Nássara: de inventor do jingle a compositor de baciada

Por Isabel Lustosa

Sua história no rádio começou quando Ademar Casé, outro intuitivo precioso, lançou, em 1932, o seu programa. Um amigo comum, Silvio Salema, indicou o Nássara para ser o speaker (naquele tempo chamavam locutor assim). Desempregado, Nássara percebeu no convite uma oportunidade. Diz ele que, naquela hora, aceitava até emprego como porteiro de hotel falando dezoito idiomas: “Sabe como é, a gente quando está a perigo, está a perigo mesmo”.

Não precisou. Graças a Salema, logo estrearia no recém-criado Programa Casé. Ele, que não sabia nada do ofício, foi ver no estúdio o locutor mais famoso do tempo, Valdo Abreu, que comandava o Esplêndido Programa, da rádio Mayrink Veiga. É o Nássara quem conta o seu pasmo ao ver que o homem não tinha texto para ler, o que ele falava ia inventando na hora. Coisas do tipo: “Estamos aqui agora praticamente com o sol entrando pela janela, esta luz vem banhar uma poltrona, esta poltrona é uma poltrona da Bela Aurora”, tudo no improviso. O Nássara abdicou. O jeito era ir mesmo de lápis e papel.

“Então, pedi ao Ademar Casé que ele me desse uma lista dos anunciantes. Ele então me deu uma lista. Tinha várias coisas lá, até um purgativo. (Risos) Naquela época era proibido falar dessas coisas no rádio. Naquele tempo eu bebia e fui fazer o programa com um pouco de gás, não é? Gás alcoólico… E, na hora, improvisei: Dei um automóvel Cadillac a ela: não fez efeito; um apartamento dos maiores do Rio: também não fez efeito; no entanto, com duas pílulas de Manon purgativo, o efeito foi rápido e surpreendente.”

Foi aí que o Casé lhe encomendou um anúncio para a Padaria Bragança, que ficava ali na rua Voluntários da Pátria. Era preciso fazer algo especial porque o Casé queria ver se arranjava um contrato de um ano com a padaria. Imaginando que o dono fosse português, Nássara resolveu fazer uma espécie de fado em que se cantava a superioridade do Pão da Padaria Bragança. Foi o primeiro jingle brasileiro e sua música é um encanto: “Ó padeiro desta rua / tenha sempre na lembrança / não me traga outro pão / que não seja o pão Bragança. / Pão, inimigo da fome, / fome, inimiga do pão / enquanto os dois não se matam, / a gente fica na mão / Ó padeiro desta rua… (etc.) / De noite, quando me deito / e faço a minha oração, peço, / com todo respeito, / que nunca me falte o pão. / Ó padeiro desta rua… (etc.)”

No dia 14 de fevereiro de 1932, às 20 horas, o domingo depois do carnaval, uma sirene apitava no pequeno estúdio da PRC-5, a Rádio Philips do Brasil, anunciando a estréia do Programa Casé. A dinâmica do programa procurava fugir à lentidão tradicional da programação do jovem rádio brasileiro. Evitar os buracos entre as músicas, copiar, enfim, o estilo dos programas da BBC, de Londres, e da NBC, de Nova York, que Ademar Casé conseguia captar através de seu pequeno ondas curtas modelo 514. O Programa Casé, indo ao ar todos os domingos, de meio-dia às seis da tarde, se tornaria, rapidamente, líder absoluto de audiência.

“Ademar Casé é um sujeito formidável, um cara engraçado, é um cearense desses que furou todas as paredes do Rio de Janeiro e, aparentemente, você não dá nada por ele, ele é um sujeito introvertido, é até tímido, ele com aquele jeito assim, sei lá, difícil você descrever, mas ele tem essa qualidade: ele incentiva as coisas. Daí o programa dele ser altamente… imortal até. O programa dele na Rádio Phillips chegou a ser um dos melhores do rádio brasileiro. E a Casé foi um precursor nesse negócio de anúncio. Ele conhecia a cidade inteira, fazia o diabo mesmo.”

Casé não era cearense, mas pernambucano de Caruaru e tinha 29 anos quando lançou seu programa. Descobrira o rádio quando, junto com dois outros amigos, também empregados do comércio no centro do Rio, passou a ir todas as tardes à rua Mem de Sá para ouvir um precaríssimo rádio de galena. O rapaz de Caruaru deslumbrou-se com a magia da coisa. Ficou, durante muitos dias, namorando um rádio na vitrine da Casa Lucas, na Av. Passos, até ter coragem e dinheiro para comprar um. Pagou em 10 prestações e, em casa, convidou os amigos para conhecer a maravilha. O instinto de bom comerciante fez dele um bem-sucedido vendedor de rádio. Mas foi devido unicamente ao seu talento que descobriu as infinitas possibilidades do invento.

O programa de estréia já inovava pela maior agilidade. Com quatro horas de duração, estava dividido em duas partes: de 8 às 10 era da música popular, e de 10 à meia-noite pertencia aos eruditos.

Mas a música popular já se impunha. Era na primeira parte do programa que o telefone não parava de tocar. Pois entre os que cantavam na estréia havia nomes como Francisco Alves, Mário Reis e Noel Rosa… O estúdio ficava nos fundos da loja da Philips, na rua Sacadura Cabral nº 146, em meio a um depósito de aparelhos. Um espaço exíguo, com um único microfone no meio, em torno do qual se amontoavam os músicos, os cantores e o apresentador, num tremendo empurra-empurra.

Eram tempos precários em que, de vez em quando, era preciso improvisar um locutor. Numa das vezes em que o locutor oficial do programa, José Carvalho, faltou, Casé teve que implorar a um rapaz esquerdista que tinha um programa de 15 minutos antes do seu para apresentar. Meio recalcitrante, sem querer fazer os anúncios, que já eram a marca do programa, o rapaz acabou topando. O nome dele era Carlos Lacerda.

Eram tempos de dureza em que, de vez em quando, Casé ameaçava acabar com o programa, por absoluta falta de recursos. E tinha que desenvolver mil estratégias para conquistar patrocinadores. E estes eram os mais variados. O texto dos sketches tinha que ser muito sutil, pois no rádio era proibido falar de cuecas, cintas modeladoras, medicamentos para hemorroidas, sífilis e purgantes, como já assinalamos.

Depois de sua passagem pelo Programa Casé, Nássara, ao lado de outro personagem de sua galeria de tipos inesquecíveis, Antônio Paraíso (que era um malandro e tal, mas inteligentíssimo), criou seu próprio programa. Era o Programa Talismã, que começava meia hora antes do Programa Casé e que tinha por única finalidade botar algum no bolso dos seus dois criadores. A dupla se beneficiava do patrocínio da Casa Guimarães – que vendia bilhetes de loteria – e do Camiseiro Agostinho, cujo dono era amigo do seu Gabriel Jorge, pai do Nássara. Movido a slogans do tipo “É mais fácil um burro voar do que a esquina da sorte falhar… Diz a centena de amanhã!”, ou deste: “É na esquina da sorte que você encontrará a tua vida, e não a tua morte. Compre um bilhete lá…”, o Programa Talismã parece que não teve vida longa.

“Eram coisas assim, espontâneas entende? Não é como hoje que tem que reunião pra ver e tal… Mas logo eu parei com o rádio. Descobri que eu não dava mesmo para aquilo. É essa coisa, eu não sou muito… era temporário e tal… E eu comecei a fazer música. E tive uma certa facilidade…”

O conjunto que Nássara e seus amigos criaram na Escola Nacional de Belas-Artes teve vida efêmera, não durou nem um ano ou dois. Logo depois, cada um foi para o seu lado. Mas o conjunto da ENBA teve a glória de ser o berço onde nasceu “Formosa”, seu primeiro grande sucesso musical. Na contracapa do disco “Carnaval de Nássara”, gravado em outubro de 1956 por Pixinguinha e sua Banda, pela Sinter, Orestes Barbosa conta de sua impressão quando ouviu, pela primeira vez, Formosa sendo cantada nas ruas:

“Era no Largo da Carioca. Atrás do edifício do Liceu. Em frente ao Tabuleiro da Baiana. Num carnaval que já vai longe… Era um Sábado. E era cedo. A cidade começara o folguedo de véspera. (…) Vinha um grupo de mascarados à paisana. Na frente dos foliões (uma mescla de vadios e rapazes de família) vinha um magricela simpático, de camisa de meia, calça cinza, cantando e mostrando um sorriso que ostentava os dentes salientes – parecia até que os dentes é que cantavam com o sorriso, esticando o pescoço fino – muito simpático e novo ao meu olhar. O rapaz chamava atenção, pelo ritmo e pela originalidade com que “batia” um chapéu de palha. Era Luís Barbosa. E o estribilho eletrizava a multidão: Foi Deus quem te fez formosa! / Formosa, oi, formosa! / Porém, este mundo te tornou / Presunçosa! Presunçosa!

Perguntei ao Alvaiade (um negro que a ironia da rua classificara uma vez de Alvaiade):

– De quem é essa marcha?

– É do Nássara! – informou ele.

Eu conhecia o menino – quase um menino então – e já grande caricaturista – Antônio Nássara – de quem já me falara, certa vez, com entusiasmo, J. Carlos, o meu saudoso amigo José Carlos de Brito e Cunha, criado, comigo, na Gávea, e com o poeta Clodoaldo, pai do Vinicius de Moraes. Antônio Nássara! Descendente de uma raça alegre e emocional, ingênua, parecendo prática, que deu um colorido singular à paisagem humana do Brasil. Antônio Nássara! Depois no tornamos amigos de dias e noites.”

A frase de Orestes encontra ressonância na que o Nássara me disse depois de falar comovidamente do tempo de parceria boêmia que vivera com o velho amigo: “E a gente foi atravessando todos os túneis da vida…”

Mas, voltando à “Formosa”. Não foi o simpático Luís quem gravou “Formosa”. A música foi de fato cantada pela primeira vez na Rádio Clube do Brasil, no programa Coisas Nossas, por Luís Barbosa, mas tornar-se-ia o sucesso do carnaval do ano seguinte, 1933, nas vozes da dupla Francisco Alves e Mário Reis.

“Um dia, na porta do Café Nice, Francisco Alves me perguntou: querem gravar Formosa? E minha música foi gravada a pedido, por incrível que pareça, pelo Mário Reis e pelo Chico Alves. Já tive meus momentos de importância…”

Café Nice que, segundo Mário Lago que andou por lá e pôde conferir, apesar de ter-se eternizado com este nome, trazia bem na frente, em letras douradas sobre fundo preto, seu verdadeiro nome: Casa Nice. Era para ser uma prosaica casa de chá e se transformou no ponto central da vida boêmia do Rio dos anos 30.

Com a gravação de “Formosa”, Nássara descobriu Mário Reis. Ele conta que Orestes Barbosa ficou comparando as interpretações de Chico Alves e de Mário, dizendo: “Olha o Chico Alves, parece um trem apitando, porque ele cantava com uma voz poderosa, ao lado do Mário Reis que não perdia aquele diapasão”. Sem querer ou querendo, o aristocrático Mário Reis inventava ali um jeito de cantar macio, coloquial, que faria furor anos mais tarde.

“Porque era uma época em que só valia quem tinha voz como a do Vicente Celestino, que cantava aqui e pensava que a voz dele estava chegando no Amazonas. E o Chico Alves, no princípio, também berrava muito. O Mário Reis foi um dos primeiros a dar aquela tonalidade assim… coloquial… ao negócio, valorizando a letra. Você entendia… Quando a gente ouve aquele samba, Jura… (“Jura, pelo Senhor…”) gravado primeiro pela Araci Côrtes, você não entende uma palavra. Quando o Mário Reis gravou, a música acabou um sucesso espantoso, porque ele modificou completamente. E cheguei à conclusão que Mário Reis é também um inventor desgraçado. Ele e o Luís Barbosa eram os melhores daquela época.

O Mário Reis acabou ficando meu amigo também. Era um sujeito formidável o Mário Reis. Um grande cantor, uma pessoa humana educada… Para aquela época, então, pô, era todo heráldico, gentil, tomava seu chopezinho direito. O Mário era um sujeito preocupadíssimo com a escolha das músicas, completamente diferente do Luís Barbosa. Este era de um relaxamento total, de uma desambição absoluta. O Mário fazia questão de ouvir, antes de todo mundo, o que o Lamartine fazia.”

Segundo Orestes Barbosa, que era um grande contador de histórias, Mário Reis teria pago duzentos mil-réis ao Bide e ao Marçal (Alcebiades Barcelos e Armando Vieira Marçal, respectivamente) para que eles cantassem mal o “Agora é cinza”. Assim o Chico Alves se desinteressava pela música e o Mário Reis ficava com ela. Histórias do Orestes que o Nássara contava, mas pelas quais não botava a mão no fogo por medo de se queimar.

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