O Brasil deixou a alma em Pasadena

Por Luis Fernando Verissimo

Depois da Copa ficamos uma semana entre Seatle e Vancouver, as duas principais cidades do “Pacific Northwest” americano, para recuperar o fôlego perdido naquela cobrança de pênaltis. São duas cidades bonitas e ricas que se preparam para ficar ainda mais ricas com a chegada do resto do dinheiro de Hong Kong que ainda não escapou da retomada chinesa, marcada para 97. Vancouver já é, hoje, uma cidade semi-oriental. Seu banco mais suntuoso é o Hong Kong Bank of Canada.

Um nativo nos perguntou na rua de onde éramos. A resposta não o levou a falar na nossa vitória na Copa, da qual ele provavelmente nem tinha notícia. Levou a dizer que estava prestes a se mudar para a Costa Rica, que imaginava ser vizinha do Brasil. Para fugir dos chineses e do seu dinheiro. A prosperidade que nos dava inveja o espantava para longe do Canadá. Não sei o que ele buscaria na Costa Rica. Talvez um pouco do que está subentendido em “tudo”, quando se diz que o dinheiro não é tudo.

De volta ao Brasil, esta Costa Rica hipertrofiada, e tentando organizar um pensamento final sobre o que tinha visto na Copa, dei com um texto de Julia O’Faolain que me poupou o esforço. Nada menos pertinente ao Brasil e ao seu futebol do que Julia O’Faolain, uma ótima mas pouco conhecida escritora irlandesa (eu, pelo menos, recém a descobri), filha de um famoso escritor irlandês. Mas seu texto sobre a sua Irlanda, o país do terceiro mundo que mais me fascina, se adaptava a alguns sentimentos semiformados que eu trouxera da nossa desconcertante vitória em Pasadena. Uma estranha vitória que criou mais divergências do que resolveu, e deixou muito brasileiro revoltado.

O’Faolein descrevia a Irlanda como um pais vítima, acostumado a pensar como vítima. “Como todos os povos vítima – pense nos judeus, nos pretos e até, na época napoleônica, nos derrotados, desunidos e humilhados alemães – nos persuadimos que nosso fracasso em conseguir a independência era consequência de sermos espirituais demais para sermos práticos. O ressentimento alemão com as vitórias militares da França racional levou à promoção de contra valores que deram no movimento romântico. Os judeus se consideram o povo escolhido de Deus, e assim por diante. Há apenas dez anos na Irlanda eu ouvi a tomada da nossa ilha pelos ingleses descrita como a vitória de um povo tecnologicamente avançado mas espiritualmente atrasado sobre um espiritualmente avançado mas tecnologicamente atrasado. As implicações de tal raciocínio são que a tecnologia faz mal à alma, o sucesso é ignóbil e a nossa é uma raça de santos”.

Somos um povo vítima que tinha no futebol – e na música, e na descontração ensolarada, e na desordem criativa – o nosso desagravo e a prova da nossa espiritualidade superior. Privados do lugar que merecíamos no mundo pelo nosso tamanho e nossa riqueza natural, privados de sermos outro Canadá, cultivamos a nossa santidade de excluídos e romantizamos as nossas consolações, a começar pelo futebol. Se ganhávamos jogando bonito, éramos santos vencedores. Se perdíamos era porque tínhamos sido santos insuficientes. O que ninguém podia nos acusar era de sermos práticos, como os povos sem ginga.

A queixa contra Parreira, Dunga e seus comandados é que eles foram eficientes demais e, com seu calculismo, nos arrancaram da condição de povo vítima e nos transformaram em iguais a qualquer branco sem cintura. A queixa é que eles não ganharam como santos, ganharam como canadenses. Não enfiaram a bola meio das pernas dos gringos, a suprema realização dos povos vítimas contra a tecnologia opressora. Trouxeram a Copa mas deixaram, em seu lugar, a nossa alma. Segundo o romantismo traído, ganhar a Copa não é tudo. Melhor é perder bonito. O Brasil, ai de nós, ficou pragmático.

E os Estados Unidos? No final de “O grande Gatsby”, Fitzgerald escreve sobre a costa leste americana – “a fronte verde e fresca do novo mundo.” Suas árvores desaparecidas, que tinham dado lugar à casa de Gatsby, “um dia tinham se oferecido com sussurros ao último e ao maior de todos os sonhos humanos: por um momento transitório encantado o homem deve ter prendido a respiração na presença deste continente, compelido a uma apreciação estética que ele nem compreendia ou desejava, cara a cara pela última vez na história com algo comensurável à sua capacidade de se maravilhar”. Para Fitzgerald, o “futuro orgástico” perseguido por Gatsby e as promessas da época tinham desaparecido “na vasta escuridão além da cidade, onde os campos soturnos da república se estendem sob a noite”. E o momento encantado não voltaria mais.

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