Réquiem para uma música que morreu

Por Rafael Galvão

Passei diante de um bar dia desses e de lá dentro ouvi uma banda tocando uma canção do Legião Urbana. Nada demais. Ou melhor, nada demais se aquela não fosse uma canção com 35 anos de idade.

Essa é a maior prova de que a música pop morreu. Esse é o seu enterro, uma banda tocando “Geração Coca-Cola” em 2020, e aqueles garotos balançando as carcaças ao som de uma canção talvez mais velha que seus pais são a sua second line.

Penso nisso sempre que vejo a meninada ouvindo Beatles como se fosse a última sensação da semana que vem.

Alguns anos atrás, eu estava na fila do show de Paul McCartney em Fortaleza quando olhei em volta e percebi que havia centenas de meninas de 15, 17 anos esperando a abertura dos portões.

Uma garota que tinha feito alguma amizade com minha filha na fila, provavelmente impressionada porque tínhamos adentrado os portões da casa de McCartney em St. John’s Wood alguns dias antes, comentou: “Poxa, eu queria ter um pai assim.”

Ela só não apanhou ali porque eu estava mais preocupado em mijar numa garrafa de água mineral no meio da multidão, e as meninas cumpriam o digno papel de barreirinha.

Porque pouco antes, olhando para a multidão de adolescentes ansiosas para ver um ancião tocar as mesmas músicas que vem tocando há 60 anos, eu só conseguia me perguntar: onde vocês estavam 30 anos atrás? Onde vocês estavam quando eu tinha que me sujeitar a blocos de carnaval em busca da única coisa que me interessava mais que Beatles e Balzac?

Saibam vocês que carnaval é coisa tão ruim e medonha que as pessoas têm que encher a cara para suportar.

Onde vocês estavam quando eu tinha que beber cachaça barata para suportar o batuque irritante e eletrônico daquela música que vinha da terra que me havia parido, enquanto meus olhos se tornavam mais míopes ante a visão tenebrosa das pessoas dançando o fricote e a dança da galinha? Onde vocês estavam quando eu me esgueirava pelo Bar do Bruno, por biroscas inconfessáveis, e calado e com um sorriso bovino ouvia Joana, José Augusto, Roupa Nova, Rosana?

Era uma pergunta retórica, apenas. Eu sabia a resposta. Elas estavam ouvindo a música do seu tempo.

Até então eu me dava por satisfeito por ter chegado aos tempos atuais em idade provecta e não precisar ouvir nem fingir tolerar as barbaridades que hoje passam por música popular. Mas depois daquele momento, quando vejo essa meninada ouvindo essa música tão velha, por melhor que seja, é inevitável pensar em como gostaria que tivessem ouvido quando eu era também adolescente, e lido as coisas que eu lia, e me preservado de descer tão abaixo da minha própria dignidade.

Mas para além da minha vida mesquinha e precária, há algo mais grave que isso.

Eu era adolescente e gostava de música de velho, a verdade é essa. Por causa dos Beatles descobri Chuck Berry e Little Richard, e o blues de Chicago, e o jazz de Charlie Parker — na verdade o caminho contrário ao que devia seguir, mas isso é outra história.

Em 1985 Beatles tinham acabado havia apenas 15 anos, mas já eram coisa do passado e fora de moda. Já tinham sido até mais, na verdade, mas a morte de Lennon tinha lembrado as pessoas de sua existência e aos poucos seu nome vinha sendo rememorado; além disso, em 1983 houve uma certa comemoração pelos 20 anos de seu primeiro disco — ou era 84 pelas duas décadas de chegada à América, eu não lembro, memória de velho é uma droga.

E era assim que tinha que ser. Porque os Beatles acabaram em 1970, mas a música pop continuou evoluindo. Hard rock, rock progressivo, heavy metal, o punk e a new wave — e do outro lado dos trilhos o funk e o soul, até mesmo a discothèque — e finalmente o rap e o hip-hop, talvez a única coisa realmente forte, verdadeira, que conseguiu enfrentar os anos 90 e 2000, mas que também já se esgotou a ponto de chamarem Kanye West de gênio.

Se você era jovem nos anos 70 e 80, as rádios e as lojas de discos lhe ofereciam a cada dia algo novo, algo que, bom ou ruim, dava um passo à frente em relação à música que você ouvia ontem.

No final dos anos 70 e durante a maior parte dos 80, a maior banda da história era uma lembrança e uma referência. Não havia por que lamentar o seu fim, nem mesmo tentar fazer parecer atual o que naquele contexto tinha cumprido seu papel histórico, por mais importante que fosse, e agora era apenas mais uma banda do passado, entre tantas outras e tantos ritmos diferentes.

A linguagem que os Beatles tinham criado havia se estabelecido definitivamente, e partir dali milhares de músicos em todo o mundo continuaram a criar algo novo, sem parar.

Algo aconteceu nos anos 90, no entanto: a música pop se esgotou e a internet chegou ao comum dos mortais.

É só olhar para trás e ver que, no campo da música popular, o melhor que aquela década e as seguintes produziram, e continuam produzindo, representava antes de tudo um diálogo com o que veio antes.

Oasis nunca passou de sub-Beatles requentado para os anos 90, alimentando-se de tudo o que tinha acontecido naqueles 25 anos.

Nirvana é uma apropriação muito própria do punk, e o último suspiro de uma linguagem que tinha esgotado suas possibilidades.

O mesmo vale para a MPB, com a diferença de que aqui eram os nomes de sempre tentando fazer o que sempre fizeram enquanto competiam com a revolução do axé music, o pastiche de terceira que é a música sertaneja e a chegada do funk carioca ao resto do país — ou, o que se tornaria praticamente a norma nessa música de “elite”, meninos requentando o que já era velho antes deles nascerem.

E essa é a parte boa. A parte ruim é muito pior do que os mais horripilantes pesadelos de Thomas Edison. À medida que a tecnologia tornou a produção musical acessível a qualquer um, e depois que a internet quebrou o monopólio de distribuição de produtos culturais, abriu-se uma caixa de Pandora que, a cada dia, não cansa de lançar horrores a uma humanidade que não tem mais na música a relação de definição de identidade e comunhão que teve em décadas anteriores.

Não é apenas a produção computadorizada, homogeneizante e desumanizadora. Acontece que, bem ou mal, a estrutura de produção e distribuição de produtos culturais fazia uma triagem mínima — havia, afinal, um lado bom na indústria musical. E assim como, tendo nas redes sociais a ferramenta necessária para ignorar a mediação da mídia, o povo elegeu Bolsonaro, ao poder produzir e distribuir música sem intermediários ele gerou essas atrocidades que hoje passam por música e que fazem o mainstream musical de hoje: um mundo que adora Anitta.

Mas os resultados vão muito além da estética.

Durante algumas décadas do século XX, a música unificou e canalizou as ideias de gerações, tornou-se um elo de ligação entre pessoas das mais variadas origens e destinos. Isso acabou, fragmentando-se em produtos direcionados para nichos e que se prestam essencialmente como combustível para pequenos transes hedonistas e efêmeros.

É por isso que aqueles garotos ouvindo Legião Urbana me incomodaram tanto. É muito triste quando uma geração inteira se resigna a aceitar como referencial a música de meio século atrás, porque ficou mais fácil convencê-la disso.

Alguém consegue imaginar a juventude dos anos 60 ensaiando uma mudança profunda de costumes e percepções enquanto ouvia a música feita não 30, mas 15 anos antes — ouvindo Frank Sinatra e Glenn Miller? Um doidinho em Hashbury balançando a carcaça em meio a uma miríade de cores de LSD e ao som de Al Jolson?

Eu não. Talvez seja mais uma das tantas deficiências minhas. Não importa. O que sei é que sinto um desânimo profundo ao ver relançamentos de discos dos Beatles entre os mais vendidos. Não significam uma vitória da boa música. Significam, ao contrário, a sua derrota.

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