José Saramago: Na ilha dos vulcões

Por José Castello

A maldição que silenciou José Saramago durante trinta anos, fazendo-o crer que jamais se tornaria um escritor, apesar de já ter um romance publicado (Terra do pecado, de 1947), não foi na verdade uma praga, mas um exercício de sabedoria – tese que ele, sempre realista e desconfiado, se apressa em desmentir. Mas a literatura tem o seu tempo de gestação, que varia de caso a caso, não podendo ser medido nem pela lista dos livros publicados nem pelo sucesso.

Depois de silenciar durante três décadas, Saramago ressurgiu para a ficção em 1977, com a novela Manual de pintura e caligrafia, que publicou quando já estava com cinquenta e cinco anos de idade, mas que escreveu, como ele mesmo diz, “como se estivesse com vinte”. Ficou quase vinte anos – de 1947 a 1966, ano em que começou a rascunhar alguns poemas – sem produzir uma só linha, e nos dez anos seguintes, mesmo tendo voltado a escrever, ainda não ousava se dedicar à ficção, que lhe daria o Prêmio Nobel de Literatura em 1998.

Mesmo quando publicou o Manual de pintura e caligrafia, Saramago ainda não se sentia inteiramente seguro de se declarar um escritor. No ano seguinte, ele publicaria um livro de contos, Objeto quase, mas só se entregou de fato à literatura a partir de 1980, com o lançamento da novela Levantado do chão, livro em que, pela primeira vez, segundo sua própria descrição, começou a “olhar para dentro”. Estava, então, com cinquenta e oito anos de idade. Entre Terra do pecado, seu primeiro romance, e Levantado do chão, há um intervalo de trinta e três anos de silêncio. Para um ateu declarado, o número trinta e três não deixa de ser perturbador.

A longa gestação de Saramago se deu, em parte, na imprensa: durante muitos anos, ele trabalhou como jornalista profissional, período no qual lançou dois livros de crônicas (Deste mundo e do outro, de 71, e A bagagem do viajante, de 77), reuniões de textos circunstanciais publicados em jornais portugueses entre 1969 e 1971; a eles se seguiram duas coletâneas de comentários políticos, As opiniões que o DL teve, de 74, e Os apontamentos, de 76, isso sem falar em três livros de poesia e uma peça de teatro, lançados a intervalos regulares de cerca de cinco anos, a partir de 1966.

Seus projetos de ficção, é verdade, não se limitavam à experiência, que considera malsucedida, com Terra do pecado: ao longo do ano de 1949, Saramago chegou a escrever um segundo romance, Clarabóia, que nunca publicou e cujos originais reapareceram quarenta anos depois, mofando como lixo desprezível, nos arquivos de uma editora portuguesa.

Só em 1975, ao ser demitido por razões políticos do cargo de diretor adjunto do Diário de Notícias de Lisboa, ele tomou o que considera a mais importante decisão de sua vida: resolveu não procurar outro emprego, para se dedicar, dessa vez em tempo integral, à atividade de escritor, iniciando logo depois o projeto do Manual de pintura e caligrafia. “Só perto dos cinquenta e cinco anos de idade, optei realmente pela literatura”, avaliou mais tarde, já instalado na cifra impressionante de mais de um milhão de exemplares vendidos.

Antes de adotar a identidade de escritor, Saramago trabalhou também como serralheiro mecânico, foi burocrata em um sindicato, esteve nos arquivos de uma companhia de seguros, além de ter se empregado numa editora e exercido, por fim, e de modo bastante acanhado, a crítica literária; durante todo esse tempo, como simpatizante do Partido Comunista Português, esteve engajado também na militância política, que a rigor jamais abandonou.

O percurso até a literatura, apesar desse longo recuo depois do primeiro livro e dos volteios barrocos que o sucederam, parece não só coerente, mas até mesmo simétrico à personalidade prudente do escritor. Tem, avaliado a distância, a aparência de uma longa maturação, sem a qual, quem sabe, toda uma vocação se perderia, ou se desperdiçaria em obras menores; e não deve ser tomado, por isso mesmo, como um infortúnio, mas como um exercício de prudência. Ao renegar essa tese, Saramago prefere pôr em seu lugar a ação, sempre incoerente, do acaso e das circunstâncias, que considera as matérias-primas da existência.

Em 1990, o secretário-geral do Partido Comunista Português, Álvaro Cunhal, teve que se submeter a uma cirurgia de altíssimo risco. Temendo não sobreviver à operação, hipótese que os médicos julgavam nada desprezível, Cunhal redigiu algumas cartas de despedida que deveriam ser enviadas, no caso de sua morte, a alguns de seus melhores amigos. Uma delas, que para sorte de seu autor jamais foi entregue, estava destinada a José Saramago. Depois de uma cirurgia bem-sucedida, Cunhal decidiu revelar a Saramago, um dia, o conteúdo da carta que lhe escrevera: nela, dizia-se tranquilo para partir, porque estava seguro de que o amigo jamais deixaria de ser o que era.

Esse é um sentimento bastante comum, que os amigos do escritor dividem com alívio: o de que, haja o que houver, jamais deixarão de reconhecer José Saramago, pois ele é um homem que nunca trai a si mesmo. O exemplo mais forte, que não agrada nem um pouco a grande parte de seus admiradores, está em sua fidelidade à ideologia comunista. Militante de esquerda durante os anos da guerra fria, até hoje, mesmo depois da queda do Muro de Berlim e da fragmentação da União Soviética, e do consequente desprestígio do marxismo, Saramago continua, sem hesitar, a se declarar comunista, atributo que muitos julgam incompatível com a literatura complexa que pratica. O escritor acredita que, se há um momento decisivo na vida de um homem, é aquele em que ele aceita o que é, dá essa questão por resolvida e deixa então de se trair. “Um dia, eu me dei conta de que o melhor para mim era ser o que era”, diz. Nesse momento, em que admitiu seus limites e compreendeu que só lhe restava ceder a eles, deixou de desejar o impossível. “A única ambição que tenho desde então é de continuar onde estou”, diz.

Foi esse homem sólido, seguro de suas qualidades e defeitos, centrado em si e imune a qualquer tentação de mudança, que, no ano de 1996, me recebeu num fim de tarde vermelho em Las Tias, um pequeno povoado de Lanzarote, nas Ilhas Canárias, onde passava a viver. Enquanto me preparava para visita-lo, tratei de pôr em dia a leitura de seus romances. Certo dia, porém, lendo a transcrição dos debates de um seminário de que Saramago participara em Madri, em 93, esbarrei com a seguinte reflexão: “Não há mais histórias a contar. Não tem muita importância a história que se conta. O que tem importância é a pessoa que está dentro do livro; no caso de um romance, o autor.” Então, mesmo admirando os livros de Saramago, entendi que precisava ir além deles e chegar ao homem que há dentro dos livros. A declaração do escritor, na verdade, vinha ao encontro de tudo o que eu sempre pensara; só que agora eu não estava pensando sozinho, e que companhia podia exibir aos que discordassem de mim…

Ainda posso vê-lo sentado a meu lado, na ampla sala, respondendo em voz baixa e quase indiferente a cada uma de minhas questões, com uma paciência solene, sem esconder a exaustão de ouvir perguntas que levam sempre às mesmas respostas, o que em seu caso é inevitável, porque Saramago é um homem de espírito reto, nem um pouco preocupado em ser original. Nos três dias que passo em Lanzarote, ele me recebe para uma série cansativa de quatro entrevistas. Quando chego pela primeira vez, no fim da tarde de uma sexta-feira, Saramago me saúda com paciência, mas também desconfiança, e posso entender que está inquieto com a possibilidade de que minhas perguntas apenas repitam o script de outras entrevistas e que, assim, ele se veja obrigado a repisar o mesmo estoque de respostas enfadonhas.

Esse é, também, o grande medo que carrego: o da repetição, que, para qualquer jornalista, é o melhor sinônimo de fracasso. Durante o vôo de Madri a Arrecife, mergulhado na ansiedade de aterrissar naquele ninho de vulcões que é Lanzarote, eu tomara uma decisão: me apoiaria naquela que julgava ser a melhor estratégia para uma entrevista, para qualquer entrevista: deixar-me guiar pelas palavras de Saramago, sem nada desejar, sem pedir coisa alguma, sem nada presumir. Levava em minha pasta um caderno cheio de anotações, uma vasta lista de perguntas – como o rol de banalidades de alguém que, sereno, vai às compras sabendo exatamente o que quer – e algumas dúvidas fundamentais, motivadas pela leitura de seus romances. De repente, elas me parecem inúteis. Não quero entrevistar o homem que julgo conhecer; preparo-me, ao contrário, para a surpresa e o susto.

E à medida que o avião se aproxima da ilha, ainda um pouco desnorteado, decido que, antes de qualquer outra coisa, devo aprender a me calar. Primeira regra: ouvir. Segunda regra: só formular perguntas inspiradas pelo que me for dito. A grande regra: seguir o caminho aberto pelas palavras de meu entrevistado sem jamais me desviar, sem permitir que meu desejo, minha curiosidade, minha ansiedade – minha intolerância – interfiram no que ouço. Será possível chegar a isso? Bem, mesmo que não seja, é o que estou disposto a tentar.

A aeromoça me oferece um lanche formal, sem novidades, que se parece com uma metáfora das perguntas previsíveis que levo na cabeça. Os passageiros, diante de uma turbulência mais forte, empertigam-se, suam frio, escondem-se sob as páginas abertas de seus jornais, cuja leitura apenas simulam. Há um protocolo sob cujas regras a vida diária vigora, com normas que se estendem, sem que se possa controla-las. A mim, o repórter, elas também não deixam escapar. E, por instantes, tenho a sensação conhecida de que já fiz aquela viagem, de que já entrevistei Saramago (estivera com ele de fato uma única vez, durante quarenta minutos, num hotel do Rio de Janeiro), de que já sei o que ele vai responder e também o que irei escrever a partir do que ele vier a dizer.

A idéia me horroriza, porque tira o sentido do que me preparo para viver; quero fugir dela, mas não posso; e no entanto ela parece ser inerente à prática do jornalismo, ofício que, mesmo obcecado pela novidade, ainda assim não consegue se livrar da repetição. Já no hotel, atravesso a noite mergulhado em anotações e me dedico à leitura de ensaios, resenhas, comentários de críticos eminentes; mas quando mais leio, mais me convenço de que devo esquecer tudo.

José Saramago, porém, é um entrevistado hábil, e depois que começamos a conversar, tudo parece mais fácil. Ele mesmo se encarrega de desatar as respostas, faz digressões surpreendentes, antecipa-se a minhas dúvidas, resolvendo-as antes mesmo que eu seja capaz de formulá-las. Abre caminhos pelos quais minha curiosidade escoa e sugere, indiretamente, sem me ferir, sem parecer que interfere, uma nova questão a cada vez. Eu o interrompo, instigo-o a falar, e tenho a sensação de comandar nossa conversa, mas logo fica claro que, ainda que seja eu quem formula as perguntas, é ele quem dá as cartas e controla as regras do jogo. Mas sua segurança, em vez de me perturbar, me alivia.

Pilar, sua jovem mulher, porta-se, ela sim, com discrição absoluta. Depois de me receber com as amabilidades de praxe, desaparece na primeira oportunidade, alegando afazeres domésticos. Quando peço que pose para uma fotografia ao lado do marido, desculpa-se com o argumento de uma gripe que a abatera e torcera suas feições, o que parece sensato e feminino. A verdade é que também eu sou um repórter prudente. Pilar me pede que reserve a última chapa para que ela possa me fotografar ao lado de Saramago. Adotando como minha sua timidez, finjo-me de esquecido. A foto não é feita, e eu sei que ela me compreende, mas depois, e preciso confessar, eu me arrependo. Também Saramago se equilibra numa tensão entre a vaidade e o desejo de negar a vaidade. Entre a gentileza e os limites indispensáveis para a proteção de sua vida privada. Entre as luzes do sucesso e as sombras da intimidade que luta para preservar.

Passamos o sábado e o domingo juntos. No fim da tarde de sábado, gentil, ele me leva a uma breve excursão pelo Parque Nacional de Timanfaya, o centro das grandes erupções vulcânicas que sacudiram Lanzarote no século XVIII e onde se erguem, num espeço de cem quilômetros quadrados, as Montanhas de Fogo, com temperaturas que chegam aos quatrocentos graus centígrados. Saramago vai à frente, descabelado mas nem um pouco ofegante, enquanto eu, que podia ser seu filho, me arrasto vergonhosamente um pouco atrás. O vento parece irreal, fazendo a paisagem ondular e nos obrigando a apertar os olhos. No topo do mirante da Montanha Rajada, a trezentos e cinquenta metros de altura, tomamos em silêncio duas garrafas de mineral. O que se vê dali parece parte de outro mundo. E talvez seja.

Lanzarote se parece mesmo com um pedaço da Lua, ou talvez de Marte, que tivesse despencado, intacto, sobre o Atlântico. Uma jangada de lavas, pedras negras, vulcões aparentemente congelados e cactos de linhas vanguardistas, a duas horas e meia, de jato, de Madri. Entre 1730 e 1736, ela foi sacudida por uma longa série de explosões vulcânicas; hoje, um terço de seu território está coberto por vulcões, que se abrem em pelo menos quinhentas crateras e se espalham em um terreno pedregoso, desenhado no magma, que faz lembrar um planeta inóspito.

É uma ilha de fogo, negra e sem vegetação, pontuada apenas por uma variedade espantosa de cactos, que se espalham entre casas brancas ao estilo grego, hotéis sofisticados e um fluxo intenso de turistas europeus. O arquipélago das Canárias é composto, ao todo de sete ilhas; Lanzarote, com seus oitocentos e cinco quilômetros quadrados, é a mais oriental, e também a mais estranha e dramática. Vermelha e tingida por focos contínuos de fumaça, ela tem uma paisagem, pode-se dizer infernal – comparação medíocre que, envergonhado, Saramago se sente obrigado a fazer e de que é impossível mesmo escapar.

A casa que Saramago construiu para viver em Lanzarote (ele a chama assim mesmo, “A casa”, conforme placa fixada à entrada) está erguida em uma encosta íngreme e devassa o oceano azul. Há uma varanda espanhola, um escritório atravessado pelo sol, uma imensa biblioteca no subsolo, uma piscina coberta em que Saramago, nos fins de tarde, e sempre acompanhado da mulher, a jornalista espanhola Pilar del Río, pratica a natação.

O casal tem a companhia de três cachorros (Greta, Pepe e Camões) que apareceram-na casa, sem que se pudesse saber de onde vieram, e ali ficaram. Em quase todos os livros do escritor, cães vadios e tristes perambulam pela narrativa; Saramago não se espanta que apareçam, quase sem que ele os tenha chamado, e acredita que carregam a parte irracional do homem. “Os cães são os animais que estão mais próximos de se humanizar.” E, vendo-o entre seus três cachorros, não se pode duvidar disso.

Saramago se mudou para Lanzarote não só em busca de paz, mas também para se defender de um dos piores sentimentos do homem: a intolerância. A história é conhecida. Quando lançou o romance O evangelho segundo Jesus Cristo, de 1991, o escritor teve sérios problemas com os segmentos mais conservadores da sociedade portuguesa. Em 93, a candidatura do livro ao prestigiado Prêmio Europeu de Cultura, de que era um dos favoritos, foi vetada pelo governo de Portugal, que considerou que o romance vinha “ferir a crença dos portugueses”.

A perseguição dos católicos portugueses a Saramago tomava, ali, dimensões insuportáveis, e ele, decepcionado, decidiu abandonar imediatamente o país. Em Lanzarote, ilha situada a pouco mais de cem milhas marítimas da África, na mesma latitude solar das Bahamas e da Flórida, e bem diante do deserto do Saara, ele terminou por encontrar, na paisagem cálida e silenciosa, o cenário perfeito para um escritor, o que não deixa de ser uma vingança do destino contra os que o perseguiram.

Mas a dor provocada pela intolerância não se apagou de todo. Ainda que se declare ateu, Saramago se reconhece moldado pelo que chama de “cristianismo ambiente”, e por isso se sentiu não só autorizado mas também estimulado a escrever o seu Evangelho. Nunca recebeu educação religiosa, nem passou por qualquer tipo de crise espiritual e não acredita, em definitivo, em Deus, mas nada disso diminui o peso da tradição cristã em sua formação.

O primeiro livro que Saramago comprou em sua vida, já aos vinte anos, tratava, não por acaso, da história das religiões. Seu interesse pelos temas religiosos é apontado, por cristãos mais radicais, como um sintoma, mal disfarçado, de inquietação espiritual; mas ele despreza essa interpretação, por considerar que ela exclui o mais importante: o fato de que, cristões ou não, os portugueses são todos formados dentro de uma cultura cristã, e disso não há como fugir.

Como um bom marxista, Saramago põe, no lugar da fé, a razão. “Somos vítimas de não usarmos a razão que temos”, diz. Em seu polêmico romance, ele vê Jesus Cristo não como um deus, mas como um homem que mal suportava a lenda construída em torno de seu nome. E justamente porque não pode se comportar como deus, Jesus começa a sofrer. É desse sofrimento, inerente à condição humana, que a obra de Saramago trata desde o início. Foi o pessimismo, exacerbado durante o período em que trabalhou como jornalista, que o conduziu para a literatura.

A obra de Saramago, em consequência, não pode ser entendida sem que levemos em conta sua experiência na imprensa, que se traduz na relação tensa que o escritor tem com as palavras, sempre insuficientes, por mais que ele as torneie, para dar conta do humano. Entre 1969 e 1972, Saramago escreveu crônicas para vários jornais portuguesas, em particular para o A Capital, de Lisboa, e para o Jornal do Fundão, da Beira. Não voltaria mais ao gênero, que parece apressado demais para uma escrita tão cheia de contorções.

Em 1972, ele se tornou editorialista do Diário de Lisboa, um vespertino que já não existe, escrevendo comentários de fundo, que jamais assinou. Eles eram publicados na coluna “Opinião” e foram reunidos, mais tarde, no livro As opiniões que o DL teve, de 1974. Em 1975, pouco tempo depois da Revolução dos Cravos, não podia imaginar que, aceitando o prestigiado cargo de diretor adjunto do Diário de Notícias, levaria sua vocação jornalística a um impasse. Escreveu a partir daí uma longa série de artigos inflamados, que tratavam da fase agitada que sucedeu à revolução, marcada por golpes, contragolpes e conspirações palacianas. Em 1990, esses artigos foram reunidos no volume Crônicas políticas.

No período de dezenove anos que vai de 1947 a 1966, afora Clarabóia, o romance que jamais publicou ou publicará, Saramago não produziu uma só linha. O fracasso de Clarabóia lhe trouxe a convicção íntima de que a literatura não tinha realmente importância, levando-o a concluir logo depois que, na verdade, não tinha muita coisa a dizer, e só essa impressão justifica que tenha ficado os vinte anos seguintes sem escrever.

Ainda muito moço, gostava de se consolar com uma idéia: a de que aquilo que tivesse que ser seu às suas mãos haveria de chegar. “Nunca lutei para me tornar escritor”, diz. Guarda hoje a convicção de que, provavelmente, se conseguiu tudo o que tem, é porque desejou. “É como se eu tivesse chegado a um lugar sem ter caminhado até ele”, compara, numa reflexão que empresta matizes surpreendentes ao militante marxista.

E aqui José Saramago chega a uma fórmula: foram os leitores, e não os livros, que o transformaram em escritor quando descobriu que tinha leitores e uma corrente de afeto começou a se manifestar entre eles. Livros sem leitores não existem, são apenas um amontoado de papel. “Não sou desses que escrevem sem pensar no leitor”, afirma.

Saramago diz não compreender o ponto de vista daqueles que escrevem pensando na posteridade, e não no presente, erro a seu ver muito perigoso, já que ninguém pode ter certeza de que a posteridade vai, de fato, se interessar por aquilo que hoje se faz. Se não tivesse a esperança de que seus contemporâneos se interessariam pelo que escreve, não conseguiria escrever; a idéia da posteridade, por si, não lhe traria nenhum tipo de consolo. É assim que Saramago gosta de se ver: como um homem que está preso a seu tempo. E prisão não é bem a palavra, já que foi a consciência do tempo que lhe permitiu ser o que é.

Durante os anos em que abandonou a literatura, Saramago se dedicou só a ganhar a vida. E lia, lia muito. Tinha o sentimento de que o romance publicado em 1947 era um episódio isolado, que se esgotara em si mesmo, algo sem qualquer chance de continuação. “Eu me sentia um leitor, não um escritor”, recorda. “Vivia sem nenhuma angústia, sem sofrer pelo fato de não escrever.”

Acha estranho, e até um pouco ridículo, quando dizem que, nesse período de abstinência, ele se dedicava a “acumular experiência”, como se pudesse saber o que o futuro lhe reservava. Jamais teve a sensação de que não escrevia porque esperava o momento adequado para isso. “Acontece que nunca dramatizei minha vida”, diz. “Nunca fiz dela algo dramático, ou muito interessante.” Vivia discretamente, com toda a normalidade, e gostava que as coisas se passassem assim. A partir de 1966, ano em que publica Os poemas possíveis, e sem que possa explicar a razão, volta a escrever. “Se houve uma ação, foi uma ação através da inércia”, define. E aqui Saramago, o fatalista, reaparece.

Depois de abandonar o jornalismo, José Saramago parecia, se o vissem de fora, em um beco sem saída. Entre 1976 e 1980, viveu sem emprego e sem salário, desamparado nas sombras do novo cenário da política portuguesa, que parecia caminhar para trás, e não para a frente, como a Revolução dos Cravos tinha prometido. Para sobreviver, ele fazia traduções do francês, a única língua estrangeira em que se sentia um pouco seguro.

Ainda em 1976, porém, decidiu viajar até o Alentejo, onde passou uma temporada de alguns meses entre os trabalhadores do campo de Montemor-o-Novo, empenhado em um projeto indefinido de pesquisa que viria a resultar, mais tarde, no romance Levantado do chão, de 1980. “Minha opção pela literatura foi, também, um ato de vontade”, diz, já confrontado com os fatos que ele mesmo relata. Ao desistir do jornalismo, Saramago parecia sentir que um outro destino se aproximava e, sem fazer qualquer esforço para acelerar os acontecimentos, se pôs simplesmente a esperar.

A verdade é que, tivesse continuado no posto de diretor adjunto do Diário de Notícias, ou tivesse o processo político prosseguido na direção inicial, que apontava mais para a esquerda, tivesse a realidade sido outra, enfim, Saramago não teria se dedicado à literatura. O mais provável é que, entregue a seus ideais políticos, continuasse a cumprir as obrigações de jornalista e militante, deixando a literatura para depois, ou seja, para nunca mais. “Talvez, nos intervalos, eu escrevesse algo”, cogita. “Mas o certo é que não teria escrito Levantado do chão, porque, para escrever esse livro, eu teria ir ao Alentejo, e não teria tido tempo para ir.”

Sua experiência com a literatura reforça nele a certeza (um tanto surpreendente para um comunista) de que os homens estão entregues a forças obscuras, que agem à sua revelia e desprezam seus esforços. “Nós fazemos, apenas, cinco por cento de nossas vidas”, diz, conformado. “Os outros noventa e cinco são feitos por outras pessoas, pelas circunstâncias, pelos eventos externos, pelo acaso.” O que é preciso é estar no lugar certo, na hora certa, nada mais. Quando Levantado do chão chegou às livrarias lisboetas, José Saramago já era um senhor de cinquenta e oito anos. “E isso já não é mais idade para se começar um projeto tão grande”, diz, para logo se corrigir: “E no entanto é.” A experiência se reproduziu em sua vida pessoal, pois só conheceu seu terceira mulher, Pilar del Río, quando já estava com sessenta e quatro anos. O tempo não passa de uma ilusão, que é melhor desprezar.

Nesse tempo de silêncio, em que foi só um leitor, Saramago construiu suas afinidades literárias. Leu, como lê até hoje, Padre Vieira, Fernão Lopes, Almeida Garrett, Camilo Castelo Branco e, é evidente, Eça de Queirós, mas não gosta de vê-los como afinidades. “Não creio que existam afinidades bilaterais, mas sim afinidades múltiplas, fragmentadas, entre mim e muitos outros”, pensa.

Não encontra ascendências, ou relações diretas entre o que faz e o que outros fizeram; se insistirem no assunto, pensa em Vieira, um autor do século XVII que não escreveu romances, mas sermões e cartas, que, a seu ver, atingiram um grau de expressividade e beleza que não voltaram a se repetir na literatura portuguesa. “A verdade é que Vieira escreve como ninguém mais”, me diz. É só por isso, por que qualquer traço de descendência se torna impossível, que ele o cita.

Os vinte anos de silêncio o afastaram também das rodas literárias, que na verdade nunca o entusiasmaram muito. Cultivou, sim, um pequeno círculo de amigos, ligados tanto à política quanto à literatura, mas não considera que tenham chegado a formar um grupo literário. Iam ao Café Chiado, na Rua do Chiado, e mais tarde ao Café Monumental, na Praça Duque Saldanha, para beber, rir, brigar e conversar. Mas nunca pertenceu a grupos fechados, desses que se expressam em revistas, saraus e manifestos, sequela benigna, certamente, das duas décadas em que se manteve afastado da literatura.

Mesmo hoje, escritor de reputação internacional, quando deixa Lanzarote e vai passar uns dias em Lisboa, não é homem de procurar ambientes agitados. Sai, no máximo, para jantar fora, sempre nos mesmos restaurantes, onde de preferência ocupa as mesmas mesas e pede os mesmos pratos. Desde os anos 70, Saramago frequenta o restaurante Varina da Madragoa, na Rua das Madres, para comer as “pataniscas de bacalhau” e o “bife à Café”, que vem guarnecido com batatas em uma frigideira de barro, enquanto joga conversa fora com Antônio Oliveira, que não é um escritor da moda, ou um crítico eminente, mas simplesmente o dono da casa. Gosta de jantar também no O Farta Brutos, um restaurante muito antigo, no Bairro Alto, bem ao lado da Praça Luís de Camões. Quando morava em Lisboa, ia muito à Livraria Sá da Costa, no Chiado, e depois costumava passear no Jardim da Estrela. Vivesse ainda em Lisboa e, tem certeza, conservaria os mesmos hábitos.

Mas devo voltar ao princípio, pois Saramago, com seus volteios barrocos, já começa a me contaminar. Logo que começamos nossa conversa, percebo que o único tema que parece realmente entusiasmá-lo é a infância, enquanto os outros assuntos chegam a entediá-lo, como questões propostas ao homem errado. Trato, então, de estimular suas recordações.

Em Azinhaga, no Ribatejo, onde nasceu no ano de 1922, sua família, muito pobre, vivia em uma casa apertada, de apenas dois cômodos: a cozinha e a “casa de fora”, como chamavam o cômodo que dava para a rua. Tempos duros, que perduram mesmo quando a família, disposta a lutar por uma nova vida, se muda para Lisboa. Durante muitos anos, os Saramago não tinham uma casa só sua, viviam em “partes de casas”, como se dizia, residências divididas com mais duas ou três famílias, todas miseráveis. E eram obrigados a se mudar com mais frequência do que gostariam, o que acentuava neles o sentimento de vulnerabilidade e também a certeza de estarem sempre à deriva.

A primeira casa em que a família de Saramago viveu sozinha ficava no número 10 da Rua Carlos Ribeiro, na Penha de França. Ele já era, então, um rapazinho. Foi um momento inesquecível para seus pais, que pela primeira vez podiam se sentir donos de seu próprio teto. Até os vinte e poucos anos, Saramago retornou todos os anos para férias em Azinhaga. Até os trinta e tantos, voltou a Azinhaga pelo menos uma vez ao ano. “Lá estão guardadas minhas impressões fundamentais”, diz. Era toda uma relação mais crua com o mundo, que, a cada visita, recuperava: assim que chegava à aldeia, a primeira coisa que fazia era tirar os sapatos; a última coisa que fazia, antes de regressar a Lisboa, era calça-los. Os sapatos, e a ausência deles, se tornaram um sinal da fronteira entre a cidade e o campo. Na aldeia, todos andavam descalços, menos os homens que usavam suas botas de trabalho.

Foi essa, também, a época em que Saramago começou a construir sua consciência política. A região era habitada por muitos trabalhadores sem-terra, pessoas que nada tinham, a não ser sua energia. De manhã bem cedo, elas se reuniram em uma praça para aguardar os capatazes dos grandes fazendeiros, que vinham escolher homens para o trabalho do dia. Viviam no imprevisível; mesmo quando conseguiam serviço, não havia garantia de que o conservariam por muito tempo. A vida dos Saramago era, em contraste, um pouco melhor. O menino se hospedava na casa dos avós maternos, que viviam da criação de porcos. “Viviam mal, muito mal, mas viviam”, diz. Ao menos, tinham garantido o que comer.

Quase nada restou dessa Azinhaga primitiva, hoje desfigurada pela modernização agrícola.
No passado, a aldeia era rodeada de olivais, com árvores antigas de troncos largos. Elas desapareceram. “Quando voltei a Azinhaga, depois de muitos anos, senti-me como se tivessem me roubado a infância”, lamenta. Hectares e hectares de oliveiras foram derrubados para dar lugar a culturas menos românticas, porém mais lucrativas. “A aldeia não mudou tanto, foi a paisagem que mudou”, ele constata. “E essa mudança radical na paisagem foi, para mim, uma espécie de golpe no coração.”

Saramago sentiu-se de volta a um lugar desconhecido, a um passado que já não era seu. Tinham lhe roubado a história. Carregava consigo a lembrança de olivais cinzentos, escuros, a aldeia deitada na margem do rio. Nada mais existia. “Regressar a Azinhaga foi retornar a um lugar que já não era o meu”, diz, para concluir que, no fim das contas, habitamos apenas a memória. Azinhaga, agora, só existe nas lembranças de José Saramago – e é sobre esses traços de memória pessoal que a literatura se ergue. Quando à realidade, a literatura nada tem a dizer a respeito.

Saramago foi uma criança muito tímida e solitária. Solitária não porque vivesse abandonado, sozinho, pois vivia sempre rodeado de gente, mas porque estava sempre quieto. Um menino com grande necessidade de comunicação, mas que se comunicava muito mal, e sofria muito por isso. Às vezes, saía de casa pela manhã e dava longas caminhadas. Andava, andava sem parar, sem ter qualquer destino, só para fugir. “Não fui desses gênios que, aos quatro anos de idade, escreveu histórias”, diz. “Apenas via as coisas do mundo e gostava de vê-las.”

Saramago recorda que não foi uma criança de muita imaginação. Não se interessava por sonhos, por fantasias, mas pelo mundo tal qual era. “Se um sapo me aparecia, eu ficava a vê-lo, quieto, a observá-lo atentamente como o maior tesouro do mundo”, lembra. “O sapo, para mim, valia mais que uma história.” Conviveu com muitos animais, bois, porcos, carneiros, cabras, habitou-se a seus cheiros e a essa espécie de vida nada sofisticada, e muito repetitiva, que os animais levam. “Eu gostava de estar com a natureza sem abstrair dela nada mais do que ela é”, rememora, para logo depois reafirmar: “Eu não era um menino de muitas fantasias.”

Ele foi um menino magro, muito delgado e alto. Sofria de angina, a infamação das amígdalas, mas só retirou-as quando já tinha mais de vinte anos. Até se operar, teve febres intensas, que o impediam de engolir, até mesmo a saliva, e depois as inflamações se convertiam em abscessos. “Uma, duas vezes ao ano, eu caía de cama com angina”, recorda. “Foi uma coisa muito estúpida não me operarem mais cedo.”

Embora muito pálido, de aspecto doentio, ele teve uma infância comum, e por isso mesmo espantosa. “Nas histórias das crianças, todos os acontecimentos são grandes”, diz. Um banho de rio, uma pescaria, um passeio no campo, tudo se torna especial. Os grandes acontecimentos estão guardados na infância; o que vem depois são os fatos, menos surpreendentes, de uma vida que já está definida. “Mas na infância tudo o que acontece é muito importante”, insiste Saramago. “Tanto as coisas boas quanto as más, todas têm uma aparência espetacular.” É por isso que toda literatura, mesmo quando trata de temas adultos, ou até futuristas, se reporta à infância. Ela é o acervo da criação.

Aos seis anos de idade, Saramago entrou em um período muito difícil e se tornou uma criança medrosa. O medo aumentava à noite: a escuridão trazia ansiedade, e o mundo, então, parecia habitado por seres monstruosos. Não durou muito, mas foi um período muito difícil. Coincidiu com a fase em que a família viveu na Rua dos Cavaleiros, em Lisboa. O escritor só pode entender esse medo como uma reação ao fato de ter começado a ir ao cinema muito cedo. O edifício em que o cinema funcionava, no bairro da Mouraria, ainda está de pé, só que hoje é um armazém de roupas. A casa se chamava Salão Lisboa, mas toda a gente a chamava de O Piolho; Saramago não sabe dizer se de fato havia piolhos, provavelmente sim. Aquelas imagens em movimento, desde a primeira vez, o impressionaram muito.

Durante alguns meses, o menino viveu com o cinema uma relação de atração e repulsa, que o levou a um período de confusão e angústia. Até que o medo, sem qualquer explicação, desapareceu. A causa talvez tenha sido bastante trivial: a família se mudou novamente, dessa vez para o Saldanha, e ele simplesmente deixou de ir ao cinema. Foi o que bastou. “Eu tinha fobia de cinema”, define.

Saramago se recorda em particular de um filme sobre leprosos, pessoas com a aparência deformada, seres com os rostos em decomposição de quem todos fugiam. Pode lembrar também de um outro filme em que se encenava, com o devido mistério, o milagre de Lourdes. Em dado momento, aparece um tanque de água em que um enfermo é mergulhado para, logo depois, sair curado. Aquilo o impressionou muito, e ele ainda pode recordar a cena em detalhes.

Hoje, em plena velhice, Saramago acha que não tem mais medos, só repugnâncias. Aversão, por exemplo, a certos bichos. Tem, por exemplo, repulsa a aranhas. “Felizmente, aqui em Lanzarote quase não existem aranhas”, diz. No entanto, lembra-se de que, quando menino, carregava as aranhas nas mãos, chegava a brincar com elas. “Tenho aversão a ratos, e também a baratas, que são nojentas. Mas não chego a ter medos”, diz.

Motivado pela distância física da Europa, e também pela consciência de que vive os últimos anos de sua vida, o escritor passou a escrever os Cadernos de Lanzarote, diários clássicos, repartidos em datas, nos quais anota reflexões rápidas, projetos dispersos, recordações de viagens, desabafos e registra a passagem de seus raros visitantes. Ao contrário do que se pode pensar, os Cadernos não destoam da vasta obra de Saramago, que desperta nos leitores uma relação que não é habitual na literatura contemporânea, muito marcada por certo distanciamento cínico, ou certo temor dos sentimentos: a de grande intimidade.

Nas quatro ou cinco cartas que recebe por dia, seus leitores costumam se confessar, como se ele fosse um padre, ou um guru, e isso, se o constrange, também o impressiona. Foi no cenário desolado de Lanzarote que de ele escreveu ainda o Ensaio sobre a cegueira, de 1995, que é seguramente seu livro mais pessimista, e que abre com uma advertência severa: “Se podes olhar, vê. Se puderes ver, repara.”

No momento em que o visitei, em agosto do ano seguinte, ele estava empenhado na elaboração do Livro das tentações, uma espécie de autobiografia, não do adulto que se transformou no escritor conhecido em todo o planeta, mas do menino que ele foi até os catorze anos de idade, o “Zé”, ou “Zezito”, como era chamado em casa. Um menino que, em vez de pensar em literatura, tema que só surgiu pela primeira vez numa conversa entre amigos quando já tinha dezessete anos, sonhava em ser maquinista de trem – e as duas opções não deixam de se parecer, pois estão comprometidas com as idéias da viagem e da fuga.

Ao se debruçar sobre a infância, Saramago encontrou muitas passagens nebulosas, sucessão de verdadeiras armadilhas que começam com a história de seu nome. O sobrenome do pai era Sousa, e não Saramago – José de Sousa, ele se chamava. Mas em Azinhaga as famílias não eram conhecidas pelos sobrenomes de registro, e sim por alcunhas afetuosas. A família do escritor tinha a alcunha de Saramago, que é o nome de uma erva silvestre, de flores amarelas ou avermelhadas, bastante semelhante ao espinafre, que cresce pelos cantos, quase sempre esquecida.

Quando ele nasceu, o pai se dirigiu a um cartório e, no balcão, limitou-se a dizer: “Vai se chamar José, como o pai”. O empregado do registro civil, por sua conta e risco, acrescentou ao sobrenome verdadeiro, Sousa, o apelido de Saramago. Ele se tornou, então, José de Sousa Saramago, e o pai só descobriu o engano quando o menino já estava com sete anos de idade. Só em 1929, quando foi matricular o filho na escola primária e teve que apresentar a certidão de nascimento, o pai de Saramago se deu conta do engano, e se sentiu muito decepcionado porque não gostava nem um pouco da alcunha, que o fazia recordar sua origem camponesa e miserável.

Desde que se mudara para Lisboa, em 1924, o pai de Saramago não gostava que lhe recordassem os tempos duros da vida no campo. Vinha de uma família de pastores, que sobrevivia em condições muito adversas, guiando ovelhas e cabras. O pai se orgulhava porque em Lisboa o chamavam sempre de “Sr. Sousa”, nunca de “Sr. Saramago”, e essa substituição de tratamento parecia apagar o passado indesejável. Mas a certidão de nascimento do menino não foi aceita pela escola. O pai, então, não teve outra saída: viu-se obrigado a fazer um registro adicional em que atestava que ele, José de Sousa, era na verdade conhecido como José de Sousa Saramago. “Acho que sou o primeiro caso em que o filho dá o nome ao pai”, disse-me o escritor, tomado por um entusiasmo quase infantil.

Outras imprecisões e enganos tornam a infância do escritor ainda mais irreal. Segundo o registro civil, Saramago teria nascido no dia 18 de novembro, quando na verdade nasceu no dia 16. A explicação é simples: no dia de seu nascimento, o pai não estava em Azinhaga. Havia, porém, uma lei que dizia que o registro de crianças devia ser feito, no máximo, até trinta dias depois do nascimento. Como o pai só voltou de viagem dois dias depois do prazo, viu-se obrigado, para não pagar multa, a declarar que o menino tinha nascido no dia 18.

“Minha vida, de fato, começa com coisas que são e não parecem, e outras que parecem mas não são”, ele conclui. O sentido de falsificação preside, na verdade, toda a existência do escritor, em particular os longos anos que passou distante de sua vocação literária, lutando para não ser o que era; muitos anos depois, diante da paisagem artificiosa de Lanzarote, é impossível não recordar esses episódios, que afinal, são bastante coerentes com o perfil de um autor de ficções.

Reconhecido pela perícia com que trabalha com as reconstruções históricas, Saramago acha que o historiador não deve se contentar em repetir o que já foi escrito. Deve investigar o não dito e, sobretudo, o oculto, e nesse sentido seu ofício muitas vezes se confunde com o do ficcionista. É a história como investigação do oculto que o interessa, não a repetição de datas, episódios e heróis, e nesse sentido o trabalho do romancista se parece com o do historiador. Ambos tentam, cada um com os instrumentos que lhe são próprios, ou fatos, ou a imaginação, preencher vazios e remendar visões defeituosas. Um fato, muitas vezes, é apenas uma versão que se congelou. Nesse caso, cabe ao ficcionista buscar o que está por trás do fato, isto é, descongelá-lo.

Um romancista, ao contrário do historiador tradicional, pode relatar a viagem de Vasco da Gama às Índias não do ponto de vista de Vasco da Gama, o comandante poderoso, mas do ponto de vista de um simples marinheiro, e, com isso, estaria traçando uma visão suplementar da viagem. A lembrança da história das mentalidades, que trabalha com as miudezas, as intimidades e as sombras dos grandes acontecimentos, é aqui inevitável. Saramago faz questão, contudo, de deixar um alerta: o historiador pode ter tudo, menos ilusões, pois a grande história completa está para sempre perdida.

Ciente de que a história é, em grande parte dos casos, mais um efeito da imaginação que da verdade, Saramago, ao contrário do que muitos leitores imaginam, não realiza grandes pesquisas antes de escrever seus romances históricos. Primeiro, organiza uma pequena bibliografia sobre a época que vai trabalhar e a estuda um pouco. Mas essa bibliografia nunca é muito extensa, restringindo-se a três ou quatro livros fundamentais, não mais que isso. A partir daí, a pesquisa pode se tornar perigosa, pode sufocar a imaginação.

“Um romancista não deve fazer pesquisas muito longas, pois a informação excessiva só agiria contra os interesses da narrativa”, ensina. A medida adequada é, sempre, uma questão de sensibilidade, e nunca uma regra. O escritor deve saber escolher que livros de fato lhe interessam e, sobretudo, em que ponto deve parar de pesquisar e simplesmente começar a escrever. A história, para o romancista, é só um meio, jamais um fim.

E tanto a história como a literatura devem ser meio para enfrentar aquilo que, desde muito cedo, mais o atormenta: a idéia do mal. Saramago gosta de dizer que existem muitas coisas que ele não entende, mas o mal está acima de todas elas. Decifrar o mal que, ele acredita, todos carregamos dentro de nós virou uma obsessão, e foi na esperança de se livrar dela que começou a escrever. “Não creio que eu chegue a ter uma obsessão pelo mal”, ele atenua. “Mas, realmente, a existência do mal é algo que eu não compreendo, algo que me ultrapassa.”

Quando fala do mal, Saramago não lhe empresta um sentido religioso; prefere vê-lo mais como uma espécie de “fatalidade” que vem registrada em nossa espécie. Os homens tendem mais facilmente a se comportar mal do que bem. Em torno dessa questão, ele escreveu um livro, o Ensaio sobre a cegueira. Por que, sendo seres dotados de razão, comportamo-nos tão irracionalmente? Saramago não sabe que resposta dar a essa pergunta. “É uma coisa de fato chocante chegar à conclusão de que o único ser realmente cruel é o ser humano”, diz.

Ele recorda que nenhum animal, mesmo os que chamamos de ferozes, se comporta com crueldade. As feras querem apenas se alimentar, nada mais. Quando vemos uma aranha que está a envolver uma mosca com sua teia, podemos imaginar que presenciamos uma forma de tortura; mas não é tortura, a aranha está, apenas, preparando sua refeição. O animal não é cruel, porque a crueldade não é um instinto, mas uma característica mental. Só o ser humano é cruel. Os animais não se torturam uns aos outros, mas os seres humanos sim.

Saramago acha, sinceramente, que o ser humano não tem remédio, já que o mal só se enfrenta com atos, e não com intenções. “Nos manifestamos também pelas palavras, mas as palavras ficam sempre em suspenso, à espera do ato que as confirme. O homem só existe através do ato”, ele conclui.

Chegamos, aqui, a uma outra razão, de ordem muito delicada, que o levou a se afastar de Portugal. Saramago não simpatiza com a sensibilidade portuguesa, que julga um pouco apático e facilmente sentimental. “Temos sentimentos com demasiada facilidade, o que não significa que sejamos capazes dos grandes sentimentos”, diz, e não pode esconder o incômodo que a constatação nele provoca. São os grandes sentimentos, e não os sentimentalismos, que nos exaltam, que nos fazem acreditar, que nos fazem realizar.

Saramago não gosta da lágrima fácil. Vê em seus compatriotas, ainda, um apego desmesurado pelas miudezas. Os sonhos são sempre pequenos, as ilusões sempre pequenas, as esperanças sempre pequenas. “Tudo fica nessa pequenez. E os sentimentos também ficam aí, limitados, autocontemplando-se.” Tudo muito diferente da tristeza contida que ele carrega e que o deixa, às vezes, um pouco curvado. Com o olhar perdido, lendo sempre as páginas invisíveis de um livro a escrever, Saramago parece levar o mundo nas costas.

Quando, no domingo, ao fim da última entrevista, José Saramago me convida para o jantar, já não sei é por delicadeza (e aí será abuso aceitar) ou porque ele de fato se sente bem com meu vendaval de perguntas (e aí será indelicadeza ir embora sem poder me amparar na alegação de qualquer compromisso, já que não conheço ninguém mais na ilha e ele sabe disso).

Termino aceitando o convite, decisão que no íntimo me agrada, e o jantar transcorre em delicada harmonia, uma cerimônia íntima na cozinha aberta para o oceano, que ele e Pilar me oferecem como um segredo. No silêncio, ouvimos o vento que sopra da costa de Agadir, na África. O cansaço, porém, está estampado em suas feições, e eu peço um táxi.

Sei que Saramago está cansado de entrevistas. Saramago sabe que eu sei. Eu sei, que sabendo que eu sei, ele procura disfarçar esse incômodo pondo à frente de tudo seu coração franco. Ele sabe que, sabendo que eu sei que ele sabe… bem, mas aí já é o rondó barroco de seus livros que me envolve e me subjuga. Estou dentro de um livro de José Saramago e já não posso dele escapar. Um leitor é isso: uma esponja. Nada mais.

(publicado no livro “Inventário das Sombras”, de 1999)

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here