O banheiro do butiquim

Por Moacyr Luz

Outro dia encontraram um fotógrafo francês, desse que têm nome do vinho fino, devorando um sanduíche de ovo com uma folha de alface mal lavada e já queimadas nas pontas, na porta de um desses bundas-de-fora da cidade. A visita não era pelo ovo frito no resto do bacon. Era para fotografar o banheiro do estabelecimento, um ensaio a ser publicado em livro.

Recomendado por um amigo íntimo, aquele mictório fora escolhido como o menor da região toda. Dentro dele, mal cabia o rolo de papel higiênico – e aí entra um choro na dose da conversa: você já notou intimamente a qualidade desses papéis? Uns lembram o tempo do Jornal dos Sports, mas em dia de expulsão de zagueiro da roça. Outros, reciclados, mantêm a origem do uso anterior. E há aqueles que ficam num arame torcido com cortes do jornal da véspera, que não foi usado para embrulhar peixes ou ovos e fica servindo de consolo à cabritada malsucedida.

Quem conhece butiquim a fundo (quer dizer, ao fundo…), sabe que ir ao banheiro exige uma coragem comparável à procedência da sardinha de balcão. Perto da minha rua havia um sujeito muito acima do peso – acho que sofria de problemas com esteróides, sei lá – conhecido na área como Ernesto Rolha de Poço. Depois de encarar três coxinhas, daquelas que a modernidade inventou meter um creme parecido com catupiry, veio a vontade de urinar.

Diurético em dia, não segurou: tomou o caminho do WC ainda com meio frango na boca. Entrou apertado na portinha improvisada digerindo as últimas calorias ainda de pé, lendo dizeres escritos na parede que, sinceramente, valeriam outra crônica. Na derradeira mastigada, as mãos já fechando o zíper da bermuda Varga, a porta abriu, mas o corpo não passou. Começaram as soluções: “Solta os botões!”, “Tira a camisa!”. Nada.

Esbaforido, com os remédios da pressão nem de longe fazendo efeito, um gaiato lembrou de chamar a Defesa Civil que, verdade seja dita, chegou em cinco minutos. A cena final foi flagrante de folha policial: um médico com estetoscópio no peito do Ernesto, ao lado do pedreiro da rua, faz-tudo da redondeza, quebrando a parede com marreta, e o desespero do português:

– Cuidado com a porta!

O Rolha, que jurou emagrecer, foi visto num rodízio de pizza de subúrbio desses que a promoção começa às 18 horas e tem lançamento de pizza de banana.

Desse epílogo ficaram três assuntos: os dizeres na parede de banheiro, o faz-tudo da redondeza e a Defesa Civil.

Vamos à Defesa Civil.

Papo reto com Alfredo do Bip-Bip

Sobre o dono do Bip-Bip – o menor e mais aconchegante bar da cidade – eu teria outro livro pra fazer. Personalidade de voz rouca, Alfredinho nada tem de rascante em seu coração. Acho que boa parte dessa juventude que hoje ronda o samba ouviu primeiro o Mauro Duarte, o Elton Medeiros nas rodas que o cantinho do Alfredo abriga. Temos uma sintonia: às vezes estou em casa, no estaleiro, lembro do homem e o telefone toca. É o Alfredinho deixando um recado: “Saudade!”

A descarga com cordinha é mesmo uma surpresa desagradável?

Não, eu acho que butiquim que se preza tem que ter cordinha, senão não é butiquim. Puxa-se com a pontinha do dedo… Isto quando algum bêbado antes já não arrebentou o troço e se teve que marrar com barbante.

Você já deixou de comer um prato exótico num butiquim com medo de correr para o banheiro?

De jeito nenhum. Eu já comi sabendo que iria para o banheiro.

O Bip-Bip, para você, é o bar que tem o melhor banheiro?

De butiquim, não tem igual! Pode perguntar para o Paulão.

Qual o banheiro inesquecível (favoravelmente)?

Aí eu vou ter que me entregar. Não aturo aqueles espanhóis do Alcazar, mas o banheiro de lá tem ar-condicionado tão frio a ponto de se pegar constipação na bunda!

E o banheiro insuperável em agonia?

Fica na Rua da Alfândega. Olha, eu morava em Bangu. Vim pelo Campo do Santana, entrei no bar, pedi pra ir ao banheiro e o português fez jogo duro. Eu implorei, chorei e ele me emprestou a chave. Quando eu entrei, era melhor ter feito na rua. Nem papel tinha. Me limpei com a cueca e depois joguei fora.

Qual é o melhor remédio: bolinhas de naftalina ou o limão encharcado de gelo?

Nenhum dos dois. Não adianta, você entra e o cheiro é forte.

Há alguma frase de parede de banheiro de butiquim que tenha chamado a sua atenção?

Olha, antigamente a criatividade em parede de banheiro de butiquim era maior. Hoje é telefone de bicha, o garçom tal é bicha. Perdeu a graça…

Dê um depoimento sobre a importância de banheiros nos blocos de rua…

A Prefeitura não ajuda em nada, é a maior bandalheira, principalmente para as mulheres. Se elas ainda andassem igual às baianas das escolas de samba, mas não é bem assim. Homem até se vira, mas é uma vergonha.

Já teve que tirar à força um bêbado juvenil no banheiro do Bip?

Tirei foi uma chata. Ela entrou no banheiro, mas parece que queria usar o lugar para outras coisitas. Eu comecei a socar a porta, dizendo que estava apertado, desesperado, ela abriu e me viu com cara de quem estava bem de saúde. Aí eu desabafei: “Minha filha, era só para você ir embora!”

Você tem algum jeito especial para curar a ressaca?

Com sinceridade, nunca tive ressaca. Ontem mesmo ganhei um remédio que veio de Paris para curar ressaca. Não vou usar. Nunca tive ressaca – o que pode ser até um mal.

Nota da Redação

Uma matéria publicada no jornal Extra, no dia 2 de março deste ano, trazia a seguinte manchete: “Morre Alfredinho, dono do bar Bip Bip, aos 75 anos”:

Morreu nesta tarde de sábado de carnaval Alfredo Jacinto Melo, emblemático dono do bar Bip Bip, em Copacabana, reduto do samba e da boemia carioca há mais de meio-século. Conhecido como Alfredinho, o empreendedor e agitador cultural faleceu em sua casa, no mesmo bairro. A informação foi confirmada pelo violonista Tiago Prata, frequentador assíduo do estabelecimento há 22 anos.

Fundado em 13 de dezembro de 1968, dia da implementação do AI-5, Ato Institucional que endureceu ainda mais a repressão do regime militar que governou o Brasil de 1964 a 1985, o Bip Bip se transformou num patrimônio cultural carioca ao longo de sua história.

Alfredinho assumiu o comando do bar em 1984, criando um ponto de encontro de sambistas, músicos, jornalistas, moradores do bairro e gente que amava as rodas de samba de alto nível do local, a maneira despojada de levar o negócio do dono e sua lendária fama de ranzinza, que escondia um homem com fortes crenças políticas de esquerda e grande generosidade, sempre preparado para ajudar quem precisava.

– O legado dele é de solidariedade. O Alfredinho ajudava os músicos, as famílias pobres do Rio. Ele fazia uma ceia de Natal todo ano, falava de amor aos necessitados, era um comunista católico que acreditava em Deus, ia à missa sempre. Era ranzinza para quem não o conhecia, mas tinha um coração enorme. O bar dele é uma casa, você pega cerveja na geladeira, anota você mesmo. Ele foi uma das pessoas mais importantes da cultura carioca – disse Prata, emocionado.

A importância do bar – que para seus frequentadores era uma segunda casa, local para tocar ou ouvir samba e choro, discutir futebol e política, entre muitos outros temas – é tanta que gerou obras como os livros “Bip Bip, um bar a serviço da alegria”, de Chico Genu, Luis Pimentel e Marceu Vieira, e “Bip Bip 40 anos – Histórias de um bar”, de Ana de Hollanda.

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