O Bar do Tom

Por Jaguar

Alberico Campana levou um ano preparando uma homenagem para seu amigo Tom Jobim: um megabotequim. Com a reabertura do enorme espaço da Plataforma dividido ao meio, o Bar do Tom fica à esquerda, separado da churrascaria por um vidro à prova de som e por uma cortina que isola totalmente os dois ambientes. No balcão de madeira, como deve ser o balcão dos botequins que se prezam, o freguês poderá escolher, para acompanhar o chope ou caipirinha, tudo que é petisco, desde moelas e ovos coloridos até torresmo e manjubinha frita.

– Pode-se beber em pé, com o cotovelo no balcão, como na Bracarense e no Paulistinha? – eu quis saber.

– É claro, ficar sentado numa mesa sozinho é triste. Mostra que é um cara abandonado.

Nas paredes, as letras das músicas do Tom. Uma impressionante bomba para tirar chope, em forma de saxofone, e que pode ser manejada pelo próprio freguês, salta aos olhos de quem entra.

– Veio da Holanda – explica o diretor da casa. E garante: – É de ouro de 24 quilates.

Espero que ainda esteja lá.

Fui o primeiro a beber no bar, quando ainda estava em obras. Mais em ritmo de roquenrol do que das baladas de Tom. Me lembrei de um filme de Jacques Tati, com dezenas de operários formigando pelo salão, pintando, esfregando e martelando enquanto os convidados para a estréia iam chegando.

Entre berros e ordens de minuto em minuto, Alberico foi me dando detalhes do esquema:

– Tom não gostava de ambiente escuro, de boate. Dizia que no escuro os chatos atacam mais facilmente.

É verdade. Lembrei-me de uma vez em que eu estava na velha Plata com o Zé Lewgoy. Tom, com enormes óculos escuros, sentou-se conosco, pediu aquela vodca russa que só tem vogal no nome e começou a discorrer sobre a teoria geral dos chatos, como expert no assunto que é, por ter sido uma das maiores vítimas deles.

“Óculos escuros é fundamental”, disse. “O chato exige atenção pupilar. Sem saber para onde você está olhando ele, perde o moral, aí você aproveita o momento de fraqueza e escapa.”

Explica por que passou a frequentar a Plataforma: “Grandes ambientes confundem o chato, ele se desconcentra. Ai de ti quando o chato consegue te encurralar num canto de bar, sem óculos escuros. Bloqueia a passagem, olho no olho, te toca, te enche de perdigotos. Aí não tem escapatória.”

Bebe a vodca, tira os óculos e nos encara, preocupado: “Por acaso estou chateando vocês com esse papo?”

Pra quem não sabe, Alberico teve um papel importante na história da bossa nova. Na sua casa, o Bottle’s, no Beco das Garrafas, apresentou shows produzidos por uma dupla recém-formada, Miele e Bôscoli. E que shows! Dolores Duran – paixão eterna e platônica de Alberico – e uma turma que estava começando: Elis Regina (que o Miele apelidou de Hélice Regina porque cantava Arrastão girando os braços), Luís Carlos Vinhas, Sérgio Mendes, Lennie Dale e outras feras.

– Estava conversando com o Miele, lembrando os velhos tempos – conta Alberico. – Jaguar, lembra daquele show da Darlene Glória e do Simonal? O lugar era tão pequeno que a Darlene trocava de roupa na portaria de um prédio vizinho, porque no Bottle’s não tinha espaço.

– Sorte do porteiro.

– O Miele quer reviver essa época.

– Eu, que sou sobrevivente dela – fiz até, com Marcos Vasconcellos, cenários de alguns shows, – dou a maior força.

Assim o disse e assim o fez: João Donato, Francis Hime e Carlinhos Lyra já deram o ar da sua graça do palco do bar. Um toque para o Alberico: já que o negócio é homenagear o maestro, por que não botar dobradinha no cardápio? Ele trazia numa quentinha do Bracarense e vinha comer na Plataforma. O Zé Lewgoy, que caça dobradinhas em outras plagas, iria adorar.

Cervejaria e Bar do Tom. Rua Adalberto Ferreira, 32. Leblon. Tel. 274-4022

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