O Violão Rouco

Por Jaguar

Bons tempos aqueles em que a voz rouca das ruas era a do Nelson Cavaquinho e não a metáfora reeleitoreira de FHC. Nelson cantando seus sambas de bar em bar, madrugada adentro, com seu violão, rouco também e que era a extensão da sua voz, calejada por incontáveis talagadas, como o pistom de Sarchmo ou o sax de Booker Pittman. Que fim terá levado aquele violão de um verde encardido, que ele tocava na vertical, com o braço do instrumento ereto tal e qual o “cheio de varizes” que era como ele nomeava carinhosamente o seu pau?

Nelson foi embora em 86, mas tenho pensado muito nele ultimamente. Roberto Garcia me levou para ver um cartaz dele no Teatro Opinião. Mostra o “poeta dos cabelos prateados” sentado num banco e tocando, coisa rara, o cavaquinho que valeu o apelido para o soldado PM Nelson Antônio da Silva, que varava as noites na Mangueira, em bebedeiras e cantorias com Cartola, Carlos Cachaça e outros bambas. Ele fazia ronda a cavalo, e o bicho acabava voltando sozinho para o quartel. Como se sabe, cavalos gostam mais de ópera.

Vida que segue, como dizia João Saldanha, o esguio cavaleiro ganhou corpo e o cavaquinho foi trocado pelo violão, mais compatível com o porte e a “voz arenosa” (copirraite do Tárik de Souza).

No pôster ele está cantando, o olho direito fechado enquanto o olho me fita fixo, uma verruma. Olho igual só o do Picasso nas fotos de David Douglas Duncan.

“Beba Nelson Cavaquinho” – de sambista para sambista, o carinho de Chico Buarque para o mestre, dividindo a mesma redondilha de Paratodos com Ary Barroso e Vinicius.

Amigos (in)comuns, Sérgio Cabral, Macalé, Chico PF que, por ironia do destino, tem uma casa na rua Nelson Cavaquinho, em São Pedro da Aldeia – todos têm histórias do Nelson para contar. Que, basicamente, são sempre a mesma história: em alguma hora, em algum lugar, o cara capotava, enquanto o incansável Nelson prosseguia impávido. Diz a lenda e o Macalé dá a cara a tapa se não for verdade, que Nelson emendava dois, três dias sem dormir, cantando e bebendo. Um titã.

A minha história: uma da madrugada, eu voltava de um show de João Nogueira no Imperator, no Méier. Paro num sinal da Rio Branco. No meio de uma roda de mendigos, Nelson com seu violão. Dali, fizemos um rolê por todos os pés-sujos que ainda estavam abertos àquela hora, depois fomos para o Buraco Quente, na Mangueira e, já dia claro, fui a pique no sofá de sua casa na Vila Kennedy. Quando acordei, ele já tinha se mandado.

“Hei de ter um alguém pra chorar por mim / através de um pandeiro e de um tamborim” (Pranto do poeta, dele e de Guilherme de Brito).

E eu, que não toco pandeiro nem tamborim, cumé que fico, Nelson?

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