Gil, Fernanda e Munduruku: sangue “novo” na ABL?

Por Mouzar Benedito

Tenho sido questionado por amigos (não sei porquê, não tenho nada a ver com isso) sobre a entrada de Fernanda Montenegro e Gilberto Gil na Academia Brasileira de Letras, e a possibilidade muito forte de Daniel Munduruku também vir a fazer para dessa turma de “imortais”.

Lembrei-me então de um texto sobre puxa-sacos e afins, comentando vários tipos de puxa-saquismos, no Blog da Boitempo em 2017, e incluí nele duas listas de nomes.

Eis aí as duas listas:

Lima Barreto, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Rubem Fonseca, Dalton Trevisan, Clarice Lispector, Vinícius de Moraes, Mário Quintana, Antônio Cândido de Mello e Souza, Autran Dourado, Érico Veríssimo, Sérgio Buarque de Hollanda, Paulo Leminski, Graciliano Ramos e Caio Prado Júnior.

Getúlio Vargas, General Aurélio de Lyra Tavares, José Sarney, Marco Maciel, Lauro Müller (político catarinense), Merval Pereira, Roberto Marinho, Assis Chateaubriand, Ivo Pitanguy e Santos Dummont.

Uma delas é de pessoas que fizeram ou fazem parte da Academia de Letras (ABL). A outra é de quem não faz nem fez parte da turma dos imortais. Fácil de identificar, não? Pois garanto que muitos erraram. A lista 2 é que é dos “imortais” da Academia. Dela fazem parte também algumas pessoas de quem muitos não gostam, mas queiramos ou não se justificam por terem escrito livros, como Paulo Coelho (com muito sucesso de público) e Fernando Henrique Cardoso. E claro, não coloquei nela, de propósito, nomes de grandes escritores como o do próprio fundador da Academia, Machado de Assis.

A lista 1 é de quem não fez parte dela. Em qual tem mais escritores de verdade?

O puxa-saquismo teve momentos gloriosos na ABL, como esses, incorporando entre os “imortais” gente que não tem nada a ver com literatura, mas são ou foram poderosos.

Fora isso, teve acontecimentos interessantes, como agraciar com a Medalha Machado de Assis (a maior honraria da instituição) os então flamenguistas Ronaldinho Gaúcho (jogador), Vanderley Luxemburgo (técnico) e Patrícia Amorim (presidente do clube). A entrega foi feita cerimoniosamente pelo presidente da ABL, Marcos Vilaça.

Bom, agora temos umas pessoas muito simbólicas entrando na Academia, inclusive Gilberto Gil que colocou na capa de um disco dos tempos do Tropicalismo, em 1968, uma foto vestido com o fardão da Academia e uma expressão gozadora.

Querer entrar ou não numa Academia de Letras é uma questão pessoal de cada um. Sempre torci o nariz para isso (e mesmo que não torcesse, logicamente não teria vez numa delas), mas conheço gente boa que acha isso importante.

Já estive numa Academia de Letras…

A primeira vez que pus os pés numa atividade relativa a isso foi na posse da escritora Ruth Guimarães, na Academia Paulista de Letras. Foi um evento muito legal, com o auditório cheio de gente que reconhecia a sua genialidade. Aera uma excelente pessoa, mãe de escritores também, e foi um reconhecimento dela como grande escritora, negra, intelectual de não dever nada a ninguém. Foi uma festa grandiosa, que teve música ao vivo, do Quarteto Pererê, em sua homenagem. Não me arrependi de ir lá.

Depois entrei na Academia Paulista de Letras mais uma vez, para lançamento de um livro publicado pela União Brasileira de Escritores em que tinha uma crônica minha. E foi só. Ah… Lembrei-me de uma reunião com membros da Academia Tocantinense de Letras, em Palmas, que também gostei muito.

O que Gil e Fernanda vão fazer lá?

O questionamento em relação a Fernanda Montenegro e Gilberto Gil é que não são conhecidos como escritores. Mas cá entre nós, são pessoas letradas, cultas, humanistas, e honram qualquer grupo de que façam parte. E mais ainda uma entidade como essa, que ficou durante muito tempo conhecida como um grupo cuja grande função na vida era tomar um chá da tarde conversando abobrinhas eruditas. Se era isso ou não, não sei. Mas era a fama.

E era uma fama antiga. Já em 1916 Aparício Torelly (que depois se autointitularia Barão de Itararé) lançou um livro de poemas chamado Pontas de Cigarro e com esse livro gozava na Academia Brasileira de Letras, onde se reuniam os “imortais”, dizendo que já era acadêmico (de medicina) e que não precisava entrar na Academia de Letras para virar imortal, coisa que ele já era, pois “não tenho onde cair morto”.

Aliás, a Academia Brasileira de Letras (ABL) continuou sendo em sua vida toda um alvo especial das suas estocadas. Bem mais tarde, na década de 1940, ele criticava o fato da ABL ter quarenta cadeiras, ou seja, lugar para apenas quarenta “imortais”. Para um outro escritor tornar-se imortal, era preciso esperar um imortal se contradizer e morrer. E nessa brincadeira lembrava que o número de cadeiras da ABL coincidia com o número da Câmara dos Quarenta, organização que dirigia a Ação Integralista Brasileira (entidade fascista liderada por Plínio Salgado). Por que quarenta?, perguntava ele. Então, defendia que a ABL devia ser igual ônibus: quarenta lugares sentados e sessenta em pé. Quando um imortal sentado batia as botas, outro ocupava sua cadeira.

Enfim, teoricamente não faz diferença para o Brasil quem entra ou não entra na ABL, mas quem sabe com sangue “novo” de uma atriz muito talentosa de mais de 90 anos e um compositor quase oitentão cujas letras são pura poesia (para mim, Domingo no Parque é uma obra-prima, e ele teve muitas outras, como Lunik 9, Procissão etc.). Acredito que Gil e Fernanda podem ajudar a arejar a ABL, procurar um sentido para ela que vá além de tornar seus membros “imortais”. São pessoas criativas, cultas e humanistas, como já disse, e duvido que topem ficar ali só enfeitando a instituição.

E para considerar Gilberto Gil como merecedor de entrar na ABL basta compará-lo (ui!, dei uma de Temer aqui) a um dos seus antecessores na cadeira que ocupará, o general Lyra Tavares, que não sei se escreveu alguma coisa, mas é lembrado como um dos membros da junta militar que tomou a presidência da República quando Costa e Silva ficou entrevado. Em vez de darem posse ao vice-presidente civil, Pedro Aleixo, os três ministros militares (do Exército, da Marinha e da Aeronáutica) tomaram o poder de assalto, para eleger o sanguinário Garrastazu Médici depois. Aliás, essa junta ficou conhecida na época como “os três patetas”. Olha, mil vezes Gilberto Gil!

E Daniel Munduruku?

Tá aí outro provável “imortal” muito simbólico. Pela primeira vez, um escritor indígena que escreve sobre a cultura do seu povo vai estar lá, sendo reconhecido como grande autor. No mínimo, isso tende a valorizar nossos povos originais, pois acredito que ele não irá se comportar como colonizado lá. De jeito nenhum.

Então, eu, que nunca levei a ABL a sério, vejo a perspectiva de uma melhora da imagem dela.

Só queria lembrar uma coisa de Daniel Munduruku, autor de mais de 50 livros. Tenho uma birra pessoal com ele, por causa de um livro que escrevi, ilustrado pelo Ohi, e lançado pela Editora Melhoramentos em 2014. O livro, uma espécie de “dicionário” (não bem isso, mas quase…) de tupi-português para crianças mas legível por adultos, teria como título “Palavra de Índio”, tendo nessa expressão uma intenção de valorizar a cultura indígena.

Antes do livro ser publicado, fomos procurados para mudar o título, pois Daniel Munduruku, que era consultor da editora para assuntos relacionados à cultura indígena, não admitia o uso da palavra “índio”. Tinha que mudar para indígena. Mas “Palavra de Indígena” perderia toda a força. Mudamos para “Paca, tatu, cutia… – glossário ilustrado de tupi”.

Certo, indígena vem do latim e significa mais ou menos “nascido no lugar onde habita”, enquanto índio foi um termo dado pelos colonizadores, que achavam que tinham chegado à Índia. Então, hoje em dia virou pejorativo. Mas pouca gente sabe diferenciar uma palavra da outra, quase todo mundo pensa que a origem das duas é a mesma.

Além disso, o adjetivo ligado a uma palavra pode mudar radicalmente, dependendo da atitude de quem é denominado com ela. Lembro do termo vietcong, cunhado por militares gringos e seus aliados direitistas do Vietnã, que tinha a intenção de ofender os guerrilheiros. Significava mais ou menos “vermelhinhos do vietnamitas” ou “comunistas vietnamitas” e essa denominação visava criar horror a eles, pois a direita de lá não era muito diferente dos bolsonaristas daqui. E vejam que vietcong se tornou sinônimo de herói, de vitorioso, de combatente firme…

E para concluir, o motivo da minha birra pessoal com Daniel Munduruku, que nos impediu de pôr no livro o título que queríamos: depois do lançamento, comprei uns livros infantis escritos por ele… e ele usava direto a palavra índio.

Pois é, mas minha birra pessoal não invalida o simbolismo e o valor de sua escolha, que provavelmente acontecerá. Tomara!

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