levará arrependimentos / nem o peso da hipocrisia”. Malandro que faz um verso desses no início do século passado tem o seu valor.

Em outro samba, Chico Brito, um valente do morro, e mais um grande personagem de Wilson, vai preso pelo delegado Peçanha. Isso porque no início Chico crescera aluno aplicado no colégio. Wilson remata: “(…) Se o homem nasceu bom / e bom não se conservou / a culpa é da sociedade que o transformou.” “Ele falava nas composições como veículos do pensamento, como no Chico Brito. Usava algo como o Rousseau no samba”, diz o biógrafo Rodrigo Alzuguir.

Amigos, músicos, compositores tratavam Wilson como um pensador do samba porque ele dizia que uma obra deve ser suficientemente “forte” e alcançar “personalidade”. Evitava temas religiosos. Compunha batucando na caixa de fósforo, que, aliás, foi o instrumento minimalista de muito sambista do porte de Cyro Monteiro, Lupicínio Rodrigues e Zé Keti. De grande parte de suas 720 músicas, uma imensidão criativa, vendia parcerias de dia para dançar no cabaré à noite e, em alguns casos, revendia a outro interessado que aparecia na Lapa. Se fosse flagrado, fazia na hora uma nova composição e pagava a dívida.

Noel Rosa era do mesmo tipo. Houve épocas em que o poeta da Vila tornou-se quase um empregado do cantor Francisco Alves, que lhe emprestava dinheiro mas exigia em troca a parceria. Nessa vida hedonista, Wilson Baptista torrava com mulheres seu parco dinheiro e, no dia seguinte, mal sabia o que havia composto no anterior. Não cuidou da obra, não deixou acervo e nem providenciou quem zelasse pela memória. Também por isso seu nome hoje soa desconhecido.

Em 1933, Wilson Baptista e Noel Rosa começaram a amistosa polêmica musical responsável por alguns dos mais belos sambas clássicos brasileiros. O que a história parcamente conheceu como “briga” ou “polêmica” entre Wilson Baptista e Noel Rosa nada mais foi do que uma grande gozação entre os dois sambistas, condizente com o estilo carioca de ser, com bom humor, leveza e farta dose de genialidade. Desde que Noel Rosa respondeu ao atrevido e melodioso “Lenço No Pescoço”, em que Wilson Baptista celebra a caricatura do malandro antigo, de lenço, navalha no bolso, isso em meados de 1933, cada um deles compôs quatro sambas em contestação ao outro como forma de não se dar por vencido aos olhos dos amigos naquele reduto de cafés, cassinos, dancings, botecos e teatros de revista da Lapa e da Praça Tiradentes na Capital Federal dos primeiros anos da República Nova.

O irônico é que o retrato poético do malandro era o elogio em mito de uma figura que já havia praticamente desaparecido da realidade. Sujeito de navalha no bolso e tamanco arrastado nem mais existia, mas era dominante na boemia a fascinação pela malandragem da virada do século 20 e por uma vaga e romântica ideia da vadiagem – que, aliás, dava cadeia aos desocupados desde a abolição da escravatura. Apenas dois anos após a Lei Áurea, os negros libertados sem estrutura alguma na rua e sem saber o que fazer, e já havia um decreto que os impedia de circular sem ocupação. Portanto, a ideologia do malandro também vem em resposta à opressão de substrato racista vivida no cotidiano.

Wilson Batista, mulato pobre, era apaixonado pela malandragem. Noel, branco de classe média, talvez fosse mais ainda. Ambos frequentavam o Cabaré Apolo e ambos paqueravam a mesma bailarina, uma morena funcionária da casa, que dançava com os clientes. Não se sabe o nome da moça, que preferiu Wilson. Ambos disputariam mais tarde as atenções de outra dançarina, Ceci, e Wilson novamente levou a melhor.

Três anos mais velho, Noel já era o que se podia chamar, dadas as proporções, de uma celebridade. Era autor de um sucesso, “Com Que Roupa”, aparecia nos jornais, concedia entrevistas no rádio, e certamente não deixaria assim o atrevimento do novato. Desancou “Lenço No Pescoço” com o seu “Rapaz Folgado”, uma réplica quase que verso a verso com o claro propósito de implicar com quem conquistara sua morena. Só que Noel incluiu na canção uma mensagem contra a malandragem, e essa é a maior prova de gozação, porque, sabidamente, o próprio poeta da Vila era um deles. Vivia duro, sem dinheiro, vendia seus sambas tanto quanto Wilson Baptista.

Os amigos da Lapa Sylvio Caldas e Francisco Alves instigavam. Diziam para um “olha, o Noel está fazendo um samba para te atacar”, e falavam ao outro “o Wilson vem com um samba de arrasar, e as tréplicas surgiram até 1936, sem que a maioria sequer fosse gravada – embora tivessem lugar nas rodas dos botequins e dos cafés. Até que os dois se encontraram e deram risadas de tudo e ainda criaram um único samba em parceria. Segundo lembra Alzuguir, só não fizeram mais porque Wilson Baptista ficou dois anos fora do Rio. Viajou a Buenos Aires com um outro cantor, Erasmo Silva, formando a Dupla Verde e Amarelo. Passou por São Paulo e fez temporada de quase um mês em Porto Alegre. Em 1937, apresentou-se na então Rádio Difusora, conheceu Lupicínio Rodrigues e o cantor Sadi Nolasco. Na mesma época, Noel Rosa morreu, aos 27 anos.

Nos anos 1950, então um radialista famosíssimo, Almirante recuperou a polêmica e construiu a sua versão, fazendo de Noel o politicamente correto e deixando o lado vilão para Wilson. Só em 2013, aos 100 anos do nascimento de Wilson Baptista, a verdade é reposta. Primeiro, Wilson compôs “Lenço no Pescoço”, uma ode à malandragem gravada em 1933 por Sílvio Caldas: “Meu chapéu do lado / Tamanco arrastando / Lenço no pescoço / Navalha no bolso / Eu passo gingando / Provoco e desafio / Eu tenho orgulho / Em ser tão vadio.”

Noel Rosa respondeu no mesmo ano com “Rapaz Folgado”: “Deixa de arrastar o teu tamanco / Pois tamanco nunca foi sandália / E tira do pescoço o lenço branco / Compra sapato e gravata / Joga fora esta navalha que te atrapalha.”

Em seguida, Wilson se saiu com “Mocinho Da Vila”: “Você que é mocinho da Vila / Fala muito em violão, barracão e outros fricotes mais / Se não quiser perder o nome / Cuide do seu microfone e deixe / Quem é malandro em paz.”

Noel contrapôs o antológico “Palpite Infeliz”: “Quem é você que não sabe o que diz? / Meu Deus do Céu, que palpite infeliz! / Salve Estácio, Salgueiro, Mangueira, / Oswaldo Cruz e Matriz / Que sempre souberam muito bem / Que a Vila não quer abafar ninguém, / Só quer mostrar que faz samba também.”

Daí Wilson apelou na gozação com o queixo para dentro de Noel e fez “Frankenstein Da Vila”: “Boa impressão nunca se tem / Quando se encontra um certo alguém / Que até parece um Frankenstein / Mas como diz o rifão: / Por uma cara feia perde-se um bom coração.”

E então Noel e Vadico criaram “Feitiço Da Vila”: “Quem nasce lá na Vila / Nem sequer vacila / Ao abraçar o samba / Que faz dançar os galhos, / Do arvoredo e faz a lua / Nascer mais cedo.”

Wilson respondeu com um lindo “Conversa Fiada”: “É conversa fiada dizerem que o samba na Vila tem feitiço / Eu fui ver para crer e não vi nada disso / A Vila é tranquila porém eu vos digo: cuidado! / Antes de irem dormir deem duas voltas no cadeado.”

Acabam os dois criando um samba em parceria, “Terra De Cego”, de Wilson Batista, que Noel Rosa transformou em “Deixa De Ser Convencida”, que se refere a uma segunda bailarina da Lapa, Ceci, pela qual tinham interesse: “Deixa de ser convencida / Todos sabem qual é / Teu velho modo de vida / És uma perfeita artista, eu sei bem, / Também fui do trapézio, / Até salto mortal / No arame eu já dei.”

Para o biógrafo Rodrigo Alzuguir, apesar da pinta de malandro Wilson era um compositor pró-feminista:

“Wilson Baptista deve ter sido o precursor do tema da liberação da mulher na música brasileira. Mulher não se separava, mas suas personagens se separavam. No auge do machismo dos anos 1940, ele fez um samba chamado “Lealdade”, recentemente gravado pelo Caetano Veloso. Tem um cara falando para a mulher: “Serei, serei leal contigo / quando cansar dos teus beijos / te digo”, o que parece letra machista, aí em seguida ele canta: “Mas tu também liberdade terás / pra quando quiseres / bater a porta sem olhar pra trás”. É uma letra muito à frente do seu tempo, um samba moderno. Essa é a mentalidade dele. Ele tem uma série de sambas feito para a mulher cantar em primeira pessoa, que a Aracy de Almeida e a Odete Amaral gravaram, elas que eram libertárias para a época. As letras diziam que, se o marido fosse embora não tinha problema, porque ela arranjava outra pessoa. Tem um outro samba em que um cara faz uma proposta e a personagem diz não, que prefere o Salgueiro. O Wilson era muito livre de cabeça, ele não seguia os preconceitos da época. No samba “Chinelo Velho”, a mulher não está nem aí se o cara vai embora. Isso é único em sua época. Em “Boca de Siri”, a personagem narra a farra dela no carnaval, e pede que não contem ao marido. São meio Leila Diniz. Há casos, como Emília, em que ele dá tratamento machista, sim, aí há uma dualidade!”

Desenhista de personagens

“Em termos de composição, Wilson vem da geração do Geraldo Pereira, que trouxe a síncope ao samba mais de bossa, sem aquela preocupação com a métrica, com a rima, algo mais livre. Seus sambas são os tocados em gafieira, facilitam o quebrado. Quando comecei a mexer na obra do Wilson logo me impressionei como ele criava os seus personagens e levava isso às últimas consequências. Já no primeiro verso de “Oh, Seu Oscar” aparecem três personagens: o seu Oscar chegando em casa, a vizinha que traz o bilhete da esposa, e a esposa. Tudo é muito teatral, e usei isso ao criar o musical em sua homenagem. A Etelvina, de “Acertei No Milhar”, é outra, de vários sambas teatrais. Ele usava personagens várias vezes, mudava o nome, mas mantinha o tipo. Alguns sambas são quase minioperetas. O Chico Brito, a Nega Luzia…”

Mais sambas que Ary Barroso

“Ele produzia muitos sambas, era muito fértil. Da geração dele, só Haroldo Lobo (“Tristeza, por favor, vá embora / minh’alma que chora / está vendo o meu fim”) chega perto. Wilson fez 720 músicas e teve sucesso maior nos anos 1940 e 1950, vencia concursos de carnaval e figurava em jornais e revistas. É claro que o Wilson vendeu muita música (ele chamava os seus parceiros de ocasião de “comprositores”). Mesmo sem incluir as vendidas, levando em conta só as gravadas, são mais de 400 músicas, é muito expressivo. O Ary Barroso, que tem lançamento agora de uma caixa com toda a sua discografia, chega a 200 e poucas. Você vê, Wilson tem quase o dobro do Ary, que é dos mais férteis. Isso por si só não é vantagem, podia ser uma obra extensa e sem qualidade. Não é o caso do Wilson. Quando produzi o livro “Cancioneiro de Wilson Baptista”, foi um suplício me limitar a 105 músicas, o que já é bastante. Ficaram fora umas 40 composições maravilhosas. O curioso é que sua geração criou as primeiras sociedades dos músicos, que cuida dos seus direitos; ele, inclusive. Mas era paradoxal, ele dizia que o estômago é o pior inimigo do compositor. Não tinha tempo de esperar que a música tocasse, gerasse um direito e só então recebesse. Ele vivia daquilo. Então, no desespero, vendia. Fazia a composição no bar e, se alguém tivesse o dinheiro, na hora ele repassava. A vida inteira foi assim.”

Sucesso no Estado Novo

“Wilson teve alguns sucessos nos anos 1930, no período da polêmica com Noel, mas bombou mesmo a partir de 1940, quando venceu o primeiro concurso de música popular promovido pelo Estado Novo, pelo DIP mesmo. Ele venceu com “Oh! Seu Oscar”, parceria com Ataulfo Alves, os dois cantaram na final no estádio do América F.C., na Tijuca. Os cantores se inscreviam no DIP e ensaiavam lá mesmo, no estúdio da seção de rádio. Foi uma apresentação estelar, estavam lá Francisco Alves, Aracy de Almeida, Orlando Silva, Sylvio Caldas, Lucinha Batista – e o Cyro Monteiro, que tinha gravado “Oh! Seu Oscar”, estava viajando. Eram 15 contos de réis de prêmio, uma dinheirama. Isso abriu a porteira para o Wilson, embora não aparecesse muito no rádio e na imprensa. Se fosse hoje seria algo avassalador, um meme. Mas foi muito grande a quantidade de gente escrevendo crônicas sobre “Oh! Seu Oscar”, falando no personagem. Até Graciano Ramos escreveu no jornal, a intelectualidade toda, pró e contra, mas falavam. Virou uma febre na imprensa, inventaram piadas, foi um sucesso. No ano seguinte do concurso teve o “Bonde De São Januário”, também parceria de Ataulfo com Wilson e cantado pelo Cyro, outro grande sucesso. Aproveitaram aquela coisa do discurso do Getúlio Vargas no Estado Novo e fizeram o elogio ao trabalho: quem trabalha é quem tem razão, propaganda da ideologia vigente. Não era samba encomendado. Como fez muito sucesso o primeiro ano do concurso e o prêmio foi grande, no ano seguinte criou-se uma expectativa e o pessoal do Café Nice, a turma do Wilson, os compositores urbanos, Ataulfo Alves, Roberto Martins, Lamartine Babo, Haroldo Lobo, Assis Valente, inscreveram sambas. Grandes compositores da época fizeram samba falando do trabalho de olho no rico dinheiro. E concorriam com três ou quatro músicas, faziam parcerias diversas e, na verdade, eram todos amigos e concorrentes. Com o tempo, a repressão caiu sobre as casas de jogos, os bordeis, e a Lapa entrou em decadência. Acho que se não tivesse a censura do DIP, o Wilson teria ido muito além.”

Wilson perdeu o bonde do resgate

“Alguns compositores do passado chegaram até nós também porque tiveram a sorte de contar com quem cuidasse da memória. O Wilson não teve isso. Morreu esquecido em 1968, a obra dele estava bastante abandonada, e tem muita gente que associa Wilson apenas à polêmica com Noel Rosa. Ele perdeu o bonde do resgate. Hoje todos sabem quem é Cartola, Nelson Cavaquinho, Adoniran Barbosa, porque foram resgatados. Cartola só gravou As Rosas não Falam e O Mundo é um Moinho nos anos 1970. Se tivesse morrido ali pelos anos 1960, talvez corresse o risco de não ser resgatado. Wilson, se tivesse vivido mais 10 anos (morreu com 55 anos), com certeza teria gravado discos, feito shows e seria um nome mais presente. No fim, entendendo tudo isso, tornou-se amargo, revoltado, foi ficando para trás, não era mais gravado e passou a ter problemas de saúde. Tinha o coração aumentado, cardiomiopatia dilatada, com falta de ar, taquicardia, náuseas. Estava sem grana, preocupado com o aluguel. E aí foi ficando mais recluso e morreu pobre.”

 

N. R.: Wilson Baptista faleceu em 7 de julho de 1968, por problemas cardíacos. Pobre e doente teve os últimos anos de vida difíceis. Mesmo assim, manteve seu bom humor, ao declarar, na véspera de sua morte: “Se eu soubesse que ia morrer teria vendido todo meu repertório e ia me acabar em Paris com mulheres bonitas.”

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