Saco cheio de exageros politicamente corretos

Por Mouzar Benedito

“Diva”, uma escultura da artista pernambucana Juliana Notari, ganhou destaque na imprensa nacional e internacional. Uma amiga me mandou uma matéria bem grande publicada no The Guardian. A Folha de S. Paulo deu quase uma página inteira para ela. Em todos os lugares, a foto dela, vermelha, grandona… 33 metros de altura. Uma vagina!

E protestos de conservadores que acharam um escândalo, uma indecência.

Daí, em seguidas, artigos de homens e, principalmente, mulheres. Feministas aproveitaram para falar da vagina usando muitos sinônimos. Legal.

Mas fiquei sabendo que militantes do politicamente corretos não aceitam que a gente use certos sinônimos usados corriqueiramente, pelas próprias feministas inclusive. E para se referir a pênis também é preciso ser comedido nos sinônimos. Nada de usar palavras que usamos normalmente, no dia a dia, sem que ninguém se sinta com os ouvidos violados.

Para justificar isso, alguns usam a expressão “lugar de fala”: só mulheres podem falar dela usando um palavreado livre. Eu não tenho vagina, se for falar dela tenho que me policiar para não usar certas palavras. Uma chatice.

Não gosto da expressão “lugar de fala”, mas entendo que, no caso de racismo, por exemplo, um branco de classe média nunca sentiu o que um negro sofre, principalmente se for pobre. Mas isso não impede que um branco de classe média apoie a causa antirracista. Assim como um homem pode escrever sobre temas femininos e mulheres sobre temas masculinos. Chico Buarque é a prova disso: tem músicas que expressam com precisão sentimentos femininos.

E o politicamente correto também é uma expressão que vai se tornando cada vez mais chata. Os exageros de seus defensores acabam dando munição para a direita, pois irrita quem não quer ser “politicamente incorreto”, mas é cobrado por coisinhas que não ofendem. É um policiamento perpétuo.

Dá a impressão que certas pessoas têm tantos tabus quanto a ministra Damares e seus seguidores. Às vezes parecem ser duas faces da mesma moeda.

Sei que vou ser xingado – exagerei na comparação, não é?

Mas por causa da escultura da artista pernambucana e umas coisas que ouvi de “politicamente corretos”, eu me lembrei de uma matéria que publiquei na revista Fórum em fevereiro de 2012, quando ela era impressa, mensal.

Procurei no computador e achei o texto, que repito aqui.

POLITICAMENTE CORRETO!

Tenho ouvido muitos discursos “politicamente corretos” em que não falta nunca a expressão “todos e todas”, e comecei a pensar em certas figuras que tiveram apelidos que chocariam os ouvidos de muita gente hoje em dia. Vou dar alguns exemplos.

Será que se o Cego Aderaldo – grande cantador nordestino – vivesse hoje seria chamado de Deficiente Visual Aderaldo?

O Aleijadinho seria Deficientezinho Físico?

Plínio, o Velho, naturalista e escritor latino, seria convertido a Plínio, o da Melhor Idade?

Fico pensando nas palavras negro e negra, bonitas e com um grande significado simbólico adquirido naturalmente, pela militância de sua gente, e que não podem ser mais usadas. O grande líder da Revolta da Chibata, João Cândido, que recebeu o epíteto Almirante Negro viraria Almirante Afrodescendente?

E aí me vem à cabeça um samba divertido de Stanislaw Ponte Preta, o Samba do Crioulo Doido… Duas infrações ao politicamente correto num único título de música: crioulo e doido. Stanislaw deve estar no purgatório, com os ouvidos queimando por causa disso. Para socorrê-lo, fiz uma letra para um samba politicamente correto com o mesmo tema, não simplesmente “traduzindo” para a corretice o samba dele.

Quem sabe seu espírito baixa num novo Noel Rosa ou num novo Afrodescendentinho da Beija-Flor e faz uma música para ele, e assim escapa de continuar purgando seu pecado e vai pro Céu. Aí vai a letra, Stanislaw.

SAMBA DO AFRODESCENDENTE

DESPROVIDO DE PENSAMENTO LÓGICO

Arnaldo, ô ô Arnaldo,

Afrodescendente

Desprovido de pensamento lógico…

Sabe, gente,

Vou contar o que ele fez recentemente

Tão nobre figura

é beleza pura:

Verticalmente prejudicado,

De idade provecta,

Tem raciocínio lento e confuso

E no uso da memória é difuso.

Sua orientação sexual

É dirigida para seus pares

– não vejo nisso nada de mal…

Mas é também adepto da zoofilia,

Com preferência erótica dirigida

– oh, que vida! –

Para equinos do sexo feminino

E desde menino

Concretiza seu congresso sexual

Com muito enlevo

Usando uma pequena elevação do relevo.

E sabe quem o Arnaldo conheceu?

– Orra meu!

É Sheila, seu nome artístico,

Horizontalmente avantajada,

Habitante de moradia improvisada

De baixíssimo custo,

Sem conforto nem luxo,

Situada num conjunto

De edificações semelhantes

Cada dia mais habitadas do que antes.

Por carência de condições

Nessas edificações,

Como se fosse europeia

Que não usa perfume.

Essa teteia,

Exala odores que indicam

– e por isso alguns implicam –

Ausência de higiene pessoal diária.

Portadora de estrabismo,

Ela viu maravilhas e lirismo

No Arnaldo,

E deu bom caldo.

Foi correspondida

E acabou sua vida sofrida.

Contraíram núpcias

Vestidos com roupas rústicas,

de tons fúcsias

E como num conto de fadas

Vivem felizes, de mãos dadas.

Parte falada, no final:

Mas os politicamente incorretos

Resumem maldosos essa história:

Arnaldo, um crioulo doido, baixinho,

Velho babão, aviadado,

Mas barranqueador de égua,

Conheceu a Sheila – é nome de guerra –

Gorda e vesga,

Favelada, fedorenta, que não toma banho.

Ela gostou dele e ele dela.

E juntaram os trapos.

Problema deles.

(*) MOUZAR BENEDITO é um branquelo de alma cafusa (negra e índia), autor do livro Luiz Gama, o libertador de escravos, e sua mãe libertária, Luíza Mahin.

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