Ruy Castro troca biografia por crônicas em novo livro

“Acrescento que nunca fiz outra coisa na vida senão escrever”, diz Ruy Castro na crônica “Autor da bula”, de seu mais novo livro, “A arte de querer bem (2018).” Trata-se da mais pura verdade. Ruy é um operário das palavras, escritor e jornalista conhecido por livros como “Chega de Saudade”, uma reconstituição da Bossa Nova e da vida boêmia e cultural carioca da época, “Carmen”, uma biografia sobre Carmen Miranda, e “Estrela Solitária”, sobre a vida do jogador Garrincha, entre outros.

As paixões de Ruy, assim como episódios de sua vida jornalística e pessoal, podem ser encontradas nesta nova obra publicada pela Estação Brasil. “Esse livro é um oásis no meio do deserto. Até eu mesmo, que sou o autor, pego para folhear e me sinto no meio de uma ilhazinha, com uma palmeirinha e uma caixinha de sorvete ao meu lado”, diz ele.

O livro é um compilado de crônicas publicadas no jornal Folha de S. Paulo entre 2008 e 2017, em que Ruy expressa o amor por sua profissão, pelo futebol, por sua cidade, pela música e por sua vida. Nestes mais de cem textos, grandes temas e figuras nacionais e internacionais dão lugar a amigos de infância, incursões em sebos ou a história de sua “leitora número 1”.

Os textos são curtos e de fácil leitura. Traços fortes são o humor e a leveza com que o autor conduz os mais diversos assuntos. É assim quando ele conta sobre um bizarro acontecimento, como o de uma máquina de escrever que quase caiu em sua cabeça quando criança, ou até mesmo quando mergulha em reflexões inusitadas, como a da tecnologia de nuvem.

Por ser um compilado de crônicas, uma coisa que falta ao livro são menções às datas em que elas foram publicadas. Com a ausência delas, o leitor pode se sentir perdido em alguns momentos por não ter o conhecimento do contexto em que elas foram escritas – contexto este que é inerente ao leitor de jornal quando lê a crônica no dia. Então algumas referências temporais – como quando o autor escreve “há dois anos”, ou “outro dia” – e citações sobre peças em cartaz, ou até mesmo do ambiente político e cultural, se perdem na leitura hoje. Isso não diminui a qualidade dos textos de Ruy, mas tira o aproveitamento total da experiência de lê-los.

Aos 71 anos, Ruy conta que é fã de crônicas desde os 4, quando a mãe lia para ele os textos de Nelson Rodrigues, seu futuro biografado. Viriam outros ídolos cronistas, que inclusive se tornaram amigos, como Carlos Heitor Cony: “Hoje entendo a cabeça daqueles caras.” Em uma conversa no em seu apartamento, no Leblon, Ruy falou também sobre sua trajetória, seus projetos, o amor pelo Rio de Janeiro e o caso de João Gilberto: “Seria o caso de chamar a polícia”

Qual a diferença de fazer biografias e crônicas?

Na biografia, tenho que ser o mais objetivo, imparcial e impessoal possível. Estou tratando de fatos e pessoas que não me pertencem. Na crônica, não só posso como tenho obrigação de ser subjetivo, parcial e pessoal. O Álvaro Moreyra fez um livro chamado As amargas, não… (1955), ou seja, que não trazia notícias ruins. “A arte de querer bem” é minha versão de “As amargas, não…”: só tem textos que eu espero que façam bem ao leitor.

Quem são seus ídolos cronistas?

Gostava e gosto do Cony, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Nelson Rodrigues, Carlinhos de Oliveira, que era uma sensação. Lia tudo “em tempo real”. Mas hoje, depois que eu passei a trabalhar com a vida e com o legado deles, que passei a entender a cabeça daqueles caras.

Como assim?

Se você pega um jornal de 1942, está lá uma manchete bombástica, Brasil na Segunda Guerra Mundial. Mas isso virou História. Então eu sigo folheando e, no meio daquele troço massudo, num quadradinho, tem o Rubem Braga falando porque, quando era garoto, decidiu que não seria conde. É uma alfinetada no Conde Matarazzo, uma obra prima. Tudo que havia de importante em volta deixou de interessar, e o que tinha de mais fútil e bobo é o que hoje você lê com mais interesse. Esse é o barato do cronista.

Mas dá para ignorar as manchetes?

O cronista precisa estar minimamente atualizado. Isso implica ter que falar de vez em quando de política, citar nomes que não quero reproduzir agora. Mas às vezes sinto que o leitor não aguenta mais, é preciso dar é um refresco da vida real. Hoje fui num médico aí e o cara perguntou: “Você leu o livro do Trump?” Eu comecei a ler, mas é tanta gente que eu nunca ouvi falar, que eu não conheço, que eu parei. Antigamente, eu seria uma autoridade em Donald Trump. Para falar mal, evidentemente. Mas agora estou escrevendo um livro sobre o Rio dos anos 20. Quero saber de Di Cavalcanti, de Villa-Lobos, de Álvaro Moreyra.

Quando você pesquisa o passado, é seu refresco da vida real?

Não. É a continuação de uma coisa que me acompanha pela vida inteira. Vivi o final dos anos 1960 intensamente, a efervescência cultural, os protestos, a revolução sexual. Eu estava nos lugares certos, com as pessoas certas e na idade certa, tinha 20 anos. Apesar disso, você pega a minha produção na época e é uma quantidade de textos sobre Noel Rosa, Chaplin, jazzistas dos anos 1930… Para mim, voltar no tempo sempre foi um prazer muito grande. Tem gente que só pensa em ir a Nova York. Eu já enjoei, fui mais de 20 vezes, não preciso mais. Mas eu adoro ir a 1930, não importa aonde.

Tendo mergulhado tantas vezes no passado do Rio, como você vê ele hoje?

Há muitos anos deixei de levar a sério quem diz “bom era antigamente”. Neste sentido, o passado é negativo. Em toda a história você encontra pessoas dizendo que “o Rio era a Cidade Maravilhosa antes”. Esse “antes” é quase sempre na época de juventude de quem está falando. O que dava a entender que a culpa não é do Rio, mas da pessoa. A Heloísa [Seixas, escritora e mulher de Ruy] me chamou a atenção: quem fala que o Rio está decadente geralmente é alguém que veio para cá jovem, se apaixonou – o Rio inevitavelmente é melhor que a cidade dele – e não se conforma que a cidade mudou.

Sim, mas nos últimos anos…

Claro que tem milhões de problemas que estão cada vez mais graves por inépcia, cretinice e corrupção dos nossos governantes. Tenho a visão mais realista possível. Lamento muito o que está acontecendo. Sei de tudo e que tende a piorar até. Mas eu ainda consigo enxergar as coisas boas.

Uma coisa boa é que a bossa nova, em parte pelo seu livro Chega de saudade chega aos 60 anos melhor do que aos 30. Mas a situação de um dos pais dela, João Gilberto, não é de se comemorar. Você gostaria de comentar?

O isolamento do João Gilberto não me incomoda em nada. Roberto Carlos não aparece para ninguém e todo mundo acha normal, mas o João Gilberto é criticado. A minha opinião definitiva no momento é que ele deveria estar sob cuidados médicos, num lugar adequado, profissional. Em relação a situação dele num conjunto, seria o caso de chamar a polícia. Quem vai resolver isso? Só a polícia.

Vida de biógrafo

Ruy Castro tem a cláusula pétrea: se nega biografar pessoas vivas. “Enquanto o cara estiver aqui, não dá para ser como tem que ser, ou seja: contando tudo.”

Mesmo para falecidos, há regras: “Não aceito fazer biografia de quem não me interessa a priori. Morto ou vivo, vou ter que conviver com essa pessoa por anos.”

O próximo projeto de Ruy é um livro sobre o efervescente Rio dos anos 1920, previsto para sair no final de 2019. Já tem título, que ele prefere não divulgar.

Ruy morou no Solar da Fossa, onde hoje é o Shopping Rio Sul, e recorda do clima liberal: “Pedia-se no pátio interno: ‘Fulana, me empresta o diafragma?’ Ninguém ligava, era normal.”

Biógrafo de Carmen Miranda, Ruy faz parte da campanha, ainda sem sucesso, por uma estátua da cantora no Catete. “Tem estátua de tanta gente menos importante…”, comenta.

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