O nascimento do conto do vigário

Pároco de roça, de um modo geral, acumulava suas funções eclesiásticas e catequéticas com um negocinho ali, outro acolá, comprava um bezerro, engordava, vendia, comprava dois; criava meia dúzia de galinhas, vendia ovos, ou os multiplicava em frangos para corte, assim por diante.

Alguns prosperavam, mesmo que para tal tivessem que sacrificar a percentagem de santidade de algumas almas desassistidas em nome de uma barganha mais lucrativa. Mas os pecados graves eram poucos, duas ou três ave-marias perdoavam a bolinagem, seiscentas repunham um hímen, de forma que sobrava tempo para engordar os ganhos.

Numa dessas cidades do interior, tempos idos, chegou um sujeito numa mula, completamente desconhecido na região, e foi à bodega, centro de convenções da comunidade, para pedir ajutório. Queria comprar umas reses e soube que lá criavam bons animais. Imediatamente sabedor do visitante, o vigário foi à venda para assuntar.

O tal forasteiro não dava muita fé de negócio: seco, malvestido, iletrado, cabisbaixo, sujo, mas, enfim – pensou o criador de gado, pode ser uma linha torta do Criador –, quem vê cara, não vê coração. Conversaram, o homem tomando suas pingas, chegou a hora do acerto:

– Quanto o senhor quer na arroba, sr. Vigário?

Preso por cem, preso por mil. Suspeitando de muito cobre na burra do comprador, já falastrão à força de muita cachaça, o padre arriscou:

– Treze mil-réis.

Nossa! Era muito dinheiro! O comprador vacilou. Foi quando o padre ativou sua veia sermonariana e santificou de tal forma suas vacas que arredondaram o negócio, já de noitinha: quinhentos mil-réis a cabeça.

Amparado no santo pároco, o comprador de 100 reses foi desarrear o animal e arriar a carcaça cheia de cachaça numa pensão vizinha. Antes de desmaiar, os olhos recurvos, o homem meteu a mão no mocó de couro, de onde tirou um pacote invejável de dinheiro e, de voz mole, foi contando:

– Quinhentos, quinhentos, quinhentos…

Só que no meio da embriaguez, em vez de notas de quinhentos mil-réis o forasteiro ia desfolhando notas de conto de réis. Colocou 100 notas de um conto de réis em cima da mesa.

O padre, esquecido de vários itens dos Dez Mandamentos, fingiu que não viu o engano, passou o recibo, embolsou a dinheirama correspondente a duas vezes e meia o preço da arroba e foi pra casa sem passar pela Igreja pra não ter que enfrentar os olhos acusadores do Pai Eterno.

Dia seguinte cedo, o dono do rebanho já estava na venda, recrutando a peonada para campear seu gado e levá-lo para a fazenda. De repente irrompe, em chamas, o vigário, acompanhado do delegado e do destacamento, o religioso urrando:

– É esse, delegado! É esse o ladrão! Pega ele! Pega ele! Me pagou com dinheiro falso! Olha aqui! Olha aqui!

E exibia as notas de conto de réis falsas como Judas.

O comprador de gado, impassível, a voz caipira já mais urbanizada, mais limpo, mais ajeitado, simplesmente exibiu ao delegado o recibo estampilhado do vigário:

“Recebi do Sr. Vigário Fulano de tal a quantia de cinquenta contos de réis, em notas de quinhentos mil-réis, como pagamento de cem cabeças de gado compradas dessa prelazia, pelo qual dou plena e irrevogável quitação.”

O conto do vigário danou-se todo, de verde e amarelo!

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