Meu encontro com Groucho

Por Jaguar

Depois que o bar fechou, fui para casa cambaleando pelo atalho de terra quando vi a lata faiscar à luz da Lua. Peguei a lata e destampei. Uma névoa azulada e cintilante cresceu à minha frente. De dentro dela a voz trovejante do gênio me disse que eu tinha direito a um desejo.

“Peraí”, reclamei, “não são três desejos?”

“Estamos no Brasil”, cortou, como se isso explicasse tudo. “É pegar ou largar. E rápido; depois de séculos preso nesta lata enferrujada, tenho um monte de coisas para botar em dia.”

Pensei num caminhão de dinheiro, mas o cara não me parecia confiável. E se me desse a grana em cruzados?

“Quero ser o maior humorista do mundo”, decidiu.

Puff! Groucho Marx materializou-se a dois passos de mim e ficou andando daquele seu jeito inconfundível, meio agachado, com seu bigode pintado de preto, arqueando e abaixando as sobrancelhas, soltando baforadas do charuto.

“Ei!”, gritei para o fundo da lata. “Eu disse que queria ser e não ver o maior humorista do mundo!

“Quem mandou beber demais e falar com a voz engrolada?

Eu mal o ouvi, o gênio já ia longe. Groucho me olhou com desgosto:

“Deviam ter mandado W. C. Fields no meu lugar. Ele também bebia que nem um gambá e o nariz era tão vermelho quanto o seu.”

Tentei ver a coisa pelo lado positivo. Tudo bem, não fiquei milionário e nunca serei o maior humorista do mundo, mas levar um papo com Groucho numa madrugada já é alguma coisa. Perguntei como começaram os Irmãos Marx.

“Éramos cantores, de um amadorismo total. O nome do grupo era Os Quatro Rouxinóis. Depois viramos Os Quatro Mascotes, até que minha mãe e minha tia Hannah aderiram ao grupo, que passou a se chamar Os Seis Mascotes. Certo dia as cadeiras onde estavam sentadas no palco desabaram, elas se esborracharam e desistiram da carreira artística.”

“Sinto muito. Fale sobre seu primeiro sucesso no show business.”

“Era um esquete chamado Fun in High School. Eu fazia o professor e Harpo (ainda não era mudo) o aluno. Eu perguntava: ‘Qual o formato da Terra?’ Ele respondia: ‘Não sei.’ Aí eu procurava ajuda-lo: ‘Qual é o formato das minhas abotoaduras?’ E ele: ‘Quadradas.’ Não essas, mas as que eu uso aos domingos. E ele: ‘Ah, essas são redondas.’ Eu voltava à pergunta inicial: ‘Pronto, agora me diga qual é o formato da Terra.’ Harpo respondia: ‘Quadrada durante a semana e redonda aos domingos.’ Matávamos o público de rir.”

Quando parei de rir, Groucho emendou:

“Em 1915 fizemos um programa duplo com Sarah Bernhardt no Palace. Ela já estava velha e só tinha uma perna.”

Foi ficando transparente e sumiu. Fiquei parado no meio da estrada, com a lata na mão e depois fui para casa.

A lata está até hoje na minha mesa, servindo de porta-lápis.

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