“Impor limites ao humor é uma piada sem graça”, diz Adão Iturrusgarai

Por Edson Aran

Adão Iturrusgarai é um cara à frente do seu tempo. E o tempo vai atrás dele, encoxando, hehehe.

Ok, vamos tentar de novo. A sério agora.

Adão Iturrusgarai é um cara à frente do seu tempo. Muito antes que cowboys gay subissem a montanha Brokeback pra fazer sacanagem no mato, ele já havia criado os incríveis Rocky e Hudson, que em breve terão sua própria série de animação no Canal Brasil.

E muito antes que alguém traduzisse toscamente a palavra “empowered” para “empoderada”, ele já havia criado a Aline, uma mulher liberada e… vá, lá… empoderada com dois namorados, Otto e Pedro. A tira ficou tão famosa que virou série na Globo em 2009.

Além de tudo isso, Adão foi o “D’Artagnan” do mitológico “Los Três Amigos”, aquele bando que reunia o Angeli, Glauco e Larte e que é responsável por revolucionar o humor gráfico brasileiro.

Dono de um traço caligráfico, rápido e, mais do que tudo isso, engraçado, Adão vai do sublime ao infame em segundos (e isso é um elogio).

Esperto, nunca mexeu com essa nojeira de política e preferiu se dedicar ao humor de comportamento e à sacanagem, que é muito melhor.

Essa entrevista faz parte da série “O HUMOR NOS TEMPOS DA CÓLERA”, que tem como objetivo debater como é fazer graça num mundo onde todo mundo patrulha todo mundo o tempo todo. Essas entrevistas serão depois reunidas num livro histórico e histérico sobre o humor nesses anos bestas.

Agora chega de nhenhenhem e vamos receber com uma salva de palmas, o cartunista argentino mais engraçado do Brasil: ADÃO ITURRUSGARAI!

Adão, que viadagem é essa de virar pintor? Humor não dá dinheiro?

Nada dá mais dinheiro do que humor no Brasil, só prostituição, tráfico de drogas e política. Bom, tem futebol também… Além dos quadrinhos de humor, sempre dei umas pintadas. Mas o resultado nunca me agradou. Retomei há uns dois anos e comecei, de brincadeira, a postar as imagens das minhas “fine arts” (ui!) nas redes sociais e o retorno foi bacana, as pessoas curtiam e elogiavam. Começaram a perguntar se eu queria vender. Achei que era trote, até que um cara da Suíça me encomendou cinco pinturas. Fiquei meio cabreiro de ser enganado, de enviar as pinturas e o cara não depositar a grana. O cliente também estava com o pé atrás. Então eu propus “dividirmos a confiança”. O cara me transferiu a metade da grana e a outra metade chegou quando ele recebeu as obras. Nunca imaginei que existisse atividade mais prazerosa do que fazer quadrinhos… Talvez só transar e usar drogas pesadas.

Por falar em “viadagem”, você já suprimiu essa palavra do seu vocabulário?

Lembro que estava escrevendo um esquete pra Globo e me recomendaram trocar “viado” por “bicha”. Então descobri que “bicha” é um termo mais fofo. Acho que depende do tom. Tenho amigos gays que não se incomodam nem um pouco. Até fiz uma série dos cowboys gays Rocky & Hudson, meio autobiográfica, onde um cartunista faz piadas homofóbicas. Ele usa gírias do tipo “arrombado” e “invertido”. Estas eu suprimi, até porque os gays hoje em dia são fortões…

O que você acha dessa coisa de tornar algumas palavras “proibidas”? Isso limita o humor?

Acho que pode limitar sim. Mas eu pessoalmente não me sinto mais limitado. Fui me adaptando aos novos tempos, porque por outro lado o mundo evolui – ou involui – mas sempre vai mudando. O humor muda também. Me surpreendo quando revejo meus desenhos lá de trás. Como tive a coragem de fazer essa piada? Que coisa machista. Que coisa grotesca. Que piada ruim. E por aí vai. Mas na internet eu publico quase tudo o que quero.

Stanislaw Ponte Preta inventou uma expressão ótima para descrever o surrealismo que é o Brasil: “O samba do crioulo doido”. Mas o Brasil está tão surrealista que não se pode usar mais a expressão “samba do crioulo doido”. O que você pensa disso?

Agora tem que ser “o samba do afro-americano portador de deficiência mental”. Acho um exagero, mas tem que perguntar para um negro para saber o que ele acha da expressão. É igual ao que respondi antes sobre “viado”. Depende do tom. Só não gosto de proibições porque humor não mata.

Você deixou o Brasil pra viver na Argentina. Quem é mais chato, brasileiro ou argentino?

Quando cheguei na argentina em 2006, achava o argentino chato com o negócio da polarização. Metade era kirchnerista e a outra metade era anti-kirchnerista. Isso me chamava a atenção porque no Brasil não tinha isso. Nosso negócio era sair, beber, transar e usar drogas pesadas. Mas uns cinco anos mais tarde, o Brasil copiou a Argentina e agora estamos iguais. O Brasil tem essa de sempre copiar o pior. Mas eu adoro a Argentina e o argentino adora o Brasil e o brasileiro. Na maioria das vezes, quando digo que sou brasileiro, os caras me tratam super-bem e falam que adoram a nossa capital, Camboriú. Só evito falar de religião, digo, falar de Maradona.

Olhando de longe, a Argentina parece ter o mesmo dilema do Brasil, sempre dividida entre o populismo e o autoritarismo. É isso mesmo?

Somos todos América Latina, mas ao mesmo tempo é muito diferente por causa desse pé na Europa que eles têm. Eles se sentem como um país no lugar errado, um lance meio esquizofrênico. Talvez por isso tenham tantos psicanalistas em Buenos Aires. No Brasil sabemos que somos chinelões mesmo. Agora, na Argentina, o abismo social não é tão grande. Quando vou a uma cervejaria artesanal, encontro o frentista que me atende, meu eletricista, a caixa de supermercado. No Brasil, não… essas pessoas são humilhadas.

Você acompanha o humor argentino?

O humor e o quadrinho são muito bons. Enquanto a gente engatinhava, eles já eram profissas como os europeus. Aqui tem o Liniers, o Tute, Gustavo Sala, Carlos Nine, Sabat, Christ, Fontanarossa. É uma lista muito grande. Curiosamente tem um cartunista que todos odeiam, sem exceção: o Nik. Dizem que o Quino já desistiu de debate quando ficou sabendo que o Nik estava na mesa. Ninguém gosta dele. Ele faz um personagem muito famoso aqui chamado Gaturro.

Gaturro, do cartunista argentino Nik

Por quê ninguém gosta do Nik? O Gaturro é um personagem fofo…

Ele fazia uns cartuns falando mal da Cristina Kirschner, mas o que pega mesmo é que ele faz plágio de todo mundo, até do Quino. Acho até meio burrice plagiar um cara tão célebre.

Mas vamos pro embate, pra polêmica: o humor argentino é melhor que o humor brasileiro?

Acho que não dá pra comparar. O humor argentino é muito bom e eles sempre tiveram uma tradição e profissionalismo fodástico. Mas acho que eles não tiveram essa turma de SP, da “Circo”, que revolucionou o humor no Brasil: Angeli, Laerte, Glauco, Luiz Gê. Sem falar do “Pasquim” e do Millôr, para mim o cara mais inteligente do mundo de todos os tempos. Não dá para comparar. E tem essa gurizada nova no Brasil que está botando pra quebrar. Que estão nessas feiras – Parada Gráfica, Ugra, Feira Plana. Você vê muita ousadia e genialidade brotando.

Você tem uma clara influência do Wolinski no seu traço. Você conheceu o cara?

Conheci o trabalho do Wolinski na década de 80 em um antigo álbum da L&PM. Pirei. Acho que, junto com Angeli, ele foi a coisa mais importante para mim e pro meu trabalho. O Wolinski era perfeito: humor, desenho, tudo. Quando morei em Paris no começa da década de 90, cheguei a bater ponto, debaixo da neve, em frente da editora dele, a Albin Michel. Mas nunca tive a sorte de o encontrar. Encontrei várias vezes foi o Gilbert Shelton [dos Freak Brothers]. Gente finíssima, tenho contato com ele até hoje. Mas só fui conhecer o Wolinski pessoalmente no Rio de Janeiro, em um festival internacional de quadrinhos. Entreguei uma revista minha a ele e me respondeu: “Isso me interessa, posso ficar com ela?” Logo depois encontrei o cara num bar, que estava cheio de desenhistas que participavam do encontro. Ele parecia entediado, levantou-se de repente e disse: “Com licença, vou procurar umas putas” (risos). Wolinski era um gênio. Seu trabalho tinha uma coisa muito doce e leve. O cenário das minhas tiras “la vie en rose”, do personagem em um precipício, é chupado de um desenhinho dele.

Desenho do cartunista francês Georges Wolinski

O que sentiu quando o Wolinski foi assassinado naquele atentado terrorista ao “Charlie Hebdo”?

Eu estava de férias com minha família na Patagônia. Estava me preparando pra enviar a tira e alguém tuitou sobre o atentado. Começaram a pipocar as noticias. Charb, Cabu, Tignous, começaram a surgir os nomes de quem tinha morrido. Quando chegou a vez do Wolinski, achei que era só uma piadinha de mau gosto. Era verdade. Pra você ter uma ideia, até aquele dia eu nunca tinha chorado por causa da morte de ninguém. Era um pai meu morrendo. Pior é que ele nem mexia com Maomé e religião, o lance dele era comportamento.

Mas, vem cá, você faria uma charge do Maomé mesmo correndo o risco de levar uma fatwa no meio da fuça?

Bom, eu tenho uma boa desculpa pra não desenhar o Maomé: não faz parte da minha cultura, não me interessa. Fico com as charges de Jesus porque os católicos ainda reagem de forma mais pacífica. Fui criado em família super-católica no interior do Rio Grande do Sul… Então cresci vendo a hipocrisia toda, mas fico feliz que eles nunca tenham reprimido as barbaridades que eu desenhava. Lembro que uma vez estava na casa da minha avó num domingo à tarde, família toda reunida, fui à biblioteca e, entre uma Barsa e umas trezentas Bíblias, encontrei um livro sobre a vida sexual dos gregos. Fui à cozinha dizendo “olha o livro da vovó” e comecei a recitar: “os gregos acreditavam que o homem é homem pela frente e mulher por trás”, “o efebo de Calígula tinha o apelido de jumento por causa de seus preciosos dotes”. Todos caíram na gargalhada e minha avó dizia: “Adãozinho, pode ficar com o livro…”. Acho incrível a coragem dos caras do “Charlie Hebdo”, mas entre uma fatwa e uma esfiha fico com a esfiha.

Humor tem que ter limite? Religião é um limite?

Religião não pode ser limite pro humor. Religião não pode ter todo esse poder. Humor não mata, mas religião mata, né? Além de ser um negócio xarope pra cacete. Uma coisa que devia unir as pessoas, os povos, as culturas, e só faz jorrar tanto sangue. Acho que é má interpretação dos livros. Analfabetismo funcional mata.

Tá, mas vamos falar desse lance do limite. Há algum limite ou o humor pode tudo?

Não creio em limites. Limitar humor é uma piada, uma piada sem graça. Humor é uma válvula de escape, uma explosão, se você cercar, limitar, cercear o humor, a coisa explode pra outro lado. E acaba explodindo em forma de bomba. Tenho um amigo que teve câncer e uma vez me consultou para fazer um site de humor chamado “Tumor Negro” contando causos dos colegas de clínica dele. É um jeito de extravasar. O Angeli me contou sobre uma vez, quando eles faziam um caderno semanal de humor na Folha, lá no final dos anos 70, que eles escolhiam um tema toda semana. E uma semana resolveram fazer sobre cadeirantes. Ficaram temerosos, mas mandaram bala. E aí receberam uma carta elogiosa do presidente d e uma associação de cadeirantes lá do nordeste. O cara dizia que pela primeira vez estavam tratando eles como “seres humanos normais”. Cadeirante também é humano, porra. Não sei se a historia é verdadeira ou se o Angeli só queria justificar o humor escroto dele…. Mas veja o trabalho do Vuillemin… as atrocidades que ele desenha… não respeita nada, nem holocausto, nem porta-bandeira da paz mundial… mas ele desenha atrocidades que já existem, ele não inventou nada. O ser humano é um animal muito escroto e não cabe ao humor melhorá-lo. Não vou perder meu tempo com isso.

Philippe Vuillemin abusando do direito de ser escroto

Você é religioso? No que você acredita?

Se eu soubesse responder a esta pergunta, estaria milionário. Prefiro o suspense. Minha mãe diz que de que adianta reencarnação se a gente não lembra nada da vida anterior? Acho que somos como o Stephen Hawking diz: apagamos e ponto final, igual computador. Talvez daqui uns bilhões de anos aconteça um acidente, uma camisinha furada, uma tabelinha mal calculada e você volte. Mas uma coisa me intriga: de onde veio esta porra toda? O Big Bang não me convence na totalidade. Quem criou Deus?

Essa é fácil: foi o Millôr.

Cara, das pessoas geniais que conheci, de longe, o Millôr foi a que mais me surpreendeu. Foi o cara mais inteligente do mundo. Em 2000, o Chico Caruso me convidou para um jantar no Márius Crustáceos ali no Leme, no Rio de Janeiro. Para a minha sorte, o Millôr sentou bem ao meu lado. Tentei trocar umas palavras com ele, mas me esnobou me chamando, de forma polida e culta, de “surfista ignorante”. Na época eu pegava umas ondas. Depois de tomar umas doses de uísque puro, subiu na mesa e começou a declamar poesia. Mas foi bacana, foi diferente, não foi brega. Depois ele começou a falar da “solidão intelectual do ser humano”, que o cérebro era um órgão pra lá de complexo com seus bilhões de neurônios, conexões, sinapses e que por isso o ser humano estava condenado à solidão intelectual. “E é por isso que tudo isto que eu estou falando agora ou vocês estão entendendo outra coisa ou não estão entendendo nada!”, ele falava. Millôr foi um gênio.

Millôr é a esperança de que o Brasil ainda pode dar certo. Mas eu quero voltar no lance do humor, dos limites do humor, porque esse é o tema geral das entrevistas. O Laerte falou, numa entrevista ao Dráusio Varella, que todo humor é ideológico. Mas, em tese, a ideologia do humor não é ridicularizar todas as ideologias? Não é ficar acima delas?

Olha, pode ser que o Laerte esteja certo e que todo humor seja ideológico. Mas talvez ridicularizar todas as ideologias também seja uma ideologia. Acho que dá pra pairar acima das ideologias e, de vez em quando, alfinetar aquilo que você acha mais ridículo. As ideologias as vezes ficam parecidas com as religiões. Eu peguei o finalzinho da ditadura militar. E estava no interior do Rio Grande do Sul, não me dei conta de nada. O bicho pegava mais nas capitais, o provinciano seguia sua vida resignado. Mas com uns 13 anos comecei a ler algumas coisas do “Pasquim” e comprei uma camiseta do Che Guevara. Juro que nem sabia quem era o cara, mesmo assim a vestia com o maior orgulho, como se fosse a camiseta do Messi. Me filiei ao PT, mas nunca militei. Aos 17, comecei Publicidade e Propaganda na PUC-RS e virei comunista. Eu acreditava no comunismo e sua proposta de igualdade e achava óbvio que todas as pessoas inteligentes fossem comunistas. Meu comunismo ruiu quando meus colegas mais velhos, meus ídolos na faculdade, começaram a falar mal dos regimes comunistas. Então eu deixei de ser comunista e virei macrobiótico, mas isso é outro papo.

Antigamente, todo mundo que fazia humor era de esquerda. Mas de uns tempos pra cá, tenho percebido um humor gráfico de direita por aí. Tem uns cartunistas fazendo charges sobre “globalismo” e “marxismo cultural”. Você também notou isso? Que cazzo aconteceu?

Vou responder, Aran, mas confesso que política não é a minha especialidade. Quase sempre quando comento sobre política nas redes, me arrependo depois e acabo deletando os posts. Mas é verdade: no meu tempo de juventude cartunística, todos os meus colegas eram de esquerda, comunistas, socialistas etc. Mas o cartum não tem bandeira, então acho normal que surja humor de todas as cores. É que nos anos 70 todos estavam alinhados com as ideias da esquerda, não foi uma coisa do cartum ou do humor, foi da politica mesmo. Eu trabalhei pro Olivio Dutra da primeira gestão do PT no Rio Grande do Sul. Cara batuta, por sinal, que inclusive questiona muito a “nhaca” do partido. Ele mesmo usou essa expressão. O governo do Olívio era capitalista como todos os outros, mas com um viés de esquerda, ações sociais, ajuda aos mais pobres, essas coisas. O governo do Lula foi um pouco isso também. Não teve nenhum governo no Brasil radical como o Hugo Chávez, graças a deus. Comentei tudo isso pra tentar responder a tua pergunta, porquê a noção do que é esquerda mudou muito no Brasil. A galera percebeu que a esquerda não era tão esquerda, que tinha muitos pontos em comum com a direita. Lula governou com o agronegócio, com a igreja, com os bancos, então muita gente ficou decepcionada. Isso rolou na Franca também quando o François Mitterrand se elegeu. Enfim, política é o meu fraco e não sei que cazzo aconteceu. Acho que os grandes grupos econômicos estão financiando cartunistas fascistas. Deve ser isso. (risos)

Você é o criador do Rocky e Hudson, que são os primeiros personagens de quadrinhos gays do mundo – ou pelo menos do Brasil, já que antes tinha o Batman e o Robin. Como foi a aceitação?

Eles surgiram por volta de 1986 quando eu morava em Porto Alegre. Na época eu era subeditor da revista “Megazine Quadrinhos” e foi ali que eles estrearam. Primeiro pensei em fazer uma dubla de gaúchos gays, mas como eu já tinha planos de ir pra São Paulo e escolhi fazer uma coisa mais global. Então veio a ideia de um casal de cowboys. Na época, o ator Rock Hudson estava morrendo de Aids e vieram os rumores de que ele seria gay. Aids naquela época era chamada de “câncer gay”, né? Daí veio o nome. Sempre estranhei os filmes de faroeste. Só tinha homem na parada! Fica difícil manter a linha, ninguém é de ferro… Mas peraí, Batman e Robin nunca saíram do armário. Ou saíram?

Rocky e Hudson, os cowboys gay do Adão Iturrusgarai

Eles bem que tentam, mas a sociedade não deixa. Você soube da história do Multishow? O canal censurou uma piada do Chapolin Colorado que fazia uma menção a esse lance gay dos dois. A personagem perguntava se só tinha o Chapolin para socorrê-la e ele respondia “é que o Batman está em lua-de-mel com o Robin”, algo assim. E aí trocaram pra “o pneu do batmóvel furou. Disseram que a piada era homofóbica. Falar que o Batman está em lua-de-mel com o Robin é homofobia?

Ao contrário. Censurar essa piada é que foi um ato homofóbico. Uma vez fui à Pelotas pra dar uma palestra… dar só a palestra, que fique bem claro… e disse que tinha trabalhado alguns meses escrevendo esquetes pro “Casseta & Planeta”. No fundo da plateia, um tiozinho falou: “O que você tem a dizer sobre o quadro que fizeram esculachando gaúcho e chamando pelotense de gay?” Aí respondi pro sujeito: “E qual é o problema de ter gay na cidade? Pior se chamassem Pelotas de ‘cidade de corruptos’, não?”

Então, é o que eu acho também. O cara é um super-herói e é gay. E daí? Ninguém tem nada a ver com a vida dupla dele. Mas voltando ao Rocky e Hudson, o jeito que o público vê os personagens mudou de 86 pra cá?

Mudou muita coisa daquela época para hoje. O humor de Rocky e Hudson também mudou porque eu mudei. A recepção aos personagens sempre foi legal, inclusive com público gay. E são meus personagens mais traduzidos… tem em espanhol, francês, inglês, alemão e italiano, foram editados pela “Diabolo Ediciones” de Madrid. E agora a Otto Desenhos Animados está produzindo 13 episódios com eles para o Canal Brasil. Quando saiu “Brokeback Mountain”, eu subitamente virei uma “celebridade mundial”. Sério, vieram até jornais gringos me entrevistar. Esses cowboys vão ser minha aposentadoria!

Você também inventou a Aline, que já era empoderada muito antes que alguém resolvesse traduzir toscamente a palavra “empowered” pro português. Isso te dá passe livre com as feministas?

Uma mina da USP fez uma tese sobre a Aline criticando o meu trabalho com a personagem, dizendo que Aline era uma espécie de “machismo travestido de feminismo”. Uma vez uma feminista me achincalhou num bar da Vila Madalena por causa de uma frase da Aline : “Receita para ser feliz: pensar menos e dar mais”. É duro, viu, Aran. Você cria uma personagem esperta pra caralho, resolvida sexualmente, que tem dois maridos – esses, sim, são os idiotas – , que transa com outros e tal e ainda te chamam de machista. É foda, mano.

Aline e seus dois namorados, criação de Adão Iturrusgarai

Muito dos seus cartuns são agressivamente sexuais e até pornográficos. Muita gente te enche o saco com isso? Ou ninguém liga?

Ninguém liga mais, snif, snif. Faço quadrinho de sacanagem para encher o saco mesmo. É aquela coisa de criança de desenhar pinto no caderno, no quadro negro, na parede. Enchem mais o saco quando você ultrapassa o limite do politicamente correto. A putaria por si só não escandaliza mais. Quer putaria maior do que a política? Agora, prefiro emprestar minha graça à putaria de verdade e ao humor de comportamento do que à política. Acho que a política tira um pouco do brilho da coisa e acaba ofuscando o resto: os cartuns, as pinturas.

Qual seu cartum mais polêmico até hoje?

Tem um que fiz para a revista “Dundum” em 1990. Era na época mais punk da Aids. O sujeito, bem magro e com cara de doente, sentado na privada diz: “estou com febre alta e diarreia, deve ter sido aquele cu que eu comi o ano passado…”

Eu me lembro disso. Até onde sei, é a única piada engraçada sobre Aids feita do mundo…

Eu acho ótimo esse cartum e ele é lembrado até hoje. Lembrado pelo meu público que tá cagando pro politicamente correto. Gente saudável, digamos… Mas tem um outro que publiquei logo depois do atentado ao “Charlie Hebdo”: Jesus Cristo ressuscita, da um rolê no deserto, vê uma peregrina gostosa passar e começa a bater uma punheta. Aí ele aproveita o buraco do prego na mão para enfiar o pau. Publiquei este no Face e é claro que ele não foi bem recebido pelos religiosos de plantão.

Você pinta quadro, faz livro digital, faz livro em papel, faz blog, faz newsletter. Com tudo isso, dá pra viver bem de humor ou ainda é perrengue?

Desde 2000 que eu não quebro e isso é uma glória para qualquer brazuca que vive de humor, arte e assemelhados. Tenho um emprego fixo na Folha de São Paulo desde 1996, vendo uns quadros, tem os direitos de livros, palestras, eventos… é uma torneira goteando. Na nossa profissão é assim, vai somando e até agora estou bem. Estou seguro que tenho muita sorte e um pouco de talento. Quando mudei pra Argentina, o real valia um montão. Comprei uma casa, investi em outras coisas. No final do governo da Cristina Kirshner, o dólar no paralelo subiu 70% e, de um dia pro outro, acordei 70% mais rico. De repente, eu tinha um salário de diretor de multinacional. Mas eu sou exceção. A maioria dos meus colegas anda mal, o mercado tá cada vez pior, editoras e jornais fechando. Bem triste… Se eu tivesse continuado no Rio, tenho certeza que teria torrado minha grana. Eu aí na hora certa, em 2006.

Quando Laerte virou mulher, qual foi sua reação? Ficou puto ou falou: “Oba, mais uma gata no pedaço!”?

(Risos) Não me surpreendi com a mudança, afinal convivi muito com o Laerte em São Paulo de 1993 até 2000. Éramos unha e carne. Unhas pintadas e carne. Então vi a “metamorfose” aos poucos. Só não vi a parte mais radical, crossdresser porque já estava na Argentina. A gente ia nas lojas de roupas e enquanto eu procurava roupa de macho, cueca, camiseta, o Laerte voltava da seção feminina com umas calcinhas rosa: “Adão, você acha que essa vai ficar bem em mim?” Esse negocio de calcinha sempre achei meio incômodo. O pau, ok, você direciona para baixo e enfia pra trás, pode até fazer o famigerado cadeado chinês, que é comer a si mesmo. Mas o que fazer com as bolas?

Não sei, talvez botar uma de cada lado… mas continua a história do Laerte, faz favor…

Então… em 2000, o Laerte abriu o jogo pela primeira vez numa entrevista para a “Caros Amigos”: “Não sou completamente heterossexual” era a chamada de capa. Achei a frase ótima, bem a cara do Laerte. Por ue o Laerte é superculto, educado e cool. Você solta um peidão fedorento perto dele e ele, em vez de dizer, “Puta merda, seu porco, vai peidar longe daqui, caralho!”, ele diz “Nossa, que odor forte…” (risos). Eu já estava na Argentina quando o Laerte tinha virado ‘a” Laerte, crossdressado total. A primeira vez que saí com ele vestido de mulher, transformado, foi em Porto Alegre, por volta de 2010, em um festival de literatura. Fiquei apreensivo, achei que íamos tomar um cacete dos gaúchos machistas e homofóbicos. Que nada… ele estava famoso e todos o cumprimentavam: taxista, frentista, flanelinha, garçom. Quase pedi ele em casamento.

Cartum do Adão

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