Os amigos, os parceiros e sua contribuição

Por Mário Goulart

Nenhum outro compositor brasileiro dependeu tanto de seus parceiros e amigos como Lupicínio Rodrigues. Desde Alcides Gonçalves, que o lançou e com ele compôs coisas lindas, até os que não colaboraram com uma frase sequer – mas, vivendo e amando, contaram-lhe suas experiências. É realmente curioso esse aspecto na obra de Lupicínio: praticamente todas as suas músicas foram inspiradas por casos verídicos, acontecidos com ele ou com seus companheiros. Muita gente credita a isso a poesia-verdade (nua e crua) encontrada em toda a sua obra.

Para falar deles, comecemos com Felisberto Martins, diretor artístico da Odeon nos anos 30, um parceiro inteiramente fictício. Este jamais acrescentou uma única vírgula em algum verso de diversas canções de Lupicínio – “Brasa”, “Zé Ponte”, “Torre de Babel”, “Meu pecado” e uma porção de outras –, mas foi a solução encontrada por Lupi para conseguir gravar no início da carreira. Este “parceiro” substituiu plenamente – talvez até com maior eficiência – o outro, o primeiro e verdadeiro, Alcides Gonçalves. Felisberto não era um cantor querendo lançar discos, era um funcionário-chave de uma gravadora, bem-relacionado, com acesso ao meio discográfico. Foi o importantíssimo “parceiro” do primeiro sucesso nacional em 1938, “Se acaso você chegasse”. Lupi nunca deixou de reconhecer isso.

Outro parceiro: Rubens Santos, 73 anos, um carioca que passava pelo Sul para fazer uma temporada em Buenos Aires e, sem dinheiro, acabou ficando. Isso em 41 ou 42. No Rio, era corista da Odeon e da Escola de Samba de Herivelto Martins. Em Porto Alegre foi amigo, parceiro (de verdade), empregado e sócio do Lupicínio. Trabalharam juntos em várias casas: Galpão do Lupi, Vogue, Jardim da Saudade, Clube dos Cozinheiros, Batelão. Muita convivência e várias parcerias: “A prova do crime”, “Samba do feijão”, “Tem navio no porto”, “Maria da Noite”, “Minha história”, “Calúnia”.

“A prova do crime”, com letra de Rubens, fala de alguém que “diz que sempre foi sincera, procurando me culpar / mas a prova do crime eu tenho guardada e posso mostrar / é um par de sapatos que alguém apressado não pôde calçar”. A música é do Lupi que, nesta também forneceu a história, real. Outra canção, “Maria da Noite”, é um belo exemplo da memória estupenda do poeta, que ajudava a compor sem ele entender absolutamente nada de música. Rubens fez um samba para Maria, que ambos conheciam, e cantou: “Maria da Noite / hoje vive chorando na porta da igreja / a pobre coitada/ assistiu de repente seu sonho acabar. / Aquele rapaz / de braço com a moça vestida de noiva / jurou certa noite/ que era com ele que iria se casar / Maria da Noite não crê mais em amor / Maria da Noite diz que tanto faz/ Maria oferece seus beijos a quem pagar mais”.

Lupi ouviu e opinou: “É meu camaradinha, é bonito o samba. Mas parece que tu tem preguiça de fazer a letra. Não precisava ser lacônico assim”. No outro dia, para um Rubens espantado, que pensava já ter a música concluída, aparece o Lupi: “Meu camaradinha, eu fiz a primeira parte do teu samba…” Era esta: “Eu conheci a Maria com uma trança comprida / sonhando coisa na vida que um anjo pode sonhar / vendo no seu namoro, príncipe encantado / que nem a fada malvada tinha poder pra roubar”.

Um inseparável: Johnson, ou Orlando, 73 anos, ex-boxeador, cantor e boêmio até hoje. A corda e a caçamba. Onde estava um, estava o outro. Por ter um dia levado o fora da mulata Olga, em plenas festas juninas, ganhou um samba, “Meu pedido”, que na verdade era dirigido a um ex-amor de Lupi e à casa das serenatas que naqueles tempos tinham sido proibidas: “Meu São João, luz bendita/ (…) / Fazei voltar a serenata/ pra que a lua cor de prata/ possa de novo me ouvir/ Ela é quem dá como prêmio/ inspiração ao boêmio/ que o amor não deixa dormir”. Nos últimos anos, ambos frequentavam o Dona Maria, bar tradicional de Porto Alegre. Pela porta vai-e-vem, tipo saloon, entrava sempre o Johnson primeiro, e em seguida o Lupi. Depois da morte do compositor, a maior curiosidade dos amigos era saber como enfrentariam a primeira entrada do Johnson – que demorou a aparecer –, quando atrás dele não viesse nada: nem Lupi nem ninguém, apenas uma angústia entrando pela porta e enchendo o bar de saudade.

Quando foi tentar a vida no Rio de Janeiro, em 1939, Lupi levou um amigo muito querido: Ari Valdez, o Tatuzinho (porque analfabeto, “assinava” o nome desenhando um tatu). Além de cômico nato, Lupi dizia ser ele o único gênio que conheceu. Ari chegou a ter um show no lendário Cassino da Urca, em que se apresentava com originalidade: entrava no palco com uma enorme caixa de violoncelo e dali tirava um cavaco deste tamaninho, instrumento que tocava muito bem. Um dia Tatuzinho ajudou uma mulata a gravar seu primeiro disco e depois se apaixonou por ela. Acabou casando e tendo um filho com a Elizeth Cardoso. Mas as coisas não andaram bem muito tempo. O casamento durou um mês e meio, Tatuzinho voltou para a Porto Alegre e morreu, segundo Lupi, no meio da maior tristeza deste mundo.

Às vezes, querendo ajudar, os amigos enchiam o saco. Era na hora do português, matéria que Lupi conhecia mais por vivência, pois mal chegou ao ginásio. Mas era seu instrumento de trabalho, poxa, e poucas, muitas poucas vezes aceitava palpites. Na letra de Um favor há um verso que ele cantou assim pro Demósthenes Gozales, a música recém-feita: “flauta, trambone ou clarim”. Lupi, teimosamente, foi contra todas as evidências que indicavam trombone. Só à noite, quando apresentava a música para um público maior, cantou a palavra corretamente.

“Não, companheirinho, vamos deixar assim, que está bom de ouvido, de rima”, insistia sempre. Lupi já era coloquial, diz Glênio Peres, numa época em que se falava de um jeito e se escrevia de outro. Daí os erros de concordância, de grafia e vários outros – e sua briga para mantê-los, certo de que a informalidade era essencial em sua arte. Botou a frase “uma flor que apodrece” na música “Dia cinzento”, do Rubens Santos, e não arredou pé, nem quis saber de “uma flor que fenece”, sugerida pelo parceiro. “Não, meu camaradinha, eu faço música pro povo e noventa por cento não sabem o que é uma flor que fenece. Agora, uma flor que apodrece todo mundo sabe o que é.”

(A propósito, sobre o poeta, a opinião de outro grande poeta gaúcho, Mário Quintana, em entrevista ao Sérgio Endler para o Tchê!: “O Lupicínio Rodrigues pra mim era um poeta formidável. Antes de tudo, o Lupicínio não tinha como nós uma vasta cultura. Não digo isso pra diminuí-lo. Ele tinha pouca cultura, pouca leitura. A gente lê nos outros e depois, de uma certa maneira, a gente plagia os outros. As idéias dos outros provocam outras na gente, não é? Alguns autores são fecundantes e têm outros que não são, não é? Mas o Lupicínio não tinha leitura nenhuma. As idéias que tinha ele tirava dele mesmo, da vida, sabe? Poeta formidável”.)

Na casa do jornalista Cídio Salatino, que o hospedava sempre que ia ao Rio de Janeiro, Lupi compôs “Margarida”, inédita até hoje. Era verão de 1958, a moça loira desceu do terceiro andar e, como fazia todas as tardes, bateu no apartamento do Cídio. Lupi atendeu, a moça foi direto pra cozinha preparar uma cuba-libre e ele correu pro Cídio: “Mas meu companheirinho, eu não merecia tanto, mas que moça bonita!” Nesse dia Cídio perdeu a mulher e Margarida ganhou uma música (o amigo depois ainda colaborou melhorando os versos “e ela vai tomando banho / dentro da água escondida”, o que não foi fácil): “Ai Margarida / Margarida, meu amor / se os anjos do céu são loiros / ela é anjo, sim senhor. / Eu vou contar pra vocês / como é a Margarida / uma espiguinha de milho / no ponto de ser colhida. / E quando a gente se espelha / nos olhos da Margarida / vê duas pombinhas rolas / beliscando a nossa vida. / E quando ela toma banho / mesmo na água escondida / as curvas do mar se curvam / pras curvas da Margarida”.

Acho que a gente pode dizer hoje que Lupicínio teve os amigos e parceiros certos. Fossem outros, outra seria a obra. Vejam só: se o Hamílton Chaves não resolvesse casar aos 22 anos, não saberiam os jovens que “se eles julgam que um belo futuro / só o amor nesta vida conduz / saibam que deixam o céu por ser escuro / e vão ao inferno à procura de luz” (“Esses moços, pobres moços”, de 1947). Hamílton, aliás, que na prática era quem administrava a SBACEM, foi um de seus amigos mais chegados.

Nos 28 anos que trabalhou a seu lado, incontáveis vezes assistiu à feitura de letras e em raras ocasiões interferiu: tinha consciência de que era preciso respeitar a genialidade do compositor. Um dia levou-lhe a letra de “Meu barraco”, do carioca Leduvy de Pina. Lupicínio leu, gostou e fez a música, numa das duas ou três parcerias em que não foi o letrista. E, curiosamente, este samba, gravado por Jamelão no início dos 70, possui um verso antológico, “juntar os cabelos brancos na mesma cama e dormir”: “Eu vou mudar o meu barraco mais pra baixo / as minhas pernas já não podem mais subir / alto do morro era bom na mocidade / na minha idade a gente tem que desistir. / Subir o morro antes era brincadeira / até carreira eu apostava e não perdia / quando eu subia todo mundo me aclamava / e reclamava toda vez que eu descia. / Tardes de sol a cabrocha me esperava / antes da hora eu chegava sem um pingo de suor / vinha correndo, ô meu Deus, que bom que era / mocidade não espera, quanto mais cedo, melhor. / Mas hoje em dia a minha velha sofre tanto / fica jogada num canto me esperando até subir / chegar cansado de pisar estes barracos / juntar os cabelos brancos na mesma cama e dormir”.

(Quarto capítulo do livro “Lupicínio Rodrigues”, de Mário Goulart, que iremos publicar na íntegra, capítulo por capítulo, diariamente. A introdução e o demais capítulos podem ser lidos aqui no Portal, na seção “Memória Viva”.)

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