Ladrões de galinhas

Arnaldo Garcez, Simas Pessoa e Juarez Tavares

Por Simão Pessoa

Abril de 1977. Na véspera do Sábado de Aleluia, dia consagrado mundialmente para o roubo impune de aves, porcos e carneiros, Pai Simão se preparou arduamente para a batalha campal contra os “amigos do alheio”, já que pretendia defender com unhas e dentes seu pequeno galinheiro existente no quintal de casa.

Ele comprou uma caixa de balas dum-dum, azeitou seu Colt 45 de cano duplo e cabo de madrepérola, apagou a luz externa do quintal, deixou a porta da cozinha apenas encostada e montou campana assim que começou a escurecer.

Ladrões de ocasião, Simas “Careca Selvagem” Pessoa, Zé Alfredo, Samuel Colorau, Juarez Tavares, Beto Gordo e mais meia dúzia de moleques já haviam incursionado pelos quintais de São Francisco, Petrópolis e Raiz, mas haviam voltado de mãos abanando.

Comandante-em-chefe dos pequenos meliantes, Jones Cunha pagou geral:

– Porra, Simas, aí no quintal da tua casa o que não falta é galinha… O que custa você roubar umas duas ou três penosas pra gente comer aqui na rua?… O seu Simão não vai nem notar…

Com a cabeça cheia de truaca, o Careca Selvagem criou coragem e resolveu encarar a parada.

Ele entrou pelo quintal do seu Aluysio, pai do Zé Alfredo, que é colado ao da nossa casa, pulou o muro, engatinhou pelo chão como se fosse um experimentado batedor comanche, entrou no galinheiro e fechou a porta.

O alarido do galo taquiri diante daquela aparição intempestiva chamou a atenção de Pai Simão, que já saiu de casa com a arma em punho.

Caminhando pelo quintal escuro, o velho vociferava:

– Aparece, patife! Eu sei que você está escondido aqui no quintal! Aparece, patife, que eu quero te encher de chumbo…

Dentro do galinheiro, suando frio e segurando o taquiri pelo pescoço para evitar que ele denunciasse o malfeitor, o Careca Selvagem só faltava prender a respiração.

Um movimento em falso e Pai Simão lhe encheria de balas, já que na escuridão reinante dificilmente ele seria capaz de reconhecer o filho.

Depois de alguns minutos que pareceram horas, Pai Simão entrou de novo em casa.

Nesse meio tempo, Simas havia apertado com tanta força o pescoço do galo taquiri que o havia morto por esganadura.

Ele ainda esperou mais de meia-hora, antes de empreender a fuga levando junto com ele o taquiri sacrificado.

O galo ainda jovem, de grande porte, muito musculoso, de penas curtas, escassas e bem aderentes ao corpo, com cabeça de gavião e crista de ervilha, acabou servindo de repasto para meia dúzia de vagabundos embriagados, após ser assado em uma fogueira improvisada na ladeira da Rua Parintins, em frente à casa do Luiz Lobão.

Devia ser por isso que Pai Simão tinha um ódio homicida de Sábado de Aleluia.

O gente fina Carlito Bezerra, que sempre foi viciado em galinha à cabidela

Abril de 1973. Funcionário do DER-AM, o boa-praça Carlito Bezerra (aka “Dr. Rayol”) havia acabado de se despedir da namorada, no Bodozal da Maués, e ia passando pela frente da casa do Luiz Lobão por volta da meia-noite do sábado de Aleluia.

Ao perceber uma agitação sem precedentes envolvendo umas 30 pessoas do outro lado da rua, quase na frente da residência do Gilson Cabocão, ele se aproximou para saber do que se tratava.

Foi quando notou a existência de um gigantesco panelão fumegante, de onde saía um doce aroma de comida bem temperada. Carlito Bezerra abriu um sorriso que iluminou a noite: os moleques da rua estavam detonando uma galinhada de respeito, por conta da bem-sucedida roubalheira de oito “penosas” da vizinhança ocorrida algumas horas antes.

Carlito não se fez de rogado. Apanhou um prato na mesa improvisada no terreiro da residência, puxou uma cadeira e meteu bronca. Comeu que se lambuzou.

Aquela era a mais fantástica “galinha à cabidela” que ele já tinha comido na vida, segredou pra Luiz Lobão, depois de ter repetido o prato por três vezes e dado os trâmites por findos.

Ficou tão satisfeito que nem quis esperar pelo cordeiro assado no molho de hortelã, que estava indo pro fogo no quintal do Marcos Pombão naquele mesmo instante.

Na sequência, a molecada ainda ia detonar um leitãozinho à pururuca e uma buchada de cabrito, que a roubalheira tinha sido grande.

Por volta das seis horas da manhã do dia seguinte, no domingo de Páscoa, Carlito estava batendo freneticamente na porta da casa do Luiz Lobão. Ainda sonolento da ressaca da noite anterior, Luiz Lobão abriu a porta e levou um susto.

Completamente transtornado, Carlito estava armado com uma gigantesca faca de cozinha e queria sangue:

– Eu quero saber o nome do filho da puta que roubou todas as galinhas da mamãe! Isso é putaria! Me diz quem foi! Me diz quem foi, que eu vou acabar com a raça desse desgraçado agora mesmo! – ameaçou Carlito, com os olhos faiscando de ódio.

– Calma, Carlito, calma! – tentou contemporizar Luiz Lobão. – Como é que eu vou saber o nome de quem roubou as galinhas da tua mãe? O pessoal me entregou os bichos já depenados, eu só fiz preparar os temperos e cozinhar…

– Mas isso é putaria, Lobão, isso é putaria! Foram roubar logo as galinhas da mamãe… Ela ainda não parou de chorar até agora… Eu vou descobrir quem foi o filho da puta e vou matar!

– Porra, Carlito, eu não entendo por que você está com tanta raiva desse jeito! – devolveu Luiz Lobão. – Ontem à noite, você repetiu o prato umas três vezes e disse que era a melhor galinha à cabidela da tua vida. Quem tira proveito do roubo também é conivente com o crime…

Luiz Lobão quase levou uma facada no bucho por causa da ironia, mas os ladrões de galinha nunca foram identificados.

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