O umbigo da moça da capa

Por Joaquim Ferreira dos Santos

Borogodó. A palavra pode ser muito velha e a orelha da gata em que assopro o galanteio muito nova. Mas acho que a moça da capa tem. Não exatamente no mesmo lugar em que tinha a Angelita Martinez e a Carmen Verônica, vedetes em que o borogodó ficava exatamente ali, naquela curva escandalosa onde o divino e um bom espartilho da Casa Futurista formatavam o triângulo busto-cintura-quadril. Toda vedete era um violão, música maior do Criador. Sorte de quem tocava suas cordas ou, bububu no bobobó, estava na platéia das revistas da Praça Tiradentes.

Não sei, em seguida, quem veio primeiro. Se a guitarra Fender ou a modelo Twiggy. Foram mais ou menos contemporâneas, meados dos anos 60, e similares. Achatadas. Paranóicas. As guitarradas provocavam dissonâncias. A manequim magricela, muita mancha roxa quando acertava o parceiro com aquele osso dos quadris. Foram-se todas. Não há mais solo de guitarra no rock. Olívia Palito também não cruza a passarela.

Eu pediria permissão ao poeta Murilo Mendes, perenemente em pânico e em flor, para atualizar o verso em que dizia o mundo começar nos seios de Jandira. Não mais, mestre. O mundo começa no umbigo da moça da capa. O foco mudou. Eu diria que Daniela Cicarelli cabe melhor no papel de Vénus calipígia. Luana Piovani seria legítima sucessora dos seios de Jandira. Todas lindas, mas não tem para ninguém.

O umbigo da moça da capa é o redemoinho da modernidade sensual. O borogodó que abre parênteses para a nova história do formato feminino.

Faz tempo que as mulheres são mais ou menos as mesmas. Não critico. De vez em quando, porém, como se tivessem feito uma reunião especial para discutir qual seria a nova estratégia, elas mudam, todas ao mesmo tempo, o lugar onde concentram a sedução. Já foi na carne farta, e Renoir estava lá. Recentemente, vingaram as girafas, seres de pernas quilométricas, e o fotógrafo Helmut Newton clicou-as para a eternidade. Pode ser que eu esteja ficando minimalista ao extremo. Mas, parem as máquinas!

O mistério delas migrou para o umbigo e acabou na capa.

Assim caminha a humanidade e admiro essa capacidade feminina de acompanhar o design das coisas do mundo repaginando-se a si mesmas. Elas trocaram um borogodó expansivo, como o das coxas roliças e das ancas fartas (nasciam milhões de mulheres assim, onde estão?), pelo pingo umbilical. Isso faz todo sentido num momento em que as melhores escolas de design procuram o mesmo com o traço simplificado de seus inventos. Foram-se as catedrais barrocas das vedetes.

Repaginada a cada estação, a figura da mulher continua sendo o sopro que põe crédito na existência do superior designer.

Freud encucava sobre onde elas colocavam o desejo. Eu quero saber apenas onde as mulheres vão colocar o borogodó, para onde vão desviar nossos olhos depois que arquivarem essas calças de cintura baixa da Maria Bonita.

Havia panos demais sobre o corpo para uma avaliação de rigor científico, mas eu duvido que as panturrilhas com que a Chiquinha Gonzaga se encaminhava até o piano no início do século XX tivessem alguma coisa a ver com as que ajudam Cynthia Howlett, desenvolvidas na malhação, a mover-se hoje sobre as areias do Arpoador. Mulheres são mutantes. É bom que sejam. Precisam perceber apenas que o borogodó de uma nem sempre está no mesmo lugar dos quatro ós abertos da outra. E foi algo assim que eu aprendi com o ator Zé Trindade, divulgador, nas chanchadas dos anos 50, dessa palavrinha que merece ser incluída em qualquer lista das mais expressivas da língua portuguesa.

Ele era um nordestino atarracado, sem pescoço, um sujeito feio de dar dó, mas nos filmes fazia enorme sucesso com o mulherio. Acreditava no seu taco.

Sempre que perguntado como conquistava tantas, Zé alisava o bigode, um horroroso filete de pêlos ralos. Antes que as vedetes de coxas grossas começassem a beijá-lo e o crédito de “Fim” surgisse na tela, ele piscava para a câmera e dava o bizu: “É que eu tenho borogodó.” O cômico foi um gênio de sabedoria popular e eu só não entendo por que seu método de sedução não está entre os clássicos da auto-ajuda.

O umbigo da moça da capa é estado de arte e toque final aos incréus sobre a existência d’Ele – que em seguida desligou o celular e se mandou pruma pousadinha em Mauá. Era modelo único. Acabou. Eu, se fosse você, não entrava nessa tortura invejosa de ginásticas e dietas para ter o mesmo modismo que vai na barriga das outras. Eu faria como o conquistador Zé Trindade. Invente e aposte todas as fichas no seu próprio borogodó.

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