Os boêmios e os malandros da noite

Por Mário Goulart

Aos boêmios e malandros da noite, tudo: um alto estado de espírito, um vago entorpecimento pelo álcool e a natural sensação de felicidade – coisa dificilmente encontrada durante o dia. E a liberdade. A liberdade da noite que, para quem não sabe, existe mesmo: na disponibilidade do tempo, no senso de humor, no astral geral, no clima todo.

A noite é sempre uma criança. E, dentro dela, os que vivem atrás do prazer, na busca eterna de um lugar e um momento pra ser feliz. Isto não é fácil. Mas quem anda na noite, se diverte. E se os fins nem sempre são alcançados, só a batalha já vale a pena, companheiro, pois é certo, certíssimo que tudo aquilo foi um tremendo sarro.

O espírito nem sempre é esse, claro. Frequentador de bares famosos do passado, poeta consagrado do presente, o gaúcho Mário Quintana é um bom exemplo de boêmio mal-humorado. Entrava no Bar Tuim, em Porto Alegre, sempre sozinho, pedia uma batida de limão e ficava lá, quieto, sem ligar pra ninguém. E a turma provocava: “É difícil encontrar alguém que seja mudo e ao mesmo tempo antipático. Pois, olha, no fim deste corredor tem esta criatura”. O Mário, nem bola. Um dia, o amigo Ivan Castro avisou: “Ô Mário, tudo isso que estão falando aí é a teu respeito”. O poeta, impassível: ”Tô ouvindo tudo, mas aqui pra vocês, ó”.

Mas o próprio Quintana, vejam só, guarda boas recordações do seu tempo de boemia, conforme o demostra no livro “Na volta da esquina”:

“Havia antes, por exemplo, os cafés sentados, fumados, conversados, onde a gente arrasava o mundo, mas renovava o sonho, o ideário, a vida”. Quer dizer: o humor do boêmio Mário Quintana existia, sim, só estava escondido atrás daquela aparência de chato. Um “chato” que, além do mais, exige a nossa compenetração só pra nos mostrar algo fora do comum: “Atenção! O luar está filmando…” Francamente.

Menos fino, e muito mais popular, o poeta Lupicínio Rodrigues também meditava sobre a noite. Mais que isso: ele vivia a noite e, não sendo um intelectual, interpretava-a sensorialmente, com a autoridade de um boêmio e, cá entre nós, com muito mais pragmatismo. Seu pensamento sobre o assunto pode ser sintetizado nestes cinco itens:
Boemia é a alma de tudo quanto se refere à noite;
O boêmio é sempre uma pessoa muito sentimental;
Boêmio não é conquistador nem vagabundo;
O boêmio deve casar, sim. O solteiro raramente chega aos quarenta; o casado morre de velho;
É um erro a mulher pensar que pode mudar o marido: o verdadeiro boêmio não renuncia.

Boêmios sempre existiam. No Brasil tornaram-se particularmente famosos os que se reuniam na Confeitaria Colombo, na Pascoal, no Lamas, bares e cafés do Rio de 1900. Tudo intelectual: Bastos Tigre, Olavo Bilac, Emílio de Meneses, J. Carlos, Raul Pederneiras. O tempo era de belle époque e a turma aproveitava. Bastos Tigre, por exemplo, que começou a carreira como “foca” do Jornal do Brasil e ganhou fama de poeta humorístico (“Veja, ilustre passageiro/o belo tipo faceiro/ que o senhor tem a seu lado/ e, no entanto, acredite/quase morreu de bronquite/salvou-o o rum creosotado”), fazia das suas. Uma vez plantou um coqueiro num buraco que existia há meses na rua Gonçalves Dias. O coqueiro chegou a crescer, até que a prefeitura providenciasse o reparo. Noutra, estava tudo certo pra sair fantasiado de libélula no Carnaval quando seu chefe o escalou para o plantão dos quatros dias. Nem vacilou: fugiu e foi participar do desfile. Estava lá, como uma libélula, quando o carro enguiçou, sabe onde? Defronte ao jornal. Foi reconhecido a despedido.

Em artigo publicado na revista Ele & Ela, Paulo Mendes Campos fala dos que vieram depois:

“Zé Lins do Rego era detectado à distância por sua gargalhada. Com ar de menino levado e lavado, Lamartine Babo já entrava toureando uma canção amena. Ari Barroso, pelo contrário, turbilhonava para dentro do bar com gestos e gritos homéricos: parecia que a guerra fora declarada ou que um ônibus passara por cima dele; mas não era nada”.

Muitos outros nomes famosos circularam e circulam pelos bares da vida, prestigiando e divulgando a boemia. Vinícius de Moraes e Tom Jobim que, no antigo Bar Veloso, hoje Garota de Ipanema, inspiraram-se para compor a canção famosa. Paulo Francis e Jaguar, um dizendo e o outro publicando a frase-lema “Intelectual não vai à praia, intelectual bebe”. O sempre lembrado Antônio Maria, cronista, compositor e parodiador de si mesmo: “Ninguém me ama / ninguém me quer / ninguém me chama de Baudelaire”. José Carlos de Oliveira, que escreve suas crônicas numa mesa do Antônio’s. Tarso de Castro que, baseado na churrascaria Rodeio, dispara críticas para cima e pra baixo. E tantos, tantos mais: Mário de Andrade, Sérgio Porto, Chico Buarque, Lima Barreto, Mário Lago, Lúcio Rangel, Oscar Niemeyer, uns mortos, outros aí, todos vivos na história dos boêmios e dos bares.

Na terra do Lupi, evidentemente, sempre houve boemia. Da Porto Alegre provinciana, porém, não saem as histórias, não se propagam os feitos boêmios e, pior que nas centrais Rio e São Paulo, não se guarda a memória de nada. Quem aí já ouviu falar de Piratini, Ovídio Chaves, Caco Velho, Paulo Coelho, Carusinho, Horacina Corrêa? Todos músicos e cantores que, atuando na noite gaúcha, fizeram uma obra memorável e esquecida – coisa que a nova geração nem sonha que existiu.

“Quando aparecerão pianistas para substituírem os saudosos Paulo Coelho e Britinho?”, reclamava o Lupi em 1963. Ele se referia a dois dos maiores músicos do Sul, requisitados pelos artistas que chegavam de fora, convidados para tournées pelos países do Prata. Paulo Coelho, principalmente, era uma atração na Porto Alegre dos anos 20-30, tocando com seu conjunto nas confeitarias Colombo e Central. É considerado ainda hoje, pelos que o conheceram, como o maior pianista do Brasil.

Alberto Dias, o Carusinho, fazia de tudo para sobreviver, porque só a voz, potente, não adiantava. Shows: cantar e comer ao mesmo tempo, pendurado de cabeça pra baixo; ficar cantando, sem parar, durante 48 horas; coisas assim. Acabou estragando a garganta e mudando de ramo, especializando-se em tratamento de calos. Mas antes compôs “Na Aldeia”, que Sílvio Caldas pegou quando passou por aqui e levou para o sucesso nacional.

Horacina Corrêa, uma mulata linda, também deixou saudades. Começou na orquestra do Paulo Coelho, se projetou com uma música do Carusinho, “Segura o bonde”, e se mandou Brasil e mundo afora, até se radicar no Egito.

A história da vida de Antônio Amábile, o Piratini, é muito parecida com a própria história do rádio gaúcho. Humorista, flautista, animador, compositor e o diabo a quatro. Deixou, ao morrer em 1953, com 43 anos, uma parceria com o Lupi (“Amargo”, hoje um dos clássicos regionais gaúchos), a idéia, executada, da Casa do Artista Rio-grandense e, claro, fragmentados que precisam ser juntados se se quiser reconstruir sua obra.

Outro boêmio incrível: o poeta Ovídio Chaves, irmão do jornalista Hamílton, dono de bares na noite de Porto Alegre. Um dia foi chamado de dono da noite e, conta Glênio Peres, começou a fazer concorrência com ele mesmo: Clube da Chave, Clube da Música, Piano Drink. Esta última era onde hoje está o estádio do Internacional, dentro do rio Guaíba, com uma atração diferente: uma ponte móvel sobre a água, ligando a terra à boate, e que era erguida quando a casa enchia ou, dizem, quando se detectava a chegada de algum chato.

Intelectuais e políticos da pesada também movimentaram os bares do Sul. O Café Colombo, pelos anos 20 e 30, era frequentado por gente como Athos Damasceno, Augusto Meyer, Theodomiro Tostes, Lindolfo Collor. Um pouco antes, Alceu Wamosy e De Souza Júnior tomavam umas biritas e transavam poesia no Café Suissa. Um pouco depois, o interventor Flores da Cunha dava uma chegada ao Florida, em plena Rua da Praia, e, vendo lá Alcides Gonçalves, pedia: “Canta aquela do lenço no pescoço!”. E o Alcides cantava, quem diria, para o governador, o hino da malandragem composto por Wilson Batista: “Meu chapéu de lado / tamanco arrastando / lenço no pescoço / navalha no bolso / eu passo gingando / provoco e desafio / eu tenho orgulho de ser tão vadio”…

Tirando-se uma média, o roteiro boêmio dos bons tempos era este: Chalé da Praça Quinze, Gambrinus, Treviso, Hubertus, Pelotense, Bela Gaúcha e, entrando noite adentro, os cabarés. Mulheres de primeira eram encontradas no finíssimo Clube dos Caçadores, onde também tinha uma boa roleta. Ou, mais democraticamente, mulheres também havia nas boates Marabá, Maipu, Istambul, American Boite. Bons tempos aqueles em que a província era muito mais provinciana, mas, para o amor, sempre se dava um jeito.

Alcides Gonçalves vê um leitãozinho na Rotisseria Pelotense. Não resiste, fala pro Johnson, que decide: “Vou pegar um dinheiro com o Lupicínio, pra gente comer nem que seja uma orelhinha”. Lupi: “Ih, vocês já vêm! Tu e o Alcides estão sempre enchendo!” Lupi, avarento e precavido, distribuía as notas maiores e menores em bolsos diferentes. Leva a mão pra pegar uma menor e se engana. Johnson avança, faz um sinal pro Alcides e pedem o leitão inteiro. Cena seguinte: Alcides e Johnson saboreando o leitão e bebendo cerveja, satisfeitos, enquanto o Lupi, que se recusa a comer, fica na ponta da mesa, tristonho, escorando a cabeça com as mãos. Terminada a refeição, ele se levanta, uma fera:

– Já comeram? Já beberam? Posso ir-me embora? Então vão todos à puta que pariu!

Antoninho Onofre, jornalista boêmio, manteve durante 33 anos, no Diário de Notícias de Porto Alegre, a coluna boêmia Ronda. Em certa época, tinha muito medo de morrer. Os amigos não perdoaram. Numa festa em que estavam presentes Lupicínio, Alcides, Ribeiro Hudson e tantos outros, decidiu-se, depois de uma grande bebedeira, que o Antoninho seria o primeiro a saber como os amigos receberiam a sua morte. Seria assim, com um samba do Glênio Peres: “Morreu o Antoninho Onofre / homem bom estava ali / até a lua de triste / não passa mais por aqui. / Quem gosta da noite, sofre / morreu Antoninho Onofre. / Toda a rua tem seus bares / que são dos tristes o ninho / e os bares do céu se abriram / para receber Antoninho”.

O saxofonista Marino, o violonista Boquinha, o cantor Sadi Nolasco e os pianistas Paulo Coelho e Alcides Gonçalves formaram, nos anos 30, uma turma inseparável. Nas folgas do trabalho no Café Colombo e na Rádio Farroupilha, caíam na malandragem. Serenatas inesquecíveis: algumas terminavam às oito da manhã, em pleno centro de Porto Alegre; outras começavam à meia-noite, num cemitério, em homenagem a um amigo que se fora.

Numa destas, se deram mal. A turma foi, pulou o portão fechado e, diante do túmulo do companheiro morto, cantaram todos, sentidos, até não poderem mais. Voltaram e, surpresa, o portão estava aberto. Na frente do cemitério, três viaturas da polícia, um furgão com a porta escancarada e um policial convidando:

– Podem entrar, faz favor…

Enquanto se armava uma outra seresta, provavelmente com a mesma turma, apareceu um chato que, além do mais, tocava violão muito mal. Como se livrar dele? Alguém teve uma ideia:

– O senhor me deixa ver o seu violão?

Pegou, examinou:

– Ah, “Três Andorinhas”?! Mas violão pra serenata não pode ser “Três Andorinhas”…

E pá! Quebrou o pinho na calçada.

Uma mesa grande na Churrascaria Itabira: Demósthenes Gonzales, Dilamar Machado, Johnson, Lupicínio e Jamelão, que estava atuando em Porto Alegre. Aparece a Marion, famosa proprietária de casas noturnas (Caverna e Dragão Verde), bêbada:

– Lupi, meu querido negrinho, me dá um beijo! Tu não aparece na minha casa, tu é um ingrato!

Senta no colo dele e fica ali, contando histórias. Depois se levanta, vai embora e o Lupi, todo molhado, falo ao Demósthenes:

– Olha o que a Marion me fez…

Demósthenes:

– Ô rapaz! Por que tu não levantou?

Johnson:

– Se fosse eu, dava uma bronca!

E o Lupi, tranquilo, naquele seu jeito mole e arrastado:

– Mas tava tão quentinho…

Uma amiga dos boêmios chamada, digamos, Marlene, casou com um americano e foi embora. Ficou anos nos Estado Unidos, curtindo uma saudade danada. Um dia consegue voltar e a primeira coisa que faz é pegar o seu americano e levá-lo pra conhecer a noite e os seus amigos. É uma festa e tanto, todo mundo lá num bar, mil recordações, roda de samba, alegria geral, até o americano, meio encabulado, caindo na farra. Aí chega o Alcides Gonçalves, tribêbado, gritando na porta:

– Ô Marlene querida! Como vai essa xoxota?

Que tempos… “A patota do Lupicínio era mesmo barra pesada”, disse uma vez ao jornal Tchê! o humorista Carlos Nobre, que começou a carreira como cantor e cantando justamente “Nervos de aço”, do Lupi. Passando pro humor, não deixou de cantar a mesma música: “Você sabe o que é ter uma dor, meu senhor / dessas tais que nos fazem correr? / E entrar em qualquer corredor, meu senhor / sem saber o que há de fazer? / Você sabe o que é ter uma dor, meu senhor / dessas tais que nos dão de repente? / e no fundo do tal corredor / Escutar uma voz / respondendo “Tem gente!…”

Bons tempos aqueles.

(Sétimo capítulo do livro “Lupicínio Rodrigues”, de Mário Goulart. Os demais capítulos estão publicados na seção “Memória Viva”.)

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