O Bafômetro e o meu bafo

Por Jaguar

Fui apresentado à geringonça na Lagoa, quando voltava de um show de Leny de Andrade no Chico’s Bar, às quatro da manhã. A patrulhinha emparelhou e me mandaram parar.

– O senhor vai ter que fazer o teste do bafômetro – avisou o guarda.

Eu nem imaginava para que servia aquele objeto na mão dele.

– É para verificar o nível de álcool no seu sangue – explicou

Tive a impressão de que o dedo do destino apontava para a minha careca. Entre tantos, eu tinha sido o escolhido. Logo quem! Senti que estava sendo tratado como um porquinho-da-índia num laboratório. A cidadania me subiu à cabeça:

– Olho aqui, seu guarda, me recuso a soprar nessa coisa. Se quiser eu faço um quatro, tá?

E fiz um quatro. Coisa de profissional. Durante intermináveis instantes fiquei equilibrado com num pé só.

Mas o cara insistiu no bafômetro. Soltei os bichos:

– Meu bafo pode danificar esse aparelho de precisão, um produto municipal, pago com o dinheiro do contribuinte. Vou ser honesto: tomei uns três Steinhagers, não sei quantos chopes e pedi um Underberg de saideira. Faço isso quase todas as noites e nunca bati com o carro. Tô legal, já fiz um quatro. Agora posso ir pra casa dormir?

A veemência do meu discurso causou algum impacto mas não o bastante.

– Documentos – exigiu.

Meti a mão no bolso.

– Taí. Carteira de identidade, do jornal, de motorista. Ops! Veio junto uma nota de cinquenta.

Para encurtar a história, acabou me liderando. Acho que o meu quatro o deixou impressionado.

Lembrei-me dessa história quando foi decretado o novo Código de Trânsito. Parei de dirigir há uns quatro anos, não me atinge.

É claro que alguma coisa tinha que ser feita para conter a fúria homicida de alguns motoristas, alcoolizados ou não, furando sinais, ultrapassando nas curvas, cometendo todo tipo de barbaridades no trânsito. Mas os aiatolás do Detran erraram a mão. Decidiram que quem bebe três chopes fica de porre, sem condições de dirigir.

Tudo indica que esses caras bebem mal pra cacete. Com três latinhas de cerveja devem chegar em casa aos tombos, chutando o cachorro, vomitando no tapete, fazendo pipi na pia e surrando a patroa.

A noite carioca, que já estava devagar por causa da falta de segurança, ficou uma tristeza. O consumo de chope deve ter caído uns 40%; além dos assaltos os boêmios têm que se preocupar com os bafômetros.

Bons tempos aqueles da cervejinha do guarda. Com a alta astronômica das multas, só tem papo a partir de scotch 12 anos ou champanhe francês.

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