Galeria dos Bambas: Zé Kéti

O cantor e compositor José Flores de Jesus nasceu no Rio de Janeiro, no dia 6 de outubro de 1921. A presença da música é marcante no ambiente familiar de sua infância. O pai, o marinheiro Josué Vale de Jesus, toca cavaquinho e seu avô, João Dionísio de Santana, é flautista e pianista. Em sua casa são frequentes as rodas de choros, com presença de músicos como Cândido (Índio) das Neves e Pixinguinha.

Em 1924, com a morte do pai, passa a morar com o avô. Além do interesse pela música, na infância, ganha um apelido, Zé Quieto, que é encurtado para Zé Quéti, e, grafado com um K, torna-se o nome artístico.

Aos 13 anos, quando mora no subúrbio de Piedade, é levado por Geraldo Cunha, compositor da Estação Primeira de Mangueira, para assistir aos ensaios da escola de samba. É esse o seu primeiro contato com a música do morro.

Zé Kéti compõe suas primeiras canções na década de 1930, como a marchinha Se o Feio Adoecesse, mas esbarra nas dificuldades para conseguir gravá-las.

Em 1939, é levado por Luís Soberano ao Café Nice, na época o ponto de convergência da vida artística do Rio de Janeiro. Lá conhece Lúcio Batista, Francisco Alves e Geraldo Pereira, estabelecendo uma série de contatos que são fundamentais para sua carreira.

Sua escolaridade limita-se ao curso primário. Ainda muito jovem, trabalha numa fábrica de calçados, até atingir a idade do alistamento militar. Com o envolvimento do Brasil na Segunda Guerra Mundial, Zé Kéti se transfere, em 1940, para a Polícia Militar (PM), no intuito de não ser chamado para a guerra.

Contudo, não deixa de frequentar a noite carioca e compor para diferentes escolas de samba. Quando sai da PM, emprega-se em uma gráfica, mas a vida boêmia ocasiona constantes atrasos no trabalho e, consequentemente, sua demissão.

Em 1946, Zé Kéti trabalha em parceria com Felisberto Martins, o então diretor artístico da Odeon, com quem compõe Tio Sam no Samba, que é gravado na própria Odeon pelo grupo Vocalistas Tropicais e rende algum dinheiro aos seus autores.

Nesse mesmo ano, Ciro Monteiro grava o samba Vivo Bem, resultado de uma parceria de Zé Kéti com Ari Monteiro, que, embora não tenha sido um grande sucesso, tem certo êxito de vendagem.

Frequentador assíduo da noite carioca, Zé Kéti chega a compor para diferentes escolas de samba, como a Mangueira, a União de Vaz Lobo e a Portela. Contudo, depois que chega à Portela, com o samba Jequitibá, vira um portelense apaixonado pela escola, para a qual compõe diversas músicas como Portela Feliz, que se torna uma espécie de hino.

Entretanto, em 1950, magoado com as fofocas em torno da autoria de alguns dos seus sambas, Zé Kéti se afasta da Portela para retornar somente na década de 1960. Passa a compor para a União de Vaz Lobo, na qual fica menos de dois anos. Tempo curto, mas suficiente para compor Amor Passageiro, um grande sucesso do Carnaval de 1952 que é gravado por Linda Batista.

Billy Blanco, Odete Lara, Dorival Caymmi (sentado), Zé Kéti, Tom Jobim e Cartola no Zicartola

No início dos anos 1950, compõe o samba que se torna um dos seus maiores sucessos, A Voz do Morro. A música é gravada pelo cantor Jorge Goulart, em 1955, com arranjo de Radamés Gnattali. Esse samba é seguidamente regravado por variados intérpretes, como César Guerra-Peixe, em 1960, Demônios da Garoa, em 1961, Elis Regina e Jair Rodrigues, em 1965, Luiz Melodia, em 1978, e pelo próprio autor, em 1971.

Em 1955, Nelson Pereira dos Santos começa a rodar o filme Rio 40 Graus, e Zé Kéti, amigo pessoal do cineasta, é convidado a trabalhar como assistente de câmera, mas também contribui com canções que são incorporadas à trilha sonora do filme, como Leviana, Rio, Zona Norte, Malvadeza Durão e Foi Ela, além de A Voz do Morro. E participa de outras produções cinematográficas tais como O Boca de Ouro (1962), também de Nelson Pereira; A Falecida (1965), de Leon Hirszman; e A Grande Cidade (1966), de Carlos Diegues.

Ligado ao cinema novo, à bossa nova e ao Centro Popular de Cultura da União Nacional de Estudantes (CPC/UNE), Zé Kéti compõe com Carlos Lyra o Samba da Legalidade, pela posse do presidente da República, João Goulart, só gravado por Nara Leão em 1965, no disco O Canto Livre de Nara.

Surge no Rio de Janeiro o Zicartola, em 1963. O bar inaugurado por Cartola e sua esposa, Zica, é um ponto de encontro dos artistas cariocas nesse início dos anos 1960. Zé Kéti é um representante do samba tradicional do morro carioca e uma referência para os músicos que vêm da bossa nova, como Nara Leão e Carlos Lyra.

Das conversas entre os frequentadores do bar, surge a ideia de realização de uma apresentação musical. O resultado é a peça Opinião, de autoria de Oduvaldo Vianna Filho, Ferreira Gullar e Armando Costa, nomeada a partir do samba homônimo de Zé Kéti, que estreia no ano de 1964 em um pequeno teatro de Copacabana, com direção de Augusto Boal e participação de João do Vale, Ruy Guerra, Nara Leão, Carlos Lyra, Edu Lobo, Gianfrancesco Guarnieri e Maria Bethânia (que substituiu Nara Leão quando ela adoeceu).

Nara Leão, Zé Kéti e João do Vale no musical “Opinião”, em 1964

Nesse espetáculo, ele lança Diz que Fui por Aí (com Hortêncio Rocha), Acender as Velas e o samba que dá nome à peça, Opinião. As duas composições são gravadas por Nara Leão e, posteriormente, regravadas por diversos intérpretes, como Jair Rodrigues e Elis Regina.

Embalado pelo sucesso da peça e valendo-se dos contatos que estabeleceu no restaurante Zicartola, Zé Kéti organiza uma coletânea dos melhores intérpretes e sambas do morro pela Musidisc. Também apresenta diversos amigos do Zicartola para Luiz Bittencourt (então diretor artístico da gravadora).

É sob sua influência que Nescarzinho do Salgueiro, Jair do Cavaquinho, Oscar Bigode (da Portela), Zé Cruz e Nelson Sargento (da Mangueira), Élton Medeiros (da Aprendizes de Lucas) e Paulinho da Viola formam o grupo A Voz do Morro, que seria futuramente premiado tanto no Rio de Janeiro como em São Paulo, pelo disco Roda de Samba, lançado em 1965. Esse mesmo conjunto, mais Nelson Sargento, grava ainda dois LPs.

No Carnaval de 1967, com Hildebrando Pereira Matos, compõe a marcha-rancho Máscara Negra. Além de ser um dos maiores êxitos de sua carreira, essa marcha é uma das mais populares do gênero, com gravações de Dalva de Oliveira, Jair Rodrigues, The Fevers, Eduardo Dusek, Elza Soares e Maria Rita.

Apesar do sucesso que obtém no decorrer de sua carreira, Zé Kéti nunca chega a conquistar com sua arte a estabilidade econômica. Suas composições que relatam o cotidiano nos morros cariocas, a malandragem e os amores, assumem com o passar do tempo um tom melancólico e fatalista, a exemplo do samba Não Sou Feliz e O Meu Pecado, ambas em parceria com Nelson Cavaquinho.

Zé Kéti faleceu aos 78 anos, na manhã do dia 14 de novembro de 1999, vítima de parada cardíaca, no hospital da Venerável Ordem Terceira da Penitência, na Tijuca (zona norte do Rio), onde estava internado desde 25 de outubro.

Nos últimos anos, com a saúde debilitada, o compositor pouco saía de casa, em Inhaúma, zona norte do Rio. Hipertenso, com sinais de arteriosclerose, ele passava o dia vendo televisão.

“Ele só saía de casa ultimamente para receber alguma homenagem”, disse uma das filhas, Geisa, 36. Segundo ela, o pai ficava muito contente quando isso acontecia. “A saúde dele até melhorava.”

A última vez que foi homenageado, no dia 20 de setembro, ele e o compositor Guilherme de Brito foram as estrelas de uma roda de samba organizada pelo clube Lagoinha, em Santa Teresa (centro do Rio). Em 1998, ele ganhou o Prêmio Shell de música.

Pai de cinco filhos, Zé Kéti, morava com a filha Geisa. Depois de passar dez anos em São Paulo, ele voltou para o Rio por insistência dos filhos. “Ele não podia mais morar sozinho lá”, disse Geisa.

Segundo a filha, recentemente ele ficara muito feliz ao saber que seria homenageado no próximo Carnaval pela escola de samba Boêmios de Inhaúma, do terceiro grupo carioca. A escola desfilaria no ano seguinte com o enredo “Os Bambas de Inhaúma” – uma referência a ele e a Pixinguinha, outro ilustre morador do bairro.

Segundo Geisa, o pai tinha “verdadeira adoração” pelos companheiros Carlos Cachaça, Clementina de Jesus, Pixinguinha e Ivone Lara. Muito abalado com a perda de Carlos Cachaça, há dois meses, o compositor vinha questionando a morte. “Por que ela existe?”, perguntava.

Cerca de 150 pessoas compareceram ao velório do compositor na capela Santa de Cássia, no cemitério de Inhaúma (zona norte), onde foi enterrado no mesmo dia, às 16h40. Durante o velório, o caixão foi coberto com a bandeira azul e branca da sua escola de samba, a Portela.

Na cerimônia, parentes, amigos e compositores da velha-guarda da Portela cantaram emocionados sucessos do compositor. Acompanharam o enterro o cineasta Nelson Pereira dos Santos e os compositores Zé Renato, Jards Macalé, Nelson Sargento, Walter Alfaiate e Noca da Portela. Zé Kéti foi enterrado ao som de sua composição Voz do Morro.

O cantor e compositor deixou uma obra que é referência para muitos artistas, como Nara Leão, uma de suas principais intérpretes, e foi homenageado por Fernanda Takai, vocalista do grupo pop Pato Fu, em 2007, com a gravação de Diz que Fui por Aí.

Em 2007, o selo Biscoito Fino lançou o DVD Zé Kéti, gravação do programa Ensaio, com a participação do artista em 1991, com direção de Fernando Faro e exibido na TV Cultura.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here