Parem as máquinas! O repórter morreu!

Por Joaquim Ferreira dos Santos

Hunter Thompson, o repórter americano que meteu uma bala na cabeça, tinha uma regra de ouro para esquentar a entrevista que não estivesse rendendo. Ele recomendava que o jornalista respirasse fundo, como se estivesse buscando a última gota de ar, e em seguida soltasse um impropério contra o entrevistado. “Seu isso, seu aquilo, salafrário de quinta, cronista de segunda.”

Hunter fez o truque algumas vezes e garantia. A entrevista, que até ali se esticava sem qualquer interesse, começaria a ter um mínimo de sangue correndo. Era um exagerado. Não à toa os Hell’s Angels deram-lhe uma coça numa matéria. Problema deles. No dia seguinte, atracado com o jornal, o leitor sorriria agradecido.

Quando ouvi seu tiro nos miolos, exagerado que aprendi a ser, entendi logo. Hunter Thompson, autor de reportagens inesquecíveis em que o repórter era sempre o centro dos acontecimentos, nem aí para essa balela da objetividade bege do jornalismo, Hunter Thompson estava aplicando de jeito radical a técnica que ensinou a milhares de jornalistas. Parágrafo primeiro e único da nossa Constituição: “É obrigatório manter a platéia acordada”. Revogam-se todos os ombudsmen em contrário.

Os jornais andam sonolentos, não é não? Todo dia, mal começo a folhear, toca no meu iPod interno aquela velha musiquinha do Gilberto Gil dizendo “as notícias que leio conheço / já sabia antes mesmo de ler”. O repórter morreu, eis o lide do que se quer dizer – e já que as reportagens escasseiam, espremidas por colunas e artigos de todos os lados, esse obituário vai em forma de crônica. Como na mesma semana do americano morreu outro bamba no assunto, Carlos Rangel, do Jornal do Brasil nos anos 60 e 70, eu aproveito para retificar a frase e esticar o pensamento. Os repórteres morreram. Alguém consegue dormir com uma notícia dessas?

Thompson era o exemplo extremado de um repórter ao pé da letra, o sujeito que saía em campo, encharcava-se do assunto – no seu caso, contratado da revista Rolling Stone, um coquetel de sexo, drogas e rock and roll – e voltava à redação para passar adiante, no estilo mais serelepe que conseguisse, o que havia recolhido. Era um contador de histórias, esse princípio básico do jornalismo. Ver, ouvir e relatar – o meu com molho, por favor.

O repórter-que-anota-no-bloquinho é a versão pós-moderna do cidadão que sentava nas praças medievais e contava para a aldeia o que tinha visto alhures. Estão-se indo quase todos. Thompson e Rangel, que Deus os mantenha sempre no alto da página ímpar, são apenas os casos mais recentes.

Esse tipo de maluco, caçador de pauta exótica, anda demodê. Sua busca de casos imprevisíveis não cabe nos novos fluxos do industrial. Atrasa o fechamento. Sua emoção vai em desencontro às orientações do jurídico, enchendo o financeiro de contas a pagar por processos perdidos na Justiça. Ele desparagona o desenho clean do pessoal dos infográficos.

O repórter em estado bruto, e no caso de Hunter Thompson bota bruto nisso, sempre provocando briga para acordar as fontes por onde passasse, um repórter desse tipo não entende o novo palavreado das infindáveis reuniões de todos os dias na redação para acertar o foco da editoria. Criticado por nâo agregar valor às necessidades de sinergia sincera entre redação e marketing, o repórter tipo Thompsom – ou Otávio Ribeiro, o Pena Branca, autor, com o curso primário incompleto, de algumas das melhores matérias de polícia da Veja nos anos 70 –, um repórter desses, cobrado da necessidade de potencializar a informação em espaços cada vez mais minimalistas, vai perguntar de volta ao senhor editor: “Cuma?”

O repórter que não está sendo chamado ao RH antecipa-se ao lento extermínio da espécie e mete uma bala na cabeça. Deixa jornais cada vez mais bem resolvidos como produto final e profissionalizados como empresas, o que é fundamental para explicar a história heróica dos poucos que sobreviveram – mas carentes daquela grande estrela original.

Onde anda o sujeito eternamente pilhado que vai para a rua, vivência os acontecimentos com olhos de eterno espanto e conta com personalidade? Onde o David Nasser ético que mostre o senador de cueca?

Onde o Joel Silveira que penetre na festa dos Matarazzos de hoje, o jogador de futebol e a modelo, e cinqüenta anos depois da festa na avenida Paulista mostre com estilo literário que o dinheiro pode até ter mudado de mão, mas o ridículo ainda campeia entre os novos-ricos que o pegaram?

Onde os filhos da revista Realidade, mergulhados durante dias num assunto?

Os bons jornais brasileiros estão entre os melhores do mundo, a praga não lhes é exclusiva. Há muito gabinete de senhor doutor nas páginas e nenhum Hunter Thompson para subir na mesa e desarrumar a papelada. As notícias que leio, conheço, e elas agora chegam por e-mail. Ao telefone, sabichões declaram isso, afirmam aquilo outro para matérias que abrem o travessão e deixam um verbo frio encher o espaço até o ponto final.

A História de um país não está nas grandes batalhas e nesses parlamentos perfumados dos severinos de ocasião – e aqui eu estou pedindo licença para traduzir em bom português o que escreveu Joseph Mitchel, o repórter americano das andanças do mendigo Joe Gould pelas ruas de Nova York. O importante é o que as pessoas conversam em dias comuns, agitam nas noites intensas, como aram a terra, discutem seus problemas e põem a vida em movimento. É uma pena que haja cada vez menos Hunter Thompson e Carlos Rangel para pegar essa pauta.

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