O butiquim da rua da feira

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Por Moacyr Luz

Não quero dar uma de malandro, mas preste atenção: sardinha você compra de dúzia porque sempre vem uma para o gato. E pede pequena: a espinha não incomoda.

Limão, só serve de casca fina. Daquele miudinho, pouco caroço e muito suco. Se for para misturar com cachaça, quebra com anis, o licor.

Quiabo, para quem gosta, tem que ter a ponta firme para dobrar nos dedos. Rega um vinagre para tirar a baba.

Na barraca dos temperos, o certo é encontrar num canto da bancada a imagem do santo protetor e um defumador de cheiro intenso, louvando a entidade. Geralmente é trabalho para Preto Velho.

Também serve aipim descascado, não o camarão; linguiça fina no tripeiro, mamão-papaia escolhido (porque embaixo do lote é um perigo); lima-da pérsia para adoçar o fim de semana; os cereais servidos ainda no saco de aniagem, pegador de alça no alumínio, pesados numa balança marota, e muito alho, dentes separados com a casca saindo fácil.

A verdura também tem seus segredos, e é nessa hora que entra o butiquim de esquina em dia de feira.

Sem desmerecer, todo feirante cospe grosso. Antigamente, qualquer bar num dia desses calçava o chão com serragem para amenizar a cuspida, esconder a cachaça do santo e quem sabe até disfarçar uma mijada malsucedida. Depois do meio-dia, então, nem te conto… Todo mundo cuspindo e falando alto, porque feirante tem as cordas vocais privilegiadas atrás de um freguês distraído.

Você entra devagar (não se esqueça), escolhe um canto e espera a porrinha começar. A verdura está no caixote perdendo a cor, cheiro-verde enlaçado no coentro, o agrião já quase xarope. Três rodadas de lona e o feirante esquece a paciência. Essa é a hora; você sai desse canto e pergunta, meio de lado, contra o vento, assim à toa:

– E a alface, hein? Tá quanto?

– É um real o caixote. Um real, e não me tira a concentração.

Pronto. Está feita a feira. Agora só falta o açougue acertar o peso da alcatra e oferecer o sal grosso. Mas isso é outra história, que vale a pena.

Papo reto com Noca da Portela

Meu compadre tem uma receita infalível para um “chá de macaco”, reconhecido até por outras agremiações. Aliás, são duas receitas: a dessa bebida e da criação de sucessos retumbantes. Fizemos uma temporada nos moldes do Seis & Meia, e ali nossa amizade se estreitou demais. Inventou a Casa do Noca, movimento que considero uma retomada do samba em vários lugares pelos quais a roda passou. E ainda foi feirante.

Você foi feirante durante quanto tempo?

Por 25 anos. E já fazendo muito samba.

Na barraca do peixe, se o sujeito não for malandro, leva gato por lebre?

Meu amigo, se o peixe tiver com o olho morto, esquece. O resto é manjado: carne durinha e guelra vermelha.

Mas tem que olhar no olho do peixe ou no olho do peixeiro?

Olho no gato. E o gato é o peixeiro.

Já fez um samba em plena feira?

Com meu parceiro Délcio Carvalho, fiz um samba muito conhecido, “No vendaval da vida”. A gente olhava as crianças pegando a xepa, muita pobreza, sentamos no bar e saíram os versos: “Vou sorrindo, com o meu interior chorando…”

Você acha que aquela xepa tradicional acabou?

Hoje não sobra nada, só resto. A classe-média chega ao meio-dia. No meu tempo era mais farto, tinha a xepa dos amigos do samba. O sujeito chegava pra pegar o final e garantir o almoço.

Você também acha fundamental que haja um bom butiquim em rua de feira?

Eu gosto de butiquim de feira aos domingos, quando não se tem pressa para ir embora. É quando o dono do bar frita o peixe da feira, frita o jiló, linguiça e calabresa. Uma beleza…

Você tem alguma manha para curar ressaca?

Dona Conceição, minha patroa e excelente cozinheira, dá o aval: beber outra em cima é infalível!

Para conseguir acordar cedo, o bom feirante sempre toma uma contra a madrugada?

Tinha dia que eu saía do samba direto pra feira. Passava no Angu do Gomes ou tomava uma sopa Leão Veloso, na Praça XV. É claro que já descia uma na hora. O feirante trabalha em pé, então não é mole, tem que estar disposto!

Você lembra de outros mestres do samba que também foram feirantes?

Com peixe, trabalhava o Monarco e o Zé Kéti. Também tinha o Beto sem Braço, que vendia legumes. Fez o primeiro samba dele comigo na feira. Me lembrei de outro samba feito num butiquim depois da feira: “É preciso muito amor”. Eu estava com o Tião da Miracema e vimos uma mulher chegar de vassoura em cima do marido, que ficou na xepa. A gente brincou que seria preciso muito amor para segurar aquela mulher.

E o fã de carteirinha que o procura na barraca e pede pra cantar um samba?

Eu cantava no programa do Flávio Cavalcanti e no dia seguinte estava na feira. Se alguém reconhecia, dizia que era irmão do Noca. Irmão gêmeo!

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