Nássara, Di Cavalcanti, Chico Barbosa e Marques Rebelo

Por Isabel Lustosa

Uma vez, em 1946, quando ainda trabalhava na revista Diretrizes, Nássara fez uma caricatura do Di Cavalcanti, anunciando exposição de seus trabalhos na ABI. Abaixo do desenho vinha um texto, onde Nássara aliava um comentário crítico sobre a pintura de Di Cavalcanti a um ataque violento aos demais pintores e artistas brasileiros. O texto chama a atenção tanto pelo derramado elogio ao trabalho de Di quando pela agressividade com que Nássara se refere à sua antiga escola Nacional de Belas-Artes:

“Di Cavalcanti – Um mestre!

A exposição de Di Cavalcanti no 9º andar da ABI continua com enorme sucesso. Poucos são os quadros para o número de amadores que procuram adquiri-los, pois Di não é pintor em série como grande percentagem dos nossos “pompiers” da Escola Nacional de Belas-Artes e becos circunjacentes. Soldado de primeira linha no movimento renovador da pintura, Di Cavalcanti é um clássico dentro da sua arte, um mestre que não copia a natureza mas a interpreta através do seu temperamento singular, emotivo e apaixonado. Muitos críticos, aliás bem-intencionados, aproximam-no deste e daquele, como se esse grande rebelde intelectual pudesse acaso filiar-se a dogmas ou escolas. Di Cavalcanti é ele por inteiro. Monolítico-personalíssimo. Lembra talvez uma ressureição de Renoir em nossos dias. Como Renoir, em seu tempo, evocava um Rubens moderno. Di Cavalcanti já fora consagrado pelo público de Nova York, de Paris, de Buenos Aires, de outras grandes cidades da Europa e da América. Faltava-lhe a consagração definitiva do público do Rio de Janeiro. Ele a teve agora e retumbante! A sua exposição constitui um acontecimento. Uma coisa inédita em nossos meios artísticos. O rebanho de Panurge dos “medalhões” está alarmado. Muitos estão frequentando agora, durante duas horas por dia a exposição do Di, para aprender a pintar moderno. Se fosse possível ensiná-los a ter talento…”

Teria Nássara alguma mágoa contra a ENBA e os seus mestres e colegas de então pelo fato de, mesmo não levando a coisa muito a sério, não ter concluído o curso? Ele adorava satirizar com o pessoal da Escola de Belas-Artes e fez até uma marchinha com este propósito, gravada por Linda Batista.

“O pintor que pintou Maria / pintou também Isabel, / mas quando foi pintar Teresa, meu bem, / não encontrou pincel. (bis) / Pintor, quando pinta, / precisa de tinta, palheta e pincel, / depois ele arranja inspiração; / faz uma coisa qualquer / e ganha o prêmio no salão.”

Di Cavalcanti, no entanto, nunca entrou neste rol. Ao contrário, para Nássara ele era o maior. Di foi grande amigo tanto de Nássara quanto de Orestes Barbosa e publicou, uma vez, no Diário de Notícias (11/3/1962), este muito afetuoso e preciso elogio dos companheiros de vida boêmia:

“Nascido na Rua Abílio, esquina da Rua Violeta, Nássara é tão carioca como é carioca o Largo da Lapa. Poderia ser considerado monumento desta: com Orestes Barbosa e Sílvio Caldas faz um trio que encontra no meu coração um aconchegado recanto de carinhos.”

Nássara conheceu Di Cavalcanti quando este ainda era o caricaturista Urbano. Depois o amigo cresceu, virou pintor famoso, internacional. Permaneceu a velha camaradagem que se renovava nos almoços que Di promovia aos sábados, na sua casa, que ficava na rua do Catete nº 222 (“três patinhos na lagoa”). Almoços finíssimos (Di voltara de Paris), regados a bons vinhos franceses e a bons papos.

No calor das alegres reuniões figurava um time de alto quilate: Luís Peixoto, Paulo Silveira, Francisco de Assis Barbosa, Oswaldo Costa, Marques Rebelo, Orestes Barbosa, Álvaro Moreyra. Nássara ia sempre. Alegrava as reuniões com seus papos, suas músicas, as histórias impagáveis que trazia das estações de rádio, das rodas de samba. Nássara ganhou, certa vez, um quadro do Di que conservou durante muitos anos. Teria conservado até hoje, se um aperto maior não o tivesse obrigado a passa-lo nos cobres.

“O Di Cavalcanti foi um dos grandes pintores, na minha opinião. E boêmia, apaixonado pelas mulheres… O Di viveu muito tempo em Paris, de maneira que ele era assim todo heráldico. Ele tinha uma governanta, D. Maria Francisca, mas ele é quem definia o prato: amanhã vai ser isso, isso e isso. Tinha um livro de receitas em francês, ele traduzia e ela fazia. Isso, depois que ele ganhou dinheiro, não é? Porque, no começo, ele também viveu uma época aí de… pão de “derréis”. Não havia semana em que ele não fizesse um grande jantar, um grande almoço. E fazia questão que eu fosse. Porque eu, naquele tempo, cantava aquelas serestas do Orestes e de outros. A primeira pessoa que ele telefonava era pra mim. Meio-dia, eu chegava e, às vezes, já encontrava lá o Luís Peixoto. A frequência desses almoços era variada. Mas os mais fiéis éramos eu, Luís Peixoto, o Paulo Silveira, às vezes também aparecia o Marques Rebelo. E o Di gostava à beça. Aqueles almoços da casa dele deixaram saudade.

O Di, além de um grande pintor, era uma figura humana extraordinária. E amigo generoso. Um dia, eu estava meio triste, e ele me deu um quadro: “Nássara, você gosta disso?” Eu digo: “Qualquer um…”

Nássara retribuía o carinho que o Di lhe dedicava na mesma medida. Homenagear os amigos para ele era isso: caricatura ou marchinha, ou os dois. Para o Di fez uma extremamente maliciosa falando do fascínio do pintor pelas mulatas.

“Mulata, você é uma pintura, / Mulata, você é provocante. / Merece estar por dentro da moldura. / Num quadro do Di Cavalcanti. / Foi o português que te inventou / Vamos dar um viva a Portugal / Mas o velho Di valorizou / As cores do produto nacional. / Nas cem mil mulatas que pintou / Entre São Cristóvão e Catumbi / Em nenhuma delas fracassou / O pincel do velho Di.”

Outra das grandes afeições do Nássara era Francisco de Assis Barbosa. Os dois tornaram-se amigos desde os tempos da revista Diretrizes, de Samuel Wainer. A amizade sobreviveu ao tempo – o Chico jornalista transformou-se no Chico intelectual, historiador, membro da Academia e do Instituto Histórico, mas continuou amigo do Nássara, que foi sempre o mesmo: irreverente, boêmio, troca-tintas, de uma simplicidade radical, desafiadora.

Foi o Nássara quem primeiro me contou sobre a ocasião em que ele e o Chico foram entrevistar Getúlio Vargas para Diretrizes. Isto por volta de 1946, pois Getúlio, eleito senador, já voltara do Rio Grande do Sul e estava morando no Morro da Viúva. Nássara e Chico chegaram às 4 horas da tarde e Vargas tinha dado entrevistas desde as onze horas da manhã. Lutero Vargas lhes disse: “Vocês chegaram muito tarde. Papai está muito cansado, não vai poder receber vocês, me desculpem.”

“Quando ele abriu a porta, eu vi que o Getúlio estava sentado lá no fundo, sozinho, sem saber que a gente estava lá. Estava numa cadeira de balanço. Aí eu falei: Olha, doutor Lutero, eu e o meu colega aqui, o doutor Chico Barbosa, queremos cumprimentar o presidente. Já que a gente veio até aqui, a gente quer pelo menos dar um boa-tarde a ele. Eu vi que tinha um bloco na mesa e fiz uma caricatura assim: Getúlio com seu charutão na cadeira de balanço e botei aquele balãozinho: “mande entrar os retardatários”. Aí, o Lutero riu: “Isso é esperteza.” Eu disse: “Eu só quero que o senhor entregue a ele. Quem sabe ele gosta e manda a gente entrar.” Você sabe que ele, o Getúlio, riu… Aí, nós entramos.”

Durante a entrevista, Chico Barbosa fazia perguntas meio agressivas. Ao final, desculpou-se explicando ter assim se portado por ser de oposição, era da UDN. O velho matreiro, já no comando de dois grandes partidos, O PSD e o PTB, tendo a UDN como principal partido de oposição, esboçou o seu mais afável sorriso e respondeu: “Ah, o senhor é da UDN? Parabéns, moço, se eu pudesse eu também o seria.”

Quando o Francisco de Assis Barbosa entrou para a Academia Brasileira de Letras também recebeu uma homenagem musical do Nássara.

“Êta, seu Chico Barbosa, / Mas que vitória legal, / Escrevendo pelo pão de cada dia / Você está na Academia, imortal. / Ele é bom filho, bom amigo e bom irmão, / Ele merece esta homenagem, o que é que há. / E nas trezenas acompanha a procissão / Lá em Guaratinguetá! / Êta, seu Chico Barbosa… (bis) / No dia 13, a sua posse aconteceu, / Cadeira 13 é a cadeira em que ele está, / Tem 13 letras, a cidade em que nasceu, / O seu Guaratinguetá…”

Da versão que Nássara cantou durante a entrevista que deu ao MIS em 1968, constava este outro versinho: “Acredito que o Lima Barreto / No silêncio da paz sideral / Vai pular com seu velho esqueleto / dando vivas ao novo imortal”. Irreverente referência à excepcional biografia de Lima Barreto que Francisco de Assis Barbosa escreveu.

“Chico era também um bom camarada, um pouco mais fechado. Mas tinha uma grande fidelidade aos amigos. Eu gostava muito do Chico. Com aquela maneira dele toda… a gente chamava ele até de comendador. Agora, também, quando ele brigava… Ele não era de briga, assim, no sentido físico, disso ele fugia até, eu sei. Era um camarada até de acomodar as coisas. Quem gostava muito dele também era o Di Cavalcanti. O Di Cavalcanti tinha o Chico em alta conta.”

Fã dos amigos, Nássara não hesitava em afirmar: poeta era Orestes Barbosa; pintor, Di Cavalcanti e escritor, Marques Rebelo. Marques Rebelo, outro dos amigos do peito de Nássara, também mereceu uma marchinha quando entrou para a Academia. Paulo Silveira ofereceu uma festa para comemorar a eleição do amigo. Marques Rebelo comprou um chapéu de palha, mandou cortar e costurar como se fosse chapéu de acadêmico e apareceu na festa. Segundo Maria Lúcia Rangel (JB, 3/2/1973), quem esteve lá ainda lembra do autor de “A estrela sobe” dançando, de fardão e espadim, ao som da marchinha do Nássara, que diz:

“Salve, salve a Academia / Que elegeu novo imortal. / Elegeu mas não sabia / Que sua posse ia acabar em carnaval / Marques Rebelo, / Dá gosto vê-lo vestido assim / Fardão bem rico, chapéu bibico, / Como é bonito teu espadim! / Sensacional / A bela farda tão galharda do imortal…”

“Marques Rebelo também era outra figura extraordinária. Ele ia, às vezes, lá na casa do Di Cavalcanti. Era um pouco fechado, mas depois que ele chegava… Toda aquela aporrinhação dele morria nessas festas. Ele era engraçadíssimo, a gente sentia que ele rejuvenescia com aquelas coisas.”

Nássara foi sempre um crítico da maneira como o Carnaval foi gradativamente sendo comercializado. Dizia que, no tempo de suas parceiras com Frazão, Wilson Batista, Haroldo Lobo, a coisa era mais solta, havia uma certa boêmia no meio musical. No sentido de que a parceria era feita daquele jeito que contou Wilson Batista: um pega o mote, o outro vai e complementa, o primeiro vai arremata. Algo assim como nas emboladas do sertão, nos desafios… Sem esta briga de foice no escuro que começou a partir da mercantilização da criatividade.

Da mesma maneira, Nássara via como um empobrecimento a excessiva simplificação das músicas. Considerava o fenômeno quase como uma volta ao tempo do zé-pereira, com uma única frase musical se repetindo incessantemente: “Rui, rui, rui / roubaram a mulher do Rui…” Sua produção foi diminuindo a partir do final da década de 1950. Durante os anos 60 praticamente não compôs. Um fato isolado foi a sua participação no Festival da Canção Carnavalesca, em 1968, quando tirou o terceiro lugar com “O craque do tamborim”, feita em parceria com Luís Reis. Naquele ano até se animou e fez também, com Alcyr Pires Vermelho e Galvão Rabelo, “Bota mais um chope”. Em 1990, declarou numa entrevista que fazia 20 anos nada compunha.

Mas, alguns anos antes disto, revelou ao amigo José Guilherme Mendes, que tinha várias músicas na gaveta. E cantou algumas delas. A primeira, satirizava o personagem Gabriela, de Jorge Amado, que era sensação da Globo naquele ano, na pele de Sônia Braga: “Amei a Gabriela / como ninguém jamais amou / Comi por causa dela / o pão que o diabo amassou…” e ao longo da entrevista, cantou outras tantas. Quem sabe José Guilherme não as gravou? Pois quando a gente ouve aquelas músicas que o Nássara fez para os amigos, Di Cavalcanti, Chico Barbosa, Marques Rebelo, dá graças a Deus de tê-las gravado. Além de serem ótimas, alegres, ricamente ritmadas, elas são documentos da criatividade e da vitalidade que o fazedor de artes Antônio Gabriel Nássara, dono de um repertório que soma quase 300 músicas, manteve perene por toda a vida.

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